
Existe algo fascinante nas cidades construídas à beira da água.
É como se dois mundos permanecessem frente a frente, medindo forças silenciosamente. De um lado, a água, impondo um limite natural ao crescimento urbano. Do outro, o ser humano, insistindo em avançar, aterrar, construir, desenhar uma nova paisagem sobre aquilo que antes era natureza.
Durante muito tempo acreditamos que venceríamos essa disputa. Ingenuidade.
O século XX foi marcado justamente por essa confiança quase ilimitada na engenharia. Capitais em todo o mundo aterraram baías, rios e lagos para ampliar portos, abrir avenidas e criar novos bairros. Parecia uma demonstração de poder.
Hoje sabemos que essa conta foi mais cara do que imaginávamos.
Mas há algo curioso nessas cidades.
Quando conseguem transformar essa fronteira em espaço público, nasce uma das paisagens urbanas mais bonitas que existem. A água deixa de ser obstáculo e passa a ser cenário. A orla torna-se a fachada e símbolo da cidade.
Talvez seja por isso que algumas permaneçam tão vivas na memória.
O Rio de Janeiro é, para mim, o exemplo mais impressionante.
Mas lembro também da rambla de Montevidéu, da baía de San Sebastián, dos canais de Amsterdã. Cada uma, à sua maneira, construiu uma relação delicada entre arquitetura, paisagem e vida cotidiana.
A beleza não está apenas na vista.
Está na forma como a cidade convida as pessoas a permanecer ali.
No Rio, isso aparece de maneiras muito diferentes.
Na Praça Mauá, por exemplo, a maior obra urbana talvez tenha sido uma demolição. Em 2013 começou a retirada da Perimetral Elevada. Onde antes havia concreto, viadutos, muros e trânsito, surgiram a praça, o Museu do Amanhã, o Museu de Arte do Rio e uma nova relação com a Baía de Guanabara.
Nem sempre inovar significa construir.
Às vezes significa simplesmente retirar aquilo que impedia a cidade de respirar.
Mais adiante, o Parque do Flamengo produz outra lição.
O museu, os jardins de Burle Marx, a Marina da Glória, os equipamentos culturais, as ciclovias… tudo parece fazer parte de uma mesma paisagem. Não existem fronteiras rígidas entre arquitetura e natureza.
Em Copacabana e Ipanema acontece algo diferente.
Ali a praia talvez seja o espaço mais democrático da cidade. Em poucos metros convivem turistas, moradores, vendedores ambulantes, atletas, artistas, crianças e idosos. A natureza cria uma espécie de trégua temporária para uma cidade profundamente desigual.
Talvez seja justamente essa mistura que tanto fascine quem visita o Rio.
Não porque esconda seus problemas.
Mas porque não tenta escondê-los.
Os lugares mais interessantes costumam ser também os mais verdadeiros.
Porto Alegre vive outra história.
Nossa frente d’água não está diante do mar, mas de um lago tão singular que, durante muito tempo, foi chamado de rio. Daí surgiram nomes como Beira-Rio.
Também aqui decidimos avançar sobre a água.
De 1888 a 1978, sucessivos aterros transformaram completamente a relação da cidade com o Guaíba. Criamos parques, avenidas e equipamentos esportivos. Ganhamos território.
Mas a natureza nunca esqueceu.
As enchentes de 1941, 1967 e, sobretudo, a de 2024 lembraram que aquela área um dia pertenceu à água. Não foi o lago que invadiu a cidade.
Foi a cidade que avançou sobre o lago.
Mesmo assim, aos poucos, Porto Alegre vem reconstruindo essa relação.
A Orla do Guaíba, a Usina do Gasômetro e os novos espaços públicos representam uma reconciliação importante.
Ainda assim, algumas oportunidades continuam escapando.
Sempre me pergunto por que, em um dos poucos lugares onde a cidade toca a avenida da orla, há um imenso estacionamento voltado para o lago. Quantos cafés, restaurantes, livrarias ou pequenos comércios poderiam também existir ali, ajudando a transformar aquela paisagem em lugar de permanência, e não apenas de passagem?
Faço a mesma pergunta diante do Pontal.
O espaço público é bonito.
Mas bastaria retirar a circulação de automóveis junto à orla para que interior e exterior praticamente se fundissem. Crianças poderiam correr entre os cafés e o parque. A cidade encontraria a água sem interrupções.
No BarraShopping, a sensação é outra.
O edifício parece ignorar completamente o lugar onde foi construído. Não busca relação com o Guaíba, cercado por estacionamentos, muros e grades, quase esquece que existe uma das paisagens mais bonitas logo adiante. E se ali houvesse um calçadão com um térreo onde se abrissem vitrines, restaurantes e cafés para a paisagem?
Na sequência, em direção à zona sul, mais muros e grades. Muitas oportunidades de amor pela cidade desperdiçadas.
Sempre penso que nossas cidades ainda priorizam o desenho de sistemas viários.
Quando talvez devêssemos desenhar o espaço público, com suas edificações e ruas, fortalecendo os percursos urbanos para pedestres.
Porque são os percursos e as pessoas que, no fim, enriquecem o encontro entre a cidade e a água.
E, apesar de tudo, basta o sol começar a cair sobre o Guaíba para que eu esqueça por alguns instantes todas essas críticas.
A natureza continua fazendo sua parte.
Agora falta a cidade fazer a dela.