
Lembrei do livro O Amor nos Tempos do Cólera, meu Gabriel García Márquez favorito, depois de ter bloqueado duas mulheres em uma rede social. Pessoas que não têm, nunca tiveram vínculo algum comigo, portanto nada da minha admiração e estima, mas que, de um modo nem sempre tão sutil, dedicam parte de suas horas a bisbilhotar e a tentar se intrometer em meu mundinho, me levando a pensar, com mais seriedade, sobre as relações humanas nos tempos de rede social e o quanto elas estão tomadas por stalkers, gente que monitora obsessivamente a vida online de alguém, cyberstalkers, gente que monitora e coleta as interações de amigos e parceiros, e, por fim, scouts, os populares secadores que, digamos, são um projeto de stalker, gente que pega um pouco mais leve, mas com igual vocação para chata.
Não suporto chatos. Chatos chateiam, então, mandei as duas para a pasta de bloqueados, local superadequado. A internet, com seus desdobramentos, deu um nó, talvez de marinheiro, no senso de adequação, na linearidade, no respeito e na maior profundidade com que costumávamos interagir uns com os outros até o seu surgimento, situação desgastante que eu, em seu início, lá no final dos anos 1990, não imaginava possível e que, agora, apesar de todo o esforço tecnológico para que tenhamos segurança e privacidade, colocou as garras de fora e ninguém controla direito. Os limites passam a se solidificar mesmo só, quando em uma delegacia, registramos um boletim de ocorrência e se começa uma investigação.
Umberto Eco já tinha, de certa forma, previsto que isso aconteceria, dizendo que os idiotas ocupariam, em grande escala, a internet. David Bowie, dentro de um raciocínio convergente com o de Eco, também. Segundo ele, ela iria nos fragmentar, interferindo em nossa humanidade, transformando-nos em alienígenas. Eu, de vez em quando, me sinto um E.T. Phone Home. E, de vez em quando, tenho a sensação de estar sendo observada pelo Oitavo Passageiro, aquele ser parasitário altamente agressivo e competente para se camuflar, como algumas pessoas tentam fazer quando criam perfis fakes acreditando que ninguém vai perceber a farsa grotesca, estética que pouco aprecio por uma série de fatores, entre eles, a feiura.
Eu não costumo gostar, de verdade, das obras inseridas nesse padrão. Mas abro as minhas exceções. A tela quase nauseante Vertumnus, do Giuseppe Arcimboldo, por exemplo, que retrata um imperador, no século 16, me fascina. A produção artística desse século tem muito impacto sobre mim. Cláudio Monteverdi está entre os compositores que mais escuto. Shakespeare, entre os escritores que mais leio. Por que motivos não sei explicar. Que há um dedo da educação que recebi de meus pais não tenho dúvida. Mas há algo que é só meu, do funcionamento dos meus neurônios e da minha sensibilidade. Meus irmãos não são tão antigos. Embora eu seja a caçula do grupo, sou, disparado, a mais velha, o que pode ser entendido também como a mais apegada a tudo tocado pelo tempo. Acho o tempo algo muito bonito, como se ele fosse uma grande paisagem ou uma forma de vida propriamente dita.
Já ter de bloquear o acesso de pessoas à parte virtual da minha existência é o oposto e uma coisa que não me passava pela cabeça. O uso do verbo bloquear e da palavra virtual, dependendo do caso, um adjetivo ou um substantivo, por décadas não fez parte de meu mundo. Tampouco pessoas com o grau de inconveniência e indigestas com quem, por meio de um teclado e de uma tela, acabei cruzando. Penso que dá para classificá-las como um novo tipo de recalcados e invejosos do estilo de vida e dos resultados positivos dos que usam as redes sociais de um modo mais produtivo, cativante e até simpático. Eu sou uma mulher comunicativa. Tenho enorme facilidade para me expressar e conversar sobre qualquer assunto.
Nesse sentindo, tanto o Jornalismo quanto a Literatura foram feitos sob medida para mim ou eu para eles. Não importa. Interessa o fato é de que faço bom uso dessas características porque não está na minha índole a vontade de fazer mal ou de prejudicar alguém. Não sou uma pessoa dependente de problemas, do tipo que precisa estar sempre cavando um conflito, disputando algo, concorrendo com os outros. Minha adversária sempre fui eu. Uma adversária, por sorte ou competência psíquica, amiga que me faz ver, desde menina, mesmo em dias cinzentos e frios, como é azul e quente a minha autoestima.
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