
Houve o tempo de chegar a essa plataforma de produtores de texto (e de esperados leitores desses textos), e eis que chega o tempo de se despedir dessa atividade. Senão para sempre (pois para sempre é um prazo excessivamente longo), pelo menos até onde alcança a vista.
O repto de um texto semanal, assumido aqui, mostrou-se um desafio mobilizador de energia interna, ora parecendo mais fácil, ora mais difícil. Nunca esteve no horizonte de expectativas a conquista de hostes de leitores – tão somente a produção de algo não banal, respeitoso da inteligência e sensibilidade alheias, nesse grupo incluído eu próprio, o autor-escriba. Houve semanas em que uma ideia de interesse germinava, ou mesmo um acontecimento social de impacto, merecedor de repercussão discursiva-crítica – quando uma jovem mulher foi esmurrada quase até a morte pelo companheiro, em metrópole brasileira. Ou um acontecimento mais do domínio da dinâmica interna, com a chegada do septenato desse autor e de amigos que lhe são próximos. Houve, contudo, outras semanas em que parecia não haver nada de especial a narrar. Nessas ocasiões, instalava-se a crise, o dilema entre respeitar o acordo de cavalheiros da oferta de texto semanal à plataforma, e produzir textos perigosamente próximos do espantalho da banalidade, ou simplesmente convocar meu interlocutor e receptor dos textos em matéria bruta e comunicar que, naquela semana, não haveria oferta de texto. Pela simples razão de que, naquela semana, nada parecia pertinente a narrar. Isso ocorreu mais de uma vez, e agora, nesta semana, repete-se mais uma vez. E aí veio o desejo de, ao invés de pedir tolerância para a falha no cumprimento do acordo feito, encarar de frente a vivência do esgotamento da empreitada.
De que empreitada, aliás, estamos falando? Que compromisso assumi, como produtor de textos, ao me engajar nesse ciclo de produção semanal de textos? Engajamento que não tinha o asseguramento de que, sim, haveria sempre o borbulhar hebdomadário de matéria textual. Havia, mais que tudo, a confiança de que, afinal de contas, sempre haveria algo a dizer, nem que fossem elucubrações sobre a postura estoica de meus cães, face a princípios pétreos como o de se satisfazer com a porção diária estabelecida de ração, ou, mais dramaticamente, aceitar as injeções destinadas à própria eutanásia, na ocasião em que precisei administrá-la ao meu preferido. Noves fora esses pequeno-imensos dramas do cotidiano, haveria sempre a cena político-policial desse país, tão pródiga em factóides fétidos que, não obstante, sempre geram mais um texto. Essa foi a expectativa na base do compromisso que assumi, e que agora se esgota, evanesce.
Não que eu esteja, aqui, renunciando a essa mania, a essa compulsão à produção textual. Aludi a isso em momento que está nas antípodas deste – quando me apresentei ao rol de leitores potenciais, pedindo vênia, pedindo tolerância para o ato, no final de contas disruptivo, de gerar e compartilhar um texto – como um náufrago insular que rabisca frases num pedaço de papel, as arrolha numa garrafa, e as arremessa no mar-oceano – Oxalá alguém recupere a garrafa e leia o texto. Sei que, aqui e ali, os textos emergirão, porque fazem parte da respiração desse meu alquebrado espírito. Somente não quero mais me submeter à rotinização da produção textual. Isso começou a ter efeitos deletérios sobre essa produção, e sobre mim mesmo. Então, volto a pedir vênia, desta feita, para cessar minha pequena estação de produção textual. Esse pedido tem destinatários conhecidos, desconhecidos, imaginários, quem sabe inexoravelmente inexistentes. Mas isso já deixou de ser algo perturbador há tempos…
Num tempo em que textos jorram a uma velocidade que se tornou incomensurável com o advento dos robôs produtores de texto (e de otras cositas más, como escuta terapêutica por agentes IA – foco justamente de um dos textos passados); num tempo em que eu próprio me sinto “afogado em textos” (piscadela de olhos aqui para o maravilhoso filme inglês “Drowning by Numbers”, afogado em números…); num tempo em que a chegada à tal “senioridade” representada pelo septuagésimo ano de vida provoca alongadas sessões de autoavaliação de trajetória, nesse tempo, e nessa conjuntura, me despeço de você, leitor que percorre essa plataforma, encorajando-o, contra ventos e marés, a persistir em sua leitura, e notificando-o quanto à minha decisão de “silêncio obsequioso”, como diziam os cardeais no Vaticano.
Não tomo essa decisão como a de quem finalmente assume sua culpa, sua máxima culpa, no cometimento de algum delito. Não se trata, propriamente, de delito. Trata-se, antes, de uma disponibilidade que cessa, e do desejo de preservar, para essa atividade alimentadora que tem sido e persistirá sendo a produção textual, o resguardo de algo que, finalmente, se rege por uma necessidade interna, mais do que por ritmos negociados com terceiros.
Por falar nesses terceiros, a palavra final é de um verdadeiro agradecimento por terem me dado cabimento, desde o convite até a cuidadosa edição e divulgação dos textos, ao longo desses meses. Augurar que não me queiram mal, antes me acolham com o carinho e respeito que sempre foi a norma em nosso convívio.
Boa continuação aos demais artesãos da palavra escrita, com quem tive o privilégio de conviver e com quem continuarei a conviver – agora na condição de quem os lerá. Ler, afinal, é o par incontrolável de quem precisa e ama escrever. Ler e escrever são a sístole e a diástole do pensamento, da reflexão, da criação, de um prazer imenso.
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