
A Carol, o Boris e eu estávamos em Passo de Torres, na casa do Cassi e da Dani. A festa esticou, e a gente decidiu dormir por lá. O Cassi e a Dani disseram que não tinha lugar na casa deles e, ainda por cima, quando a gente conseguiu um muquifo para passar a noite, pediram para a gente levar junto as crianças, já que demos com a língua nos dentes, ao dizermos que o muquifo tinha muitas camas. Até forno micro-ondas e Netflix ele tinha, detalhes importantes para o andamento da história.
As crianças sonhavam passar a noite com o Boris, o cachorro. Mas criança nunca está satisfeita, sempre pede mais e pediram para ver o Shrek. Depois, ainda por cima, pediram pipoca e claro que não tinha. Mas, quando fui tomar banho no banheiro pestilento do muquifo, não tinha sabonete, e precisei voltar à casa do Cassi e da Dani para pegar um. Lá encontrei acordada a vó das crianças que, por acaso, havia levado um pacote de pipocas de micro-ondas.
Quando voltei com sabonete e pipocas, Stela e Filipa vibraram muito (com as pipocas, é claro). Eu as botei no micro e, logo em seguida, a Carol começou a reclamar que as pipocas iam queimar. Mas, como ela tem a mania de dizer que eu faço as coisas errado, garanti que eu era um pipoqueiro experiente, e nada ali queimaria.
Só que não. Quando tirei o pacote, tinha dentro um bloco escurecido de todas as pipocas queimadas, com exceção de duas que as crianças tentaram comer e cuspiram. Não bastando, o muquifo estava todo enfumaçado e precisamos dormir de porta aberta naquela noite fria. Ainda bem que não tinha alarme de incêndio, pois o proprietário havia suplicado por silêncio à noite.
Para a decepção da Fiona e das crianças, ninguém comeu pipoca.
Essa história aconteceu faz tempo e, toda vez que reencontro as crianças, elas retomam o ocorrido, que contam novamente, com ênfase no trecho em que garanti que sou um pipoqueiro experiente. Às vezes, penso que o episódio ensinou para elas que é preciso ser humilde e desconfiar da própria experiência. Ou que os adultos falham, por isso é preciso lidar com a frustração.
Mas o que mais me ocorre nem é isso. Eu acho que, hoje, ninguém lembraria da pipoca que comeu, mas as crianças nunca vão se esquecer dessa história. Houvesse moral nela, seria que ela vale mais do que as pipocas. Ou, dizendo de outro modo, pipocas passam, histórias ficam.
Felizmente, não há moral nenhuma, porque uma história se abre em infinitos sentimentos e ensinamentos para o mundo. No meu caso, desde então, nunca mais queimei uma pipoca.