
Passada essa dificílima eleição que, felizmente, evitou que déssemos “adeus” a um país chamado Brasil, com suas frágeis instituições republicanas e democráticas, suas abissais desigualdades, sua corrupção endêmica, sua ausência de projeto nacional… precisamos pensar sobre “o que nos aconteceu?”.
Constatar que 48% da sociedade brasileira (aqui expressa nos eleitores de Flávio Bolsonaro) insistem em apoiar uma forma de governo que anula direitos, persegue opositores, apoia torturadores, usa a mentira como modo de vida político e está supostamente associada ao crime organizado e, ainda por cima, imaginar que todos esses “predicados” estariam reunidos no terceiro andar do Palácio da Alvorada, não pode simplesmente ser chamado nem de “nave dos loucos”, nem de “marcha dos insensatos”. Prefiro, nesse caso, iniciar pela pergunta “grega” (“Por que chegamos até aqui?”), antes de formular a “latina” (“O que faremos daqui pra frente?”).
Não simplifiquemos ao ponto de achar que a sociedade “adoeceu”, a sociedade não é uma entidade medicalizável: temos razões sociais e afetivas muito mais profundas.
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Desde os eventos parisienses de 1968 que, em nome de uma radical mudança no “modo de vida” e da contestação do princípio vertical da “autoridade” (em todos os níveis), que transitamos de uma ética do dever (Kant) para uma ética hedonista (prazer) resumida na palavra de ordem lacaniana: “GOZE!”. Estavam abertas as portas para uma forma patológica de individualismo egóico, de narcisismo patológico expresso no culto do corpo, da “qualidade de vida”, da estética de academia de ginástica, e do mérito pessoal para conseguir tudo isso. Mas se essas exigências predicativas estavam centradas no sujeito individual, o chamado “NEOLIBERALISMO” ofereceu um corpus político e econômico mais abrangente. É muito estranho que o guru teórico da “sociedade carcerária”, Michel Foucault, tenha, em sua aula inaugural no Collège de France, defendido o neoliberalismo como uma política que, finalmente, devolvia ao “indivíduo” a ação política subjetiva, com a ideia de redução do Estado, visto inclusive pelas esquerdas, desde o século XIX, como “as forças armadas da burguesia”,!
Neoliberalismo não é… Adam Smith “renovado”: é um outro projeto de subjetivação. Explico.
Aqui, nesse projeto, o campo de acionamento e investimento é o indivíduo de DESEJO, e não necessariamente o de “CONSCIÊNCIA”, que provoca o que alguns chamam de “ruptura cognitiva” e, com essa ruptura, a incapacidade de pensar! Quando Arendt disse que o Nazista Adolf Eichmann “não era capaz de pensar”, ela queria dizer que ele não era capaz de “romper” com as respostas automáticas a que estava condicionado a repetir: clichês, lugares comuns, frases batidas e irrefletidas… produzem algo de grande interesse para a psicologia das massas: a sensação de pertencimento a uma “comunidade” fraturada pelo individualismo, a presença de uma liderança mitificada, produtora de vínculos emocionais e mobilizando qualidades subjetivas diferentes daquelas exigidas pela Modernidade (consciência, liberdade, eticidade racional): agora o campo de “empresariamento” somos nós mesmos e passamos a exigir competitividade, sucesso, meritocracia, produtividade… em que cada UM é inteiramente responsável pelo seu sucesso ou fracasso. E muito cuidado com o OUTRO!
Ora, num contexto sócio-afetivo como esse, a coisa mais detestada pela sensibilidade neoliberal é o Estado-do-Bem-Estar-Social, que produz formas de distribuição de riqueza (bolsa família, por exemplo) que nunca tivemos em nossa sociedade proto-escravista: aqui surge uma forma de ressentimento social que se traduz em ressentimento, afetação e ódio político: “estou sendo injustiçado depois de ter dado uma vida pelo trabalho e pela família, enquanto o Estado produz preguiçosos e dependentes”. Reivindicar o PASSADO mítico de uma autoridade abalada (família, Deus, pátria, ordem, respeito…) também faz parte desse processo fundador que refaz a História e oferece um lastro emocional (facilmente explorável pelos fundamentalismos e fanatismos de toda ordem!) em que, o OUTRO, produzido e imaginado por esse fanatismo é o… responsável e precisa ser eliminado (o judeu, o comunista, o petista, o imigrante, o muçulmano…). Eis o que Umberto Eco chamou de “O eterno fascismo”: esses elementos predicativos nunca abandonam o social e precisam apenas de um leve toque para serem despertados. Lukács, o filósofo húngaro, dizia que “O SONO DA RAZÃO GERA MONSTROS!”
Na continuação desse artigo, tentarei responder aquilo que chamei de a “pergunta latina”. Até lá…