
É dia 25 de março. Estamos tentando recuperar os atrasos da visita de ontem a Belém. Agora, nosso táxi leva mais meia hora para ir de São Vicente à região dos famosos pastéis. Mas não compramos pastéis de nata na loja oficial de novo; compramos um pouco mais além, onde a pastelaria não tinha movimento. Para nós, são iguais aos da Graça. Mas estamos comprando pastéis de nata em Belém, e não pastéis de Belém, pois há a questão do copyright. Olho de novo as filas em frente ao Mosteiro dos Jerônimos, mas, desta vez, estamos preparados: já sabemos onde há restaurantes turísticos, não precisamos mais almoçar junto aos restaurantes populares. Não que a comida seja ruim; na verdade, o preço é bom, mas não muito diferente dos restaurantes atrás de onde estávamos no dia anterior — era só dar uma volta na quadra, entende? — e teríamos a vista para o rio Tejo. É o que acontece quando viajamos sem planejamento. Tudo bem. Almoçamos uma Francesinha.
Enquanto caminhávamos pelas ruas da Graça, eu via que este era um prato bastante comum nos restaurantes para os turistas. Pesquiso e descubro que é originário da cidade do Porto na década de 1950, produto de uma adaptação do croque-monsieur francês. A lenda diz que foi criado por Daniel David Silva, um cozinheiro português que trabalhou na França e na Bélgica, que, ao regressar a Portugal, começou a atuar no restaurante A Regaleira, na Rua do Bonjardim, no Porto. Ele adaptou o francês ao paladar português, que aprecia sabores mais intensos e refeições mais proteicas. O nome surgiu porque “a mulher mais picante que conheço é a francesa”, alusão ao molho apimentado que criou. Sim, o prato que inúmeras mulheres comem com alegria e satisfação tem seu nome associado a uma origem machista, é baseado num estereótipo sexual que as fetichiza. Em tempos politicamente corretos, nunca levaria esse nome, mas o prato do Porto se tornou clássico: em 2011, a francesinha foi considerada um dos 10 melhores sanduíches do mundo pelo portal Aol Travel, consolidando a sua fama internacional.
A origem de pratos típicos
Sou historiador e não me dou por satisfeito. Que é este tal de “croque-monsieur” que está na sua origem? Este é um prato parisiense, comum em cafés, que surgiu pela primeira vez em um menu em 1910. Ele também é um sanduíche, mas mais simples, de presunto e queijo (geralmente Gruyère ou Emmental), feito em pão de forma, grelhado na manteiga ou no forno. O diferencial é que ele costuma levar um toque de molho bechamel por dentro ou por cima para garantir a cremosidade. Sim, é só um sanduíche, e, como você, eu fazia sanduíches em casa na infância para levar para a escola, com presunto e queijo também, e, se tivesse o dinheiro para comprar qualquer outro tipo de queijo que não fosse muçarela, que era mais caro, eu estaria levando na mochila para a E.E.E.F. Rio de Janeiro, onde estudei na infância, aquele casarão histórico na Rua Cel. Vicente, um croque-monsieur. De novo, lembro-me da luta de classes da minha infância, pois até os sanduíches de meus colegas mais ricos eram melhores que os meus. A receita portuguesa agradou porque não é um lanche, mas se propõe a ser uma refeição completa, porque acompanha bife, linguiça e salsicha. O molho também se aprofunda, já que substitui o bechamel e o queijo gratinado pelo molho picante à base de cerveja e tomate. Picante: pronto, me lembro das origens machistas. Dizem que Croque-Madame é o mesmo lanche, mas com ovo por cima, já que o ovo lembraria um chapéu feminino da época. Ele já está adicionado na Francesinha, para encorpar o prato, e é um conhecido dos sanduíches comuns brasileiros – lembra-se da pedida: com ou sem ovo?
Estive no Porto e não me detive no restaurante A Regaleira, pois não sabia de sua história ligada à Francesinha. Quando passamos por ela, era para o guia nos mostrar que sua arquitetura era igual à da Livraria Lello, e que, por isso, poderíamos vê-la em vez daquela, que tinha muitas filas. Situado na Rua do Bonjardim, no Porto, foi fundado em 1934 por António Passos, e transformou-se em um marco histórico da gastronomia portuense. Eu fico surpreso porque restaurantes imponentes e similares de Porto Alegre sucumbiram, como a Confeitaria Rocco, que lhe é anterior, de 1912. Tanto A Regaleira como a Confeitaria Rocco eram restaurantes para a alta sociedade, seja do Porto ou Porto Alegre. Ambos passaram por momentos críticos. A Regaleira fechou em 2018, após 84 anos de funcionamento contínuo, mas retornou em 2021, há alguns metros de distância, com a mesma decoração e equipamentos históricos, diferente da Confeitaria Rocco, que encerrou suas atividades em 1960 e nunca mais retornou à operação. Está tombado, o que é um alívio, mas, sem a preservação prometida pela Prefeitura, tende a se deteriorar.
Um taxista paranóico
Voltamos agora com um motorista de aplicativo português. Ele disse que transportou os técnicos que foram a um submarino atracado no porto para instalar sensores em alto-mar para detectar tsunamis. Já sabíamos dos treinamentos da população para tsunami porque a previsão é que, em menos de 10 anos, outro de grandes proporções aconteça. No entanto, e talvez meu motorista seja um pouco paranoico, ou não, ele teme que antes do tsunami vá ocorrer outra catástrofe. É que, em função da guerra com o Irã e do grande número de muçulmanos na cidade, ele teme que possa haver um atentado na ponte que liga Lisboa a Almada. Ele está falando isso porque estamos vendo a Ponte 25 de Abril. Eu a vejo à distância enquanto o carro se desloca ao longo do rio Tejo. Posso ver da janela como é grande. Inaugurada em 6 de agosto de 1966, é uma das imagens que marcam a paisagem da cidade e uma das maiores pontes suspensas do mundo. Enquanto passo com o táxi e vejo a ponte, fico imaginando como os supostos terroristas islâmicos portugueses, que já passam trabalho para manter suas vendas de esquina no meu bairro, São Vicente, fariam o atentado; afinal, ela tem 2.277 metros e o vão principal, a distância entre as torres, é de 1.013 metros. Qualquer um que tente fazer algo teria de lidar com torres que atingem 190 metros acima do nível da água, enfrentar um tabuleiro rodoviário situado a 70 metros de altura, pois é por onde passam os grandes navios do Tejo. Penso nos 3.000 trabalhadores que participaram de sua construção, no avanço de construir uma ponte numa zona de risco de terremoto com técnicas que garantem sua resistência. E, frente a todo este avanço, penso como um único terrorista poderia, segundo meu motorista, implodir e fazer um desastre logístico na cidade. “Cá” eu tenho minhas dúvidas…
Volto para casa para olhar as notícias e, hoje, a que chama a atenção comprova que a comida é, de fato, muito importante para os portugueses. Vejo que o presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais, foi formalmente acusado pelo Ministério Público (MP) pelos crimes de peculato e abuso de poder. O motivo é que ele gastou cerca de 150 mil euros em mais de 1.400 refeições pagas indevidamente com fundos públicos entre 2017 e 2024. Ele gosta de almoçar bem! Havia faturas que ultrapassavam 900 euros por refeição e despesas incluíam marisco, bebidas alcoólicas, digestivos e até tabaco. O MP requereu a perda de mandato, o que foi refutado pelos acusados porque, segundo eles, “as despesas fazem parte da ‘atividade administrativa normal’ de uma autarquia da dimensão de Oeiras. As refeições eram de caráter profissional e de representação, envolvendo frequentemente vários dirigentes. Relativamente ao tabaco, Isaltino admitiu ter sido um “erro pontual” numa fatura, que afirmou já ter pago do seu próprio bolso.” Foi um caso de grande repercussão na imprensa local.
Comida corrompe?
O caso me lembrou o episódio que envolveu o falecido professor Voltaire Schilling e a então secretária de Cultura, Mônica Leal. Sempre fui fã dele; suas aulas eram ministradas em amplas salas de pré-vestibular e eram concorridíssimas quando eu era estudante. Ele foi nomeado por Germano Rigotto para diretor do Memorial do Rio Grande do Sul e demitido por Mônica Leal, com o argumento de que Schilling deveria se dedicar menos aos Cadernos e mais a projetos de maior abrangência. Nos bastidores, sabíamos que Leal criticava o indevido uso de recursos que ele fazia da secretaria também em jantares e refeições. Ele era um péssimo administrador dessas coisas — eu mesmo descobri anos depois que ele lia muito, mas era incapaz de fazer uma simples declaração de imposto de renda. “Tenho coisas mais importantes para ler”, dizia. Na época, critiquei Leal, que estava fazendo seu papel: dar limites a Schilling. O Memorial sobrevivia à época com pouco mais de R$ 25 mil por mês. De fato, ele nunca soube encaminhar com decência uma nota fiscal à secretaria. Pagou por isso com seu cargo. Exatamente como nosso representante português. Morais é o Schilling português, mas a diferença para mim é que, em um, a corrupção é intencional; no outro, não. Ele não tinha paciência com a burocracia.
Caminho até a padaria mais próxima para comprar croissants, pão d’água e pastéis de nata. Consegui a façanha de não comprar pastel de Belém em Belém, porque no segundo dia continuavam as filas de YouTubers para fotografar, e já não tenho certeza se quero passar por esse sacrifício para comer. Caminho pela planta dessa cidade labiríntica para chegar a uma padaria: a cidade é a própria imagem da repetição de si própria. É preciso comparar as vantagens da arquitetura labiríntica em relação à arquitetura planejada: as vilas populares brasileiras apenas a atualizam, sem a realeza dos prédios portugueses, apenas mantêm a sinuosidade das ruas. Olho a cidade, olho as suas notícias e deixo de ouvir as do meu país, substituindo-as pelas de outro. Sou o imigrante da cidade, mas também das notícias, passeio por um labirinto de ruas que são para mim uma novidade; vejo um labirinto de programas de TV com apresentadores que nunca ouvi falar, sem falar dos debates com especialistas desconhecidos para mim. Em ambos os programas, os deles e os nossos, os problemas são os mesmos. Em relação ao Irã, portugueses que se comparam com espanhóis em resistência às medidas da guerra numa disputa que deve ter início nos reinos de Aragão e Castela, da mesma forma que nós disputamos com os argentinos.
A evolução urbana do centro histórico
Essa cidade tem uma história ainda desconhecida para mim. Eu sei disso porque vejo ruínas por todo o lugar, pedras uma sobre a outra que compõem as paredes de castelos antigos e suas muralhas. Pesquiso e descubro que a evolução urbana do centro de Lisboa (Alfama, Baixa, Chiado, Graça) é marcada por uma estrutura medieval orgânica nas colinas (Alfama/Graça), em contraste com o traçado pombalino ortogonal na zona baixa, reconstruído após o terremoto de 1755. Ao longo dos séculos, a área evoluiu de um núcleo fenício/romano para o centro do império português, sofrendo recentemente constantes intervenções de reabilitação, gentrificação e modernização, especialmente no Chiado e na Baixa. Estou em São Vicente e, por isso, sou vizinho de Alfama, um dos bairros mais antigos por suas raízes romanas e influência moura. Quando passo pela Cerca Velha (também conhecida como Cerca Moura ou Muralha Romana), vejo uma extensão de 1,5 km de pedras já sinalizada para fins turísticos, que vai até o Castelo e a Sé. Há vestígios integrados aos edifícios atuais, o que é notável, especialmente no Pátio Dom Fradique, que fica perto do Chão da Feira, onde passei no dia anterior. É onde se encontra o mais extenso vestígio visível da muralha. Há pedaços de uma das torres da Cerca Velha incorporados à fachada do Museu de Artes Decorativas, e na Casa dos Bicos, que visitei rapidamente, há no seu interior também vestígios, já que a muralha se aproximava do rio.
Estou dentro de um desses castelos e olho essas pedras do seu muro. Penso nas reflexões de Wolfran Eilenberger do livro intitulado “As pedras sofrem?” (Taurus, 2023). Nesse pequeno manual filosófico, o autor refere-se à mesma sensação que tenho ao olhá-las. Como ele, eu sei que há ali um arquivo de violência: não apenas a que elas presenciaram, a das guerras de conquista, dos impérios que se sucederam um a um em Lisboa, mas ao próprio caldo da terra da perfuração colonial. De onde foram extraídas? Esses monumentos de Lisboa, presentes nas paredes das igrejas e nas fortificações, por todo o lugar expõem-se como testemunhas silenciosas. Diz Eilenberger: “Todas as pedras estão a serviço da história do vencedor. Eles sofrem? Claro que sofrem; foram arrancados de seu local de origem para construir os monumentos da arrogância humana. A pedreira é o útero violado de Pachamama”, diz. Vemos essas pedras de forma indiferente porque somos turistas demais. Lembro das pedras antigas de Porto Alegre que o prefeito Sebastião Melo mandou cobrir com asfalto em frente à Igreja das Dores. Elas também resistiram ao tempo, viram a execução de escravos, mas foram incapazes de sobreviver aos desmandos das autoridades neoliberais, mas, felizmente, a Justiça mandou tirar depois. As pedras porto-alegrenses, como as lisboetas, são nossa irmã mais velha na resistência ao … capitaloceno! Penso nessas pedras como testemunhas de nosso sofrimento, mas também que o mundo inorgânico também está aí para nos oferecer uma arma, é uma espécie de delírio anarquista que posso fazer. Afinal, sou só um turista, aspirante a filósofo.
O autor quer nos devolver a dignidade do espanto frente a essas muralhas portuguesas, mas, de certa forma, eu vejo como saída e fuga. Penso: “Voltemos às pedras! Voltemos a construir cidades como no passado, como as de Lisboa, que imediatamente nos chamam para a lama, para o pó, para a poeira e… para as pedras que jogamos nas revoltas e revoluções!” Não é exatamente isso que também propõe o filósofo e historiador de arte francês Georges Didi-Huberman, no livro “Levantes” (Sesc SP)? A obra é essa intensa e abrangente reflexão artística, filosófica, histórica, política e estética sobre a temática dos levantes e insurreições que permeiam as sociedades e os signos que encontram de uso e expressão. Um desses signos está sintetizado na imagem de capa: o jovem estudante que pega uma pedra para jogar contra o poder. É que a pedra é sempre a base de uma construção, mas é também o signo de uma luta. Nessas fortalezas portuguesas, cheias de pedras, também aconteceram levantes; muitos foram feitos diante dessas muralhas contra o cotidiano dos reis e da nobreza. Posso imaginar, na Revolta dos Mesteirais, no século XIV, um movimento de mestres de ofício/artesãos de Lisboa contra a oligarquia camarária que os afastava das decisões políticas, em que muitos jogaram pedras no castelo. Quantas aventuras coletivas essas paredes de pedra não testemunharam? Aqui em Lisboa, mas também em Porto Alegre. Nos termos do filósofo Antônio Negri, a imagem do jovem que joga a pedra quer nos dizer que é o peso da insustentabilidade da vida que faz as revoltas. Essas pedras espalhadas por muros milenares de Lisboa, como quaisquer outras, estão aguardando aqueles que o capitalismo deixou descalços para… a luta social!
Minhas reflexões vão além das pedras. Quero saber como essa região sobreviveu ao terremoto de 1755. A razão é simples. Os bairros de Alfama, como também Graça e São Vicente, sobreviveram por estarem localizados em uma região alta e possuírem suas construções alicerces sólidos, mantendo seu traçado medieval. É curiosa essa história: o lugar que hoje é um destino de turismo de massa internacional, atraindo milhares de pessoas com condições econômicas privilegiadas para viajar, era originalmente o lar de pescadores e pessoas pobres. Essa massa rica que viaja para Alfama busca uma identidade cultural numa região originalmente pobre. Só dos Estados Unidos, são mais de 2,3 milhões de visitantes, seguidos por brasileiros como eu, franceses, espanhóis e britânicos. Eu sou o turista explorador, o que caminha por Alfama à procura da sensação de estar no labirinto medieval. Perder-se nas ruas é meu destino.
Gentrificação deles e a nossa
Lisboa tem os dois mundos urbanos: o do crescimento em labirinto e o do planejamento ortogonal, como o da Baixa Pombalina, região de comércio tradicional com suas ruas não tão estreitas, como a Rua Augusta. Essas ruas planejadas contrastam com os labirintos de Alfama porque nelas é impossível se perder; nas ruas de Alfama, como a São Tomé, não. Se você desviar, você não consegue mais se achar. Essa forma geométrica da Baixa é racional; a disposição labiríntica de Alfama é emocional; a cidade planejada da Baixa é feita de gaiolas comerciais, essas grandes marcas para turistas, onde os preços são sempre iguais; Alfama, por ser uma localidade original, ainda tem alma, tem o pequeno armazém no qual ainda se pode negociar. Bairro Alto, Chiado, Baixa: quantos anos de desenvolvimento para chegar à zona elegante de livrarias e cafés históricos? Alfama: quantos séculos conseguindo manter uma… alma! Lembro do que perdemos em Porto Alegre ao desenvolver, junto ao bairro Centro, hoje chamado também de Centro Histórico, onde o que é antigo apenas sobrevive frente ao centro bancário em que se transformou. Os lisboetas têm sorte. Nós não.
Lisboa, como Porto Alegre, sofre com a gentrificação. Alfama e Baixa têm passado por um processo intenso de conversão de habitações em alojamentos locais e comércios turísticos. Nossa gentrificação é mascarada como “modernização” ou “revitalização” urbana, e esse projeto foi incluído inclusive no Plano Diretor recentemente aprovado para possibilitar transformar a rentabilidade de áreas que abrigam populações de baixa renda, muitas vezes expulsando seus residentes para bairros mais periféricos. Olho para o que aconteceu com Alfama e não posso deixar de pensar no que está acontecendo com o 4º Distrito (Floresta, Navegantes, São Geraldo, Humaitá e Farrapos) ou o que irá acontecer com moradores ao longo do Riacho Ipiranga. O primeiro é o maior foco de investimento imobiliário atual, zona industrial cuja renovação passa por novos empreendimentos que pressionam a substituição da população de baixa renda, e o segundo, objeto de projetos de renovação mais recentes no mesmo sentido. Quando isso irá parar? Olho para a Baixa e penso no Bom Fim, o bairro tradicional que passa por um “renascimento” com a chegada de novos restaurantes, cafés e comércios de alto padrão, configurando uma “gentrificação hipster” que atrai um público de maior renda, processo similar ao bairro Cidade Baixa, o que aumenta os custos de moradia e atrai novos empreendimentos imobiliários. Nossa urbanização predatória deve muito à guinada política à direita em Porto Alegre. Por isso estou curioso quanto à política portuguesa. Peço à AI Perplexity que me faça um resumo: afinal, Portugal é um governo de esquerda ou de direita?
A política deles é a nossa
A resposta não é muito fácil, como não é a do Brasil. A IA me diz: “Portugal vive hoje um contexto de governo de centro‑direita, mas com um Parlamento fragmentado e forte peso da direita e da extrema‑direita, somando‑se aos clássicos partidos de centro‑esquerda e esquerda radical. A situação é marcada por instabilidade recente, disputas programáticas e preocupações com serviços públicos e competitividade econômica.” Seja lá o que isso signifique, penso: isso é tão diferente do governo brasileiro? Olho o governo Lula com suas concessões: ele ainda é um governo de esquerda ou será agora… de centro? Maldito seja o seu presidencialismo de coalizão, Sérgio Abranches! Você explica como funciona, e funciona, mas não deveria ser assim. Eu não diria que temos um governo de direita, já que ainda há uma preocupação com políticas sociais em suas ações, mas as concessões do governo Lula me preocupam.
Nós, turistas brasileiros, desconhecemos esses governos parlamentaristas, como o português, que tem a figura de Luís Montenegro, do Partido Social-Democrata, em coligação de centro-direita com a Aliança Democrática (AD), que venceu as eleições legislativas de 2025 com cerca de 33% dos votos. Procuro e localizo um partido mais à esquerda, e encontro o Partido Socialista (PS). Ele ficou em segundo lugar, com cerca de 23%, empatando com a extrema‑direita Chega, o que representa um problema e os aproxima do Brasil pela polarização. Governos assim defendem a agenda neoliberal, é verdade, com políticas de austeridade fiscal moderada, redução de impostos, reforma do Estado e estímulo à competitividade empresarial. Não é um momento favorável para a esquerda portuguesa, que no passado teve governos com maior peso, força, ação social e investimento público. Ser esquerda em Lisboa é como ser esquerda em Porto Alegre? Provavelmente, pois conta com uma oposição como a do PS, similar ao nosso PSOL; lá como aqui, há um bloco de esquerda coeso, mas enfraquecido, que não tem peso para governar. Por isso nossa esquerda foi derrotada na votação do Plano Diretor em Porto Alegre. Me diz a IA que “nas câmaras municipais [portuguesas], o desenho de forças é mais heterogêneo: PS continua forte em muitas capitais de distrito e grandes cidades, enquanto o PSD domina sobretudo no interior e em várias cidades médias”. Pode ser, mas em Lisboa, pelo que observo na televisão, o Chega tem uma grande visibilidade. É a mesma visibilidade que vejo na extrema direita no Brasil – é só olhar a propaganda partidária no horário nobre que deu a vitória à extrema direita no Brasil: o descontentamento com a política e os problemas sociais, principalmente o da habitação e segurança, o que me traz de volta ao problema das cidades.
Vejo notícia de Coimbra na CNN sobre os edifícios devolutos, quase em ruínas, com paredes rachadas. Troco para o canal CM e retorno ao mundo cão do caos televisivo, onde vejo que um homem matou duas mulheres, mas também a discussão dos efeitos da catástrofe climática de janeiro na região de Bragança, com uma idosa descrevendo sua experiência. As cidades, do jeito que estão, são alvos vulneráveis das mudanças climáticas, daí a importância de políticas públicas, tanto em Portugal quanto no Brasil. Mas, entre nós, o anúncio de medidas para prevenir enchentes, considerando a aproximação do El Niño, ignora as lições portuguesas. Quais são elas? A de que “a água nunca chega sem aviso”, exatamente o título da reportagem do Le Monde Diplomatique de março, que escolho para ler antes de dormir. O pesquisador Rui Cortes lembra que as destruições urbanas, especialmente as pela força do vento e da água em Portugal, não são apenas fenômenos naturais, “são também politicamente construídas ao sabor de escolhas feitas, que são especialmente lesivas dos que já antes da destruição eram socialmente frágeis”. Entendo que prevenir, como fazem Sebastião Melo e Eduardo Leite, com medidas de curto prazo, é trabalhar na percepção da excepcionalidade; a lição portuguesa é que é preciso ir mais, é necessária uma abordagem preventiva, baseada na gestão do risco. “Interiorizar a inevitabilidade destes eventos é, portanto, um passo fundamental para reduzir vulnerabilidades, proteger as populações e promover uma convivência mais adequada com os ciclos naturais da água”, diz (p. 4).
As lições portuguesas para as nossas enchentes
A narrativa da excepcionalidade diz que Portugal é um país surpreendido pela água. Ninguém é. Como o Brasil “é um país que escolheu ignorar que vivemos em emergência climática”, diz Cortes. Vemos, tanto em Porto Alegre como em Lisboa, aumentar a frequência das alterações climáticas, bem como sua intensidade. As chuvas têm se tornado mais comuns. Nossos melhores pesquisadores já alertaram, com dados, sobre a memória histórica dessas cheias, e eu mesmo escrevi a respeito, mas tudo isso é negligenciado nas decisões de planejamento porque não interessa ao capital garantir áreas verdes para contenção das enchentes: ele quer o uso do solo, quer sua partição, quer seus loteamentos. Quando ocorreu a enchente de 2022, imediatamente os idosos que viveram as cheias de 1941 vieram com seus depoimentos, exatamente como nas cheias de 1967 na região de Lisboa, que produziram de 500 a 700 mortos e milhares de desalojados. Assim como o Guaíba e seus afluentes são determinantes para as enchentes de Porto Alegre, para os moradores do Porto é o rio Douro, como para os de Lisboa é o Tejo.
Portugal já constatou que esses fenômenos têm um efeito social claro: “os seus impactos recaem de modo desproporcional sobre grupos social e economicamente mais vulneráveis. Estes habitam frequentemente as zonas de maior risco, dispõem de estruturas mais frágeis e possuem menor capacidade de recuperação após perdas materiais. Assim, o impacto das cheias não resulta apenas da intensidade da água, mas também das desigualdades sociais e territoriais. Seus impactos não são socialmente neutros. Estas inundações demonstram que a maior exposição ao risco hidrológico tende a coincidir com fragilidades econômicas, habitacionais e territoriais”. Assim foi com o colapso do Rio Mondego em Portugal, que guarda trágicas semelhanças com o Dique do Sarandi, que protegia a região das cheias. O rompimento de ambos atingiu populações pobres com menor capacidade de recuperação após suas perdas. Eles se deram conta de que foi responsável por isso a lógica fragmentada e subordinada a interesses econômicos. E nós?
A conclusão é que conosco ocorre o que já aconteceu com os Planos Diretores Municipais Portugueses: o que deveria ser instrumento de racionalidade territorial se transforma em ferramenta de flexibilização sucessiva. “Construções em zonas inundáveis continuam a ser autorizadas, regularizadas ou toleradas. Mapas de risco são, por vezes, ultrapassados por pressões locais. A cultura do fato consumado substitui a prevenção.” Essa não é a definição exata da política urbana sob o governo de Sebastião Melo? Mas ela é a de um pesquisador que fala da política lisboeta. O que eu digo: instituições como o Instituto da Água de Lisboa e a SMAM em Porto Alegre são enfraquecidas em nome dos interesses imobiliários que predominam em ambas as cidades. Ambos são vítimas da mesma estratégia neoliberal, que é sempre destruir as capacidades de intervenção, seja no Brasil ou em Portugal, e por isso a fiscalização e ação preventiva frente a eventos extremos deixam de existir. A lição portuguesa é: “quando um rio é canalizado e confinado, o seu poder energético aumenta; quando o solo é impermeabilizado, a infiltração diminui drasticamente; se as zonas de expansão natural são eliminadas, a energia da cheia não tem onde dissipar-se. A água não desaparece por decreto urbanístico. Se não infiltra, escoa. Se não pode expandir-se, transborda. Cidades esponja, pavimentos permeáveis, renaturalização de ribeiras e zonas de retenção temporária não são luxos ambientais, são medidas de proteção civil. É a isto que nos referimos como “Soluções de Base Natural” (p. 5). 5). É possível que, em meses, tenhamos em Porto Alegre uma nova catástrofe. O trágico não é que não tenhamos aprendido nada com os portugueses que visitamos agora; o preocupante é que não aprendemos nem mesmo passando pela mesma experiência. O custo da reconstrução será sempre inferior ao custo da prevenção, mas nem um nem outro são considerados quando o poder público é submisso aos interesses do capital.
Todos os textos de Jorge Barcellos estão AQUI.
Foto: Muralha de pedra do Castelo de São Jorge. Acervo do autor, foto alterada – retirada da multidão – mediante uso de IA Gêmini.

