
Foi-se o tempo em que documentários eram apenas belas imagens gravadas no mundo selvagem, revelando presas e predadores em sua luta diária pela sobrevivência. Ou imagens históricas, cuidadosamente organizadas para nos contar o passado da humanidade.
Hoje, temas absolutamente atuais são apresentados de forma cada vez mais completa, revelando os diferentes níveis de complexidade do nosso tempo.
Um dos documentários que mais me impactou não trata exatamente da minha área de interesse. Mas foram justamente as relações que consegui estabelecer com dinâmicas urbanas e ambientais que mais me chamaram a atenção.
Rotten percorre diferentes cadeias alimentares para mostrar que aquilo que parece uma simples escolha de consumo está inserido em redes econômicas, políticas, ambientais e sociais muito mais complexas.
Mostra que o problema não está apenas no que comemos, mas no sistema que produz, distribui, regulamenta e comercializa aquilo que comemos.
Não é exatamente um documentário sobre alimentação.
É um documentário sobre poder no processo de alimentação.
A cadeia é longa:
produção.
trabalhadores.
terra.
água.
tecnologia.
transporte.
comércio internacional.
grandes empresas.
escalonamento do negócio.
legislação.
fiscalização.
preço.
consumo.
Uma plantação de abacates, uma criação de frangos, uma fonte de água, uma indústria de açúcar ou uma área produtora de cacau não são apenas espaços rurais isolados. Estão conectados a mercados, infraestrutura, cidades, trabalho, legislação, desigualdade e consumo global.
E, quando a conta chega, o custo costuma ser transferido para o lado mais vulnerável.
Às vezes é o produtor.
Às vezes é o consumidor.
Mas quase sempre é o meio ambiente.
E quase nunca são os grandes investidores.
O documentário vai desmontando uma ideia muito comum:
“Eu escolho o que consumo.”
Sim. Mas a escolha do consumidor acontece no final de uma cadeia que ele quase nunca consegue enxergar.
Há dois episódios que considero especialmente importantes para compreender as grandes jogadas e os impactos de sistemas globais que, muitas vezes, parecem escapar às regulações específicas.
No episódio “Não tão doce”, a série apresenta a cadeia global de distribuição do mel. O foco está na fraude, na adulteração do produto e nas complexas relações do comércio internacional.
Mas não foi isso que mais me chocou.
Foi a exploração do trabalho das abelhas.
Diante da necessidade de acelerar processos — tanto de cultivo quanto de produção de mel —, milhares de colmeias são transportadas para áreas em período de floração, garantindo a polinização das plantações.
Um negócio lucrativo para todos: para os agricultores, que precisam das abelhas para que os frutos se desenvolvam; para os apicultores, que ampliam sua produção; e para toda uma cadeia que depende da eficiência desses pequenos insetos.
Só que as abelhas, que antes descansavam entre uma floração e outra, agora são transportadas de um lugar para outro e trabalham praticamente sem parar.
Desnorteadas.
Exaustas.
E ainda ficam expostas ao contato com espécies de diferentes regiões, aumentando os riscos de disseminação de doenças.
Apavorante.
Superexploração de insetos.
Nos superamos.
Mas foi no episódio “Guerra do Abacate” que comecei a pensar sobre o valor da terra dentro da lógica do capital.
Depois que a ciência comprovou as propriedades nutricionais do abacate, seu consumo foi impulsionado em escala global. E, com ele, veio a necessidade de ampliar a produção para além das áreas tradicionalmente produtoras.
A lógica da escolha do território não tinha exatamente a ver com desenvolvimento econômico local.
Muito pelo contrário.
Buscavam-se temperatura adequada, topografia, quantidade de sol e, principalmente, abundância de água.
Esses parâmetros encontraram uma combinação aparentemente perfeita em uma região do Chile atravessada pelos rios Petorca e La Ligua.
Perfeita para o negócio.
Talvez não tão perfeita para o território.
O plantio em escala, apoiado em tecnologia, gerou relativamente poucos empregos e consumiu enormes quantidades de água.
Água que, quando finalmente passou a ser objeto de cobrança e regulação, já estava profundamente inserida na lógica da propriedade e da produção.
E, em um sistema no qual a água também pode ser apropriada, acumulada e negociada, aquilo que parecia um recurso natural de todos passou a funcionar como mais uma forma de acumulação. Grandes açudes construídos em áreas privadas garantiram a reserva particular.
Passaram-se vinte anos.
A superexploração dos recursos hídricos, somada à crescente irregularidade climática, reduziu perigosamente a vazão dos rios. Alguns trechos chegaram a ficar completamente secos.
Desde 2018, a região passou a ser considerada área de proibição de extração de água, numa tentativa de recuperar o sistema natural.
Mas tão desprotegidos quanto a natureza estavam os agricultores locais.
Sem condições de construir grandes sistemas artificiais de armazenamento ou acesso à água, muitos dependiam diretamente dos rios.
A promessa era de desenvolvimento.
O resultado, para muitos, foi outro.
O território passou a produzir benefícios e lucros em grande escala, mas os impactos permaneceram localmente: menos água, menos segurança, mais desigualdade.
Em 2026, chuvas intensas, fora do padrão dos últimos anos, trouxeram alguma esperança.
O rio voltou a correr.
Moradores registraram com enorme emoção o retorno da água, justamente porque aquela imagem havia se tornado excepcional depois de tantos anos de escassez.
É uma imagem bonita.
Mas também é uma imagem incômoda.
Porque basta uma chuva extraordinária para que o rio volte a aparecer nas imagens. Mas isso não significa que o problema tenha desaparecido.
A série mostra como a economia global transforma territórios.
Nossos territórios.
Transforma paisagens, altera usos da terra, reorganiza fluxos de água, desloca populações, cria riquezas e distribui seus custos de maneira bastante desigual.
E, quanto mais penso nisso, mais difícil fica separar a discussão ambiental da discussão urbana.
Porque processos semelhantes também acontecem nas cidades.
Mudam os produtos.
Mudam os atores.
Mudam as paisagens.
Mas a lógica pode ser bastante parecida.
Um território é identificado como oportunidade.
O capital chega.
O valor da terra aumenta.
Os investimentos se concentram.
Os benefícios são privatizados.
E os custos, muitas vezes, permanecem no território.
Colonialismo imobiliário.
Rentismo urbano.
Mas disso falamos outro dia.