
Esta é a história do Oivalf, um malandro do avesso… desses que, nas quebradas, é chamado de comédia, quando não de pato, aquele que paga a conta… Para justificar a intimidade com que tratou um interno do sistema prisional do país, ele alegou a própria carioquice, que considera todo mundo irmão. Aquele fala, mermão, usado quando se dirigiu ao mecenas com dinheiro alheio, a quem pedia ajuda, como vamos ver…
Pois o cara, escalado pelo pai – o chefão, que está guardado – para assumir a gerência dos negócios, pensou que a bênção paterna também lhe garantia condições de dirigir o pesado bonde da família e dos brothers.
Oivalf resolveu dar um caixote em todo o próprio time, e até nos adversários, sem perceber que estava dando mole pra onda, onde levaria um caldo…
Como ninguém sabia da armação, ninguém pode avisar: – Na boa, Oivalf, querendo ser malandro, você vai pagar de mané…
E, assim, o esperto deixou de lado todos os mais chegados e foi levar um papo reto com o Dandan Oracrov, esse sim – como diria o Chico Buarque – malandro com contrato, gravata e capital, que (observação minha: não fosse o Xandão) nunca se dá mal…
Para se firmar na disputa da gerência, Oivalf tinha resolvido fazer um filme para contar a história do próprio papai. Uma tentativa de lavar o péssimo legado da gerência do progenitor… E tinha que ser filme americano, com ator e diretor dos States…
Até contrato foi assinado. Contrato exige grana. E Oivalf não estava a fim de rachar a dele para pagar os americanos e os brasileiros envolvidos com a produção cinematográfica.
Mas quem tem grana para distribuir sem muita pergunta, a não ser, claro, aquela clássica: o que eu ganho com isso? Ora, o Dandan…
E lá se foi o carioca da gema falar com o mineiro do mundo. Como em qualquer armação, o papo não podia acontecer pessoalmente. Primeiro, trocaram mensagens por WhatsApp em novembro de 2025. Oivalf abriu a conversa com Dandan, revelada pelo Intercept Brasil:
– Fala, mermão. Pode atender?
Dandan responde:
– Fala, irmãozão, to na igreja, terminando, te chamo (sic).
Oivalf se derrete:
– Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz. Abs.
A luz pedida, uma verdadeira usina hidrelétrica, também foi divulgada na reportagem do portal Intercept Brasil, que teve acesso à mensagem de áudio enviada pelo filho do pai preso ao Oracrov:
Irmão, preferi te mandar o áudio aí pra você ouvir com calma. Bom, aqui a gente tá passando por um dos momentos mais difíceis da nossa vida, né? Não sei como é que vai ser daqui pra frente. Como é que isso tudo vai acabar, mas tá na mão de Deus aí… E você também, eu sei que ce tá passando por um momento dificílimo aí também… essa confusão toda. Você sem saber como é que vai caminhar isso tudo… E, apesar de você ter dado liberdade, Daniel, de a gente te cobrar… eu fico sem graça, tá, de ficar te cobrando, mas enfim… é porque tá num momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e fico preocupado aqui com o efeito ao contrário do que a gente sonhou pro filme, né? Imagina, a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus… os caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano mundial. Pô, ia ser muito ruim. Todo o efeito positivo que a gente tem certeza que vai vir com esse filme pode ter efeito elevado a menos um, cara. Então se você puder me dar um toque, uma posição aí, Daniel, porque a gente precisa saber o que, cara, o que faz da vida, porque já tem muita conta pra pagar este mês e no mês seguinte também, e agora que é a reta final, que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo, cara… todo o contrato, perde ator, perde o diretor, perde equipe, perde tudo. Se puder, me dá um toque aí, irmão. Desculpe o áudio longo aí, tá? Um abração. Fica com Deus, cara.
O mesmo pessoal do Intercept interceptou mensagens do Oivalf ao Oracrov pedindo perto de R$ 132 milhões para financiamento do filme Dark Horse. Orçamento maior que muito oscarizado por aí. Dark Horse, como você sabe, é azarão. Azarão é o cavalo que ganha a corrida sendo o menos apostado no páreo. Bom, as reportagens indicam que o Dandan repassou metade da grana.
Mas o que importa, agora, nem é mais o preço do filme. É para onde, de verdade, na boa, foi a grana toda. E o Oivalf, o novo Azarão na corrida pela gerência nacional, corre risco de ficar fora da corrida. Seus apoiadores não querem se misturar com o financiamento de cocheira, disponibilizado pelo Oracrov, que está preso. Os adversários querem que ele explique as ligações com o picareta e já pediram para os tiras investigarem a ligação com Dandan.
Como todo malandro sem sorte, Oivalf já disse que o que estão contando não é bem assim, depois disse que não é bem assim, mas pode ter sido, que ele é só um pobre filho em busca de dinheiro para homenagear o pai…
Como todo malandro agulha, Oivalf vai se livrando dos amigos mala enquanto tenta limpar a própria cara. Quando perguntaram para ele se o senador Ciro Nogueira, acusado de receber mesada de até R$ 500 mil do Dandan, ainda era o vice dos sonhos dele para compor a chapa na disputa da gerência, ele foi rápido no gatilho: “Quando falei que era o vice dos sonhos, eu fiz uma cortesia…”
Agora, para justificar as conversas e o pedido de dinheiro ao Oracrov, Oivalf diz que o ex-banqueiro e atual hóspede do sistema penitenciário deixou de cumprir contrato para financiamento do filme sobre o papai. O contrato? Ele não mostra. É confidencial…
Pelo jeitão que está tomando, a corrida rumo à gerência vai ter forfait. Oivalf – o Dark Horse filho – pode ser substituído no caminho para o partidor por outro Azarão qualquer. E até o Dark Horse original pode ficar sem o filme… A malandragem pode ter engolido os malandros…
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