
Para Hansel Soto Hernandez
Há não muito tempo atrás, em termos de tempo histórico, Cuba era um misto de bordel e cassino destinado ao deleite dos mafiosos e outros empresários prósperos oriundos dos EUA. Com a Revolução Cubana, entre 1953 e 1959, os cassinos foram destruídos pela população em fúria, e foram criados os Hogares Maternos (Casas Maternidade), instituições de assistência às mulheres cubanas parturientes, de forma a reduzir os riscos gestacionais e perinatais. Tais cuidados, no bojo de uma política de Estado comprometida com a saúde da população, em detrimento da saúde como mercadoria e privilégio de uns poucos, permitiram a Cuba ostentar, por décadas, índices de mortalidade infantil dentre os mais baixos da América (TODA a América) e do mundo.
Cuba haveria de pagar caro pela ousadia de se querer autônoma, popular, socialista. O torniquete de um dos mais ressentidos e perversos bloqueios econômicos da História contemporânea tornou a vida cotidiana particularmente difícil. No tempo em que tive o privilégio de visitar a Ilha, colegas docentes universitários me falavam de seus salários inacreditáveis, da dificuldade de adquirir os insumos mais básicos do dia a dia, da escassez de oportunidades para a juventude. Tempos depois, em pesquisa acerca do trabalho dos médicos oriundos de Cuba, em apoio à interiorização da medicina brasileira, pude perceber, junto com minhas doutorandas, a qualidade da medicina oferecida por estes médicos aos brasileiros em demanda de cuidados – cuidados que não perdiam de vista a pessoa íntegra que atendiam. Em conversa com estes profissionais, muitos aludiam abertamente ao tanto de desafios diante de Cuba, a começar pelas próprias contradições que a experiência histórica lhes propiciava: libertação do jugo infame do banditismo corrupto setentrional, restrição de liberdades políticas caras às classes médias afluentes. Em Havana, conversando com um motorista daqueles táxis cubanos icônicos, ele me falou do quanto se orgulhava de ser cubano, apesar da dificuldade imensa de ter a posse do carro que explorava como táxi. Falou-me da inveja imensa de saber que os pneus de meu carro, no Brasil, eu os havia comprado numa ida a um prosaico supermercado de bairro, sem alarde e sem stress.
Cuba jamais se pretendeu o recanto idílico e utópico onde as flores produziam hidromel, os pássaros arrulhavam canções harmoniosas, os conflitos se dissolviam à luz da parcimônia socialista, as esferas do público e do privado jamais se sobrepunham. Cuba nasceu da luta selva adentro de um punhado de guerrilheiros duros como a madeira de lei, e ao mesmo tempo orgulhosos de não perder de vista a ternura. A esperança. A confiança. Os ideais.
Ah, esses ideais odientos, eles jamais foram engolidos pela superpotência logo ali, nas margens setentrionais do Mar do Caribe. Tais ideais sempre foram um acinte. Uma bofetada silenciosa. Malditos cubanos que, depois de tudo, ainda vêm com a sonoridade caliente de Ibrahim Ferrer e de Compay Segundo, do Buena Vista Social Club. Como é possível?
Resta o ódio medíocre de quem se arvora no direito de dizer, em alto e bom som, que haverá de calar Cuba, desfazer esse desarranjo desafiador que se instalou em seu quintal. E isso em nome de quê? Ora, nem esses ogros ousam confessá-lo. Pois o que lhes resta de perceptividade sabe que o que mais lhes oprime e rebaixa, diante da nação cubana, é o fato de que esse povo moreno e milongueiro jamais deixou de esperançar. Jamais parou de exibir, mesmo em manifestações nas quais clamava suas dores e desditas, a palavra pátria. Porque, em Cuba, pátria não é conceito castrense que se impõe no rebenque, e sim palavra de ordem do coletivo e da nação face ao oligopólio.
Do seu posto literário de observação cubano, entre a Bodeguita del Medio e o Floridita, Hemingway chegou à conclusão que, agora, peço licença para estender a Cuba: assim como “um homem pode ser destruído, mas jamais vencido”, Cuba poderá ser arrasada por canhões, garroteada pelo bloqueio petroleiro, vilipendiada pelas centrais de narrativas dos intelectuais bacanas, abandonada pelos pretensos regimes de esquerda mundo afora (todos se borrando de medo de tarifaços, pois penúria, finalmente, é para cubanos…), enfim: Cuba pode passar pelo garrote vil herdado do dominador espanhol, mas persistirá, lá onde algum cubano, ou mesmo argentino como Mercedes Sosa, murmurar que seu sonho, qual unicórnio azul mítico, “se me perdió”, se extraviou, mas não morreu. Pois unicórnios azuis, inverossímeis que sejam, merecem uma canção e uma esperança, merecem uma cubana e um cubano que elevem a voz numa serenata habanera caribenha.
Cuba viverá.
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