
Há um artista que muito aprecio. Ele revela poesia em forma de imagem: pinta, fotografa. Dele, um instantâneo recente: três mulheres diante do mar. Na Praia Brava — a praia do Orelha, em Florianópolis. Estão sentadas, e as vemos de costas. Mesmo sem lhes mirar os rostos, é possível adivinhar o olhar de contemplação, talvez de fascínio ou, quem sabe, de questionamento. O autor da foto é Jaime Baião, um amigo.
A cena parece um convite para sentarmos também. É possível acompanhar o ritmo sereno da maré, as nuances que se diluem sob a luz nascente, o compasso inconfundível de um coração que acolhe e envolve. Num átimo, a existência se revela branda.
A imagem não responde nem resolve, mas ameniza o peso de manhãs em que notícias de violência imperam: no front, nos maus-tratos a humanos e animais, ou no cenário marcado pela fita amarela que demarca e registra mais um feminicídio.
Pode parecer simplista, mas guarda a força da verdade contida em poucas palavras de Carl Gustav Jung (1875-1961), fundador da psicologia analítica: “Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro.”
No caso dos feminicídios, há comportamentos que se repetem. A conexão com a citação de Jung encontra-se na dinâmica entre o Ego, a Persona e a Sombra. Quando ele afirma que o predomínio do poder exclui o afeto, descreve uma patologia do controle. Para a psicologia analítica, amor e poder são forças opostas: o amor exige a alteridade — reconhecer o próximo como um ser independente. Já no desejo de poder, há a busca pela posse, tratando o outro como objeto ou extensão de si mesmo. O agressor frequentemente opera sob uma inflação do Ego, acreditando possuir direito de vida e morte sobre a parceira.
A Sombra representa tudo aquilo que negamos em nós mesmos. O agressor projeta na mulher sua própria fragilidade. Ao não aceitar sentimentos de inferioridade ou medo, tenta destruir externamente a figura feminina que, em sua mente, tornou-se o espelho de suas frustrações. Jung observou que o comportamento humano é regido por “complexos”. O feminicídio é o estágio final de um sistema de dominação no qual o agressor isola a vítima, reduzindo seu mundo. Ela deixa de ser pessoa e passa a ser símbolo de propriedade. Quando esse controle é ameaçado — no término de uma relação, por exemplo —, a sombra toma a consciência e resulta no ato extremo.
A foto de Baião é uma metáfora do que precisamos aprender. A beleza não está em subjugar, mas em testemunhar a existência do outro em sua total liberdade. Se o feminicídio é o ápice do desejo de domínio — essa tentativa vã de aprisionar a vida dentro de um Ego inflado —, a arte de contemplar o mar simboliza o resgate necessário da nossa humanidade. Diante da imensidão, o ímpeto de posse se dissolve; percebemo-nos pequenos, mas parte de algo infinitamente maior e mais belo. Para curar o trauma social e deixarmos de estender a fita amarela, que interdita a vida e isola a tragédia, é preciso dar-se conta da paleta de cores que nos oferece o sol nascente. É preciso entender, enfim, que o amor habita o horizonte aberto, e não o território cercado: ele só existe onde o controle se retira para deixar o outro simplesmente ser.
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