Perceber-se em uma trajetória de vida, marcada por fatos e vivências (algumas até bem desafiadoras!) relacionados à construção da identidade pessoal (meu jeito de ser e de aprender), construção/desconstrução de sentimentos de pertencimento, ter a coragem/ousadia, fortalecer os sentimentos de resiliência, de ancestralidade e do desejo de transformação, podem ter como eixo condutor duas perguntas: “Por que não?” e “Por que não eu?” Mulheres, especialmente as mulheres pretas como eu, provavelmente ainda fazem essa reflexão. Qual seria então a origem dessa minha atitude reflexiva?
Ecoa até hoje – e, com certeza, irá continuar – uma fala escrita provocadora, instigante até, do escritor, cantor, dançarino, ator e comediante Sammy Davis Júnior: no auge do racismo nos Estados Unidos, em uma entrevista para a revista Ebony, Sammy Davis disse: “Só passarei pelas portas as quais deverei deixá-las abertas para um semelhante meu; se não puder abri-las e deixá-las abertas, não as cruzarei. Uma fala que virou mantra na minha trajetória de vida pessoal e profissional!
Podemos ir além, rompendo paradigmas, ao acrescentarmos perguntas do tipo: “Quem disse que não era para mim?” Em que momento da vida eu acreditei que o sonho não era para mim – tampouco a ousadia de sonhar alto?” “É possível sairmos da invisibilidade e nos tornarmos protagonistas da nossa própria trajetória?” “Quantas pessoas ainda não se permitem questionar: por que não eu?” Ou ainda os que passam ouvindo que “aquele lugar não te pertence”?
Como vivência transformadora, o momento atual nos leva a perguntar: “Afinal de contas, o que me move todos os dias?” Minha reflexão diária tem a ver com o quanto é importante olhar o mundo e o outro de forma positiva e proativa, com fé e esperança de tempos melhores, sem abrir mão da habilidade de sonhar alto (Ben Carson e sua obra “Pense Grande/Sonhe Alto”). Para Carson, sonhar alto não é fantasia, mas um compromisso com um propósito maior. Por meio de um acróstico (THINKBIG), ele propõe sua filosofia.
T = Talent (talento): reconheça e desenvolva os dons que você recebeu. Cada pessoa possui talentos únicos que precisam ser colocados a serviço da sociedade;
H = Honesty (honestidade): integridade é inegociável. A confiança se constrói pela coerência entre o que se pensa, se diz e se faz.
I = Insight (discernimento): cultive a capacidade de compreender as situações profundamente; aprenda continuamente e tome boas decisões.
N = Nice (gentileza): tratar as pessoas com respeito, empatia e dignidade fortalece relações e amplia oportunidades.
K = Knowledge (conhecimento): O aprendizado permanente é a chave para transformar sonhos em realidade. A leitura foi um dos pilares da vida do autor.
B = Books (livros): os livros expandem horizontes, estimulam a imaginação e oferecem acesso ao conhecimento acumulado pela humanidade.
I = In-Depth Learning (Aprendizagem profunda): não basta conhecer superficialmente; é preciso compreender profundamente para inovar e resolver problemas complexos.
G = God (Deus): a fé fornece propósito, direção e força para perseverar diante das dificuldades.
Aprendi com Ben Carson que sonhar grande não é desejar o impossível. É cultivar talentos, agir com honestidade, buscar conhecimento, aprender continuamente, tratar as pessoas com respeito e colocar tudo isso a serviço de um propósito maior – o que amplia as possibilidades das gerações que vêm depois de mim!
Um exemplo: sempre sonhei ser professora, mas, influenciada pela excelente professora de inglês da escola, Nancy Thormann, decidi que seria professora de inglês. Contudo, como já era aluna de graduação do Instituto de Letras da UFRGS, a meta então foi traçada: “Quero ser professora de Inglês da UFRGS!” – desafio enorme, mas se mostrou viável ao longo dos anos. Começou aqui o processo de construção de um propósito de vida, com coragem e pertencimento de uma pessoa que se percebe alguém que abre portas!
A partir de cada uma das perguntas abaixo, é possível transformar as respostas em um texto autoral que espelha o propósito de cada um.
1) Qual transformação você quer provocar no mundo?
2) Como você deseja provocar esta transformação?
3) O que você oferece às pessoas?
4) Qual é a sua identidade?
5) Quais características sustentam esse propósito?
6) O que move você todos os dias?
Foi assim que surgiu o meu propósito: o de uma pessoa que abre portas para que outras também possam cruzar!
“Meu propósito é mexer, sensibilizar, desacomodar, provocar as pessoas para que elas não abram mão de seus projetos e sonhos, com humildade e empatia. Que, junto a essas pessoas, possa influenciá-las com as minhas vivências, superações e questionamentos, como alguém que está sempre desejosa de abrir portas não só para si, mas para que outros também as cruzem. A garra, a persistência, a solidariedade, o altruísmo e a empatia me colocam sempre em prontidão para olhar o mundo e o outro de forma positiva e proativa, com fé e esperança de tempos melhores, sem abrir mão da habilidade de sonhar alto.”
Nossa história nunca começou conosco. Somos a continuação de muitas mulheres pretas que resistiram e ainda resistem. O que temos a oportunidade de fazer hoje vai abrir caminhos para outras pessoas, independentemente de raça/cor.
Da individualidade ao protagonismo coletivo, como na proposta do POA Inquieta, cabe também refletirmos coletivamente sobre algumas questões que nos provocam superar o que ainda nos trava, como:
a) O que ainda me impede?
b) Quais medos herdei?
c) O que escolho deixar para trás hoje?
Ouso propor fechar este momento de reflexão com uma dinâmica! “De pé, lentamente olhe para quem está ao seu lado; reconheça a existência de uma história diferente da sua; e reconheça uma luta que talvez você nunca tenha visto.
Em conjunto, todos os presentes devem repetir:
Eu pertenço.
Eu tenho voz.
Eu posso ocupar espaços.
E quando um(a) de nós avança, todos(as) avançamos.
Porque…
Eu sou porque somos.
E por isso… por que não? Por que não eu?
Todos os textos de membros do POA Inquieta estão AQUI.
Maria da Graça Gomes Paiva é docente de Língua Inglesa aposentada do Instituto de Letras da UFRGS, doutora em Educação, palestrante e diretora-presidente da Associação ParadigmAÇÃO – PAPS (@paps_social).