
O prazer de escrever é algo que não pretendo ceder à inteligência artificial. Essa sensação prazerosa está ligada a uma coisa até bem primitiva, mas humana. Vou me arriscar a traduzir aqui esse júbilo como: ver alguma coisa criada (ou cuidada) por mim crescer. Uma criança, uma planta, um tricô, um texto. Gosto de ver a coisa ficar bonita, viçosa, interessante. É constância, inspiração, arte, mas, também, artesanato em ação.
Ultimamente, observo que existem movimentos de conciliação com as inteligências artificiais. Uma certa entrega ao inevitável ou, quem sabe, aquele medo de ficar para trás e perder o bonde da história. A palavra “bonde” aqui possivelmente não seja aleatória. Os bondes sempre me pareceram mais românticos do que os ônibus. Quiçá porque não os conheci de perto, apesar de que, na cidade de Rosario, Argentina, onde vivi, existem algumas linhas de ônibus elétricos bastante similares. Parecido, mas gostava mesmo era de escutar quando os meus avós contavam histórias de suas juventudes, nas quais incluíam os trajetos em bonde. Gosto de coisas velhas e, talvez, de tornar-me uma coisa velha. Então, esse afã de estar surfando na crista da onda tecnológica não me pega, não.
Por outro lado, acho bem bacana pessoas – incluindo escritores – que têm admitido o uso da IA como ferramenta. Ético e digno. É o que esperamos, apesar de que ainda creio que não há nada mais intrincado e interessante do que vai por dentro de uma cabeça, mesmo que a inteligência natural seja mediana. Aqui, certamente fala forte o viés de psicanalista. Afinal, uma das coisas mais maravilhosas de se trabalhar com o inconsciente é que, justamente, ele não é inteligente, nem burro. Ele sai do binarismo do sim e do não, do certo ou do errado, para ser insólito, onírico ou, simplesmente, desconcertante.
Quando agarro a caneta ou o teclado – o que definitivamente não é a mesma coisa –, procuro me deixar atravessar por essas categorias mais lúdicas e aparentadas com o inconsciente. Evidentemente, em maior ou menor grau, a depender do veículo, da demanda textual e do estado de espírito do dia. Em todo o caso, não se trata da escrita automática dos surrealistas. Certo compromisso com a forma também serve para criar pontes; afinal, a ideia é ser lida. Isso me faz lembrar a polêmica coisa com os travessões. Os identificadores de textos feitos por IA amiúde suspeitam dessa pontuação. Sempre os usei. E não, nunca fui nenhum ás da pontuação. Ao contrário, esse foi, é – e, talvez, seja assim até o meu ponto final – o meu grande desafio. No cursinho pré-vestibular, lembro-me do professor de português que mostrava uma redação da UFRGS na qual o candidato era mais radical que Saramago, abolindo toda e qualquer pontuação. Contudo, delicado, deixava um retângulo como um reservatório com várias vírgulas, pontos, travessões, exclamações etc. e a indicação ao estilo “sirva-se!”. Meu sonho quando estou com mais preguiça, mas admito que seria como tricotar sem arrematar.
De qualquer forma, foi em uma oficina de escrita acadêmica de los hermanos que resolvi meu drama com parênteses, travessões e vírgulas. Mudando a teoria da intercambialidade total entre estes elementos para usá-los segundo a distância com o elemento a isolar. Gostei do estilo, porque aí os travessões entram quando a informação complementar não está nem tão perto, nem tão longe.
Deixo as metalinguagens para outra hora. Só queria dizer que estou retomando os trabalhos com a escrita depois de cinco meses de licença para estar integralmente com a bebê. Fico contente em voltar. O desafio da crônica semanal se redobra, mas, por enquanto, eu ainda não me dobro à IA. Se algo mudar, eu aviso.
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