
Acordo, na manhã do dia 12 de junho, com a desconcertante certeza de que estou fora da lista dos que trocarão presentes, juras de amor e dos que se fartarão de romantismo desde o amanhecer. Dia em que namorados, noivos, casados, amantes, ficantes, até mesmo crushes, comemoram a felicidade contida em algum grau de relacionamento. Eu, como boa ariana, detesto ficar de fora e me incomodo com a solteirice imposta.
Decido me distrair. Abro o Instagram. De cada dez fotos, oito são de casais apaixonados. Ligo a Netflix. Um filmezinho pode cair bem. Procuro por sugestões: O amor é isso, O amor é aquilo. Nem um “telefone preto” para me salvar. Sintonizo na TV aberta. No programa matinal de um canal de grande circulação, a apresentadora insiste em mostrar os “top 10” casais do momento. Penso que muitos deles, daqui a dois ou três anos, estarão separados. Cabe aqui aquele emoji com os olhinhos revirados.
Resolvo abrir o site de relacionamentos. Saio rolando a tela sem encontrar alguém que me agrade. Opa! Um rapaz me chama a atenção. Até que seria uma boa conhecer alguém nesse dia. Clico no coraçãozinho e logo dá um match. Na sua página, ele se oferece como companhia para o dia 12. Oferece-se não, aluga-se. O valor varia de acordo com o serviço contratado, de um simples jantar à luz de velas até… Acredito não precisar ser tão explícita. Decido encarar. Escolho a opção menos comprometedora, menos arriscada e mais em conta.
Passo todo o dia me produzindo. Visto uma roupa sexy, mas não vulgar, dirijo meu carrinho até a rua mais movimentada do bairro, e lá está o rapaz me esperando com roupa de Dia dos Namorados. Ele até que é agradável. O único deslize é não ter feito uma reserva em um bar ou restaurante. Você já tentou conseguir uma mesa, de última hora, em qualquer lugar, qualquer lugar mesmo, no Dia dos Namorados? Até os trailers de cachorro-quente e as carrocinhas de pipoca apresentam filas intermináveis.
Compramos um algodão-doce, nos sentamos no meio-fio e conversamos. Conversamos horas a fio. No meio-fio. Faço o Pix – sem desconto – e volto para casa. Cozinho um macarrão instantâneo e abro um vinho, tiro um cochilo e, quando acordo, já passa da meia-noite. Ufa, agora posso me distrair! Ligo a televisão. Surge um documentário sobre o dia 13 de junho, sobre as lendas de Santo Antônio casamenteiro e sobre as simpatias para se arrumar marido ou namorado. Aff! Vou dormir por 24 horas e acordar no dia 14. É dia de quê mesmo?
Déa Araújo é odontóloga aposentada e bacharel em Letras – Tradução: Inglês pela UFJF, Déa Araujo escreve poemas, contos e crônicas para adultos e crianças. Iniciou a divulgação de seu trabalho em 2020 e já obteve várias premiações nacionais. Tem dois livros infantis publicados.
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