
Indiada, coisa de índio, programa de índio, etc. Foram falas racistas e preconceituosas correntes, lugares-comuns que escutei durante toda a minha infância e juventude. Pouco comento sobre isso, mas tenho origem indígena por parte de mãe. Uma origem que fica subsumida nos traços de negritude africana. Então, fico assim, cafuza e confusa, como boa parte da população.
Talvez por isso, isto é, por essas origens que insistem em estar esquecidas, seja tão difícil sentir que uma presença indígena nos representa a todes. Nos confins da nossa humanidade, lamentamos o destino dos povos indígenas, mas pouco de prático colocamos em ação por eles. Daí a pasmaceira nossa de cada dia em relação ao genocídio indígena, que se reeditou com força depois das eleições.
São capatazes de fazendeiros, são grileiros, são mineiradores e outros abusadores da terra e de nossos recursos naturais. Sobretudo as mulheres indígenas do nosso país sofrem enormes violências sexuais, porque o estupro e o infanticídio também estão na cartilha colonial. Lembram da emergência yanomami de 2022?
A sanha bolsonarista não terminou com a derrota e fuga de Flávio. Sob a falsa alegação de que as eleições teriam sido manipuladas, muitos apoiadores da candidatura de Flávio Bolsonaro – inconformados, infantis e violentos –, se propuseram à perseguição daqueles que votaram em Lula no último 25 de outubro. Fascismo requentado daquilo que Hitler havia colocado em marcha contra os judeus, como, por exemplo, o boicote aos comércios de apoiadores de Lula e, nas florestas, perseguição e morte aos indígenas.
Uma deterioração moral com precedentes, infelizmente, porque parece que não melhoramos muito desde 1500. Isso se reflete também no voto quase inexistente às candidaturas indígenas, mostrando que a decolonialidade progressista ainda alcança a população indígena de modo muito tímido.
São dias duvidosos para os povos originários do nosso país. Será que eles estão podendo comemorar a vitória de Lula? Fica o anseio de que possamos ir além das hashtags pelos nossos povos indígenas. E, também, que nas próximas eleições, candidaturas como as de Wanda Witoto possam se transformar em cargo e na tão sonhada bancada do cocar. Bora realizar!