
O escritor e professor Luis Felipe Nascimento, quando publicou seu texto semanal na plataforma Sler, de 15 de abril deste 2026, fez um convite: “Que tal escrever a biografia dos seus pais?” Ele tinha toda a razão sobre ser uma atividade coletiva que quem aceitasse o convite iria adorar participar. E, assim como ele se surpreendeu por eu ter sido, de imediato, a primeira a aderir à convocatória, eu me surpreendi mais ainda com a empolgação de muitos outros participantes que se engajaram aos trabalhos, de imediato também.
O meu desejo de estar junto ao grupo que se formaria com participantes e escritores de várias partes do Brasil aconteceu porque, além de estar lembrando de minha mãe à época, cuja semana anterior havia completado 101 anos, eu havia iniciado uma grande organização de objetos, papéis, vídeos, livros e, sobretudo, fotografias, tanto minhas quanto de meus pais e as minhas fotografias tiradas ao lado de minha mãe, nas últimas visitas que fiz a ela, em sua casa, Minas Gerais, depois que meu pai faleceu e que me fariam estar com ela para sempre, depois que passou a morar em uma clínica geriátrica e perdeu quase toda a memória.
As palavras de estímulo de Felipe, como organizador da jornada, sobre o que o resultado da nossa iniciativa pudesse produzir, enquanto memórias organizadas, nos entusiasmou e nos emocionou. Suas sugestões sobre as viabilidades de apresentação da produção, podendo tanto abranger um livro completo de uma biografia, quanto apenas alguns primeiros capítulos ou até mesmo um texto conciso, na data da finalização do projeto, nos deram a motivação necessária para desenvolvermos “algo valioso”.
E assim nosso grupo do Projeto Biografia se formou, iniciou encontros online e trouxe belas ideias como indivíduos e muitas aventuras de aprendizado como coletivo sobre a própria descoberta de execução de uma produção editorial. Vi no grupo formado a oportunidade de criar uma pequena jornada literária para homenagear a minha mãe por meio de uma narrativa interativa entre textos e ilustrações a partir do meu recorte de recordações, como filha, dentro da linha do tempo “do meu tempo” vivido com minha mãe.
Não imaginei que, além deste convite chegar junto a tantas coincidências que me ligavam à minha mãe, neste ano, me fariam me apaixonar pelo desenho da ideia e encontrar outras possibilidades de formatos que surgiriam para publicações. E assim debrucei-me no meu projeto da escrita “Biografilha” como uma viagem imóvel, por meio da geografia, da saudade e da memória, imaginando em toda a jornada a quem mais isto poderia inspirar a somar memórias junto à minha mãe ou até mesmo com as suas pessoas próximas e queridas.
Este incrível percurso literário proporcionou-me novos desdobramentos criativos, como livros de artista, germinando projetos artísticos como um livreto sumário da futura narrativa interativa Biografilha e a participação em uma produção audiovisual, como roteirista, entre outros colegas do projeto “O Silêncio das Cores”, um curta-metragem que traz em sua argumentação as questões ligadas ao cuidar e ser cuidado, enfermidades e fragilidades, do curso Jovem Produtor Audiovisual, JPA7, coordenado pelo ator e também professor Marcos Kligman.
Como citou Luis Felipe: “Toda biografia é uma história contada por alguém, a partir do que ficou guardado”, portanto as nossas, afetuosamente discutidas, elaboradas e compartilhadas ao longo dos meses, ficarão registradas para sempre, como novas memórias, na celebração do encontro dos escritores e seus convidados do dia 30 de outubro de 2026, no Centro Cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, no lançamento coletivo dos projetos biográficos corajosamente desenvolvidos.
Percorro momentos envolventes na seleção de memórias da convivência com minha mãe, sendo impossível não interromper tarefas para contemplar instantes cristalizados. Ela amaria e se divertiria muito se pudesse acompanhar o restauro de imagens com as novas ferramentas digitais, usadas na sua história, porque, entre os diversos interesses de minha mãe, sempre esteve presente a paixão por equipamentos elétricos, eletrônicos e as novas tecnologias. Em um de nossos últimos encontros lúcidos, me confidenciou, com um leve sorriso resignado, que, embora tenha tido uma vida boa, “ela deveria estar nascendo hoje”. Com a Biografilha, farei isto acontecer.
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Isabel Carvalho-Kristin é administradora, especialista em projetos sociais e culturais; artista visual; gestora de negócios em arte e design na Kristin Gallery e mentora de processos funcionais para empreendedores criativos.