
Ao abrir o livro “Diferente como a Gente, crônicas sobre inclusão e esperança”, de Marcos Weiss Bliacheris (edelbra/2025), encontrei sensibilidade rara, conhecimento e humanidade. Ao falar das diferenças que nos constituem como sujeitos únicos, o autor cruza nas suas palavras vivências pessoais e histórias de vida de pessoas diversas que passaram pelo seu caminho. Na orelha do livro temos perguntas fundamentais para conduzir a leitura: “É possível falar sobre deficiência sem recorrer à tragédia? Abordar com leveza e profundidade a vida de pessoas com deficiência, sem romantizar nem lamentar suas existências?” Perguntas que instigam e que o autor responde com muita sabedoria, celebrando também os 10 anos da Lei Brasileira de Inclusão(LBI). Resultado de muitas lutas, resistência e conquistas, a lei nasceu a partir do protagonismo das pessoas com deficiência e dos movimentos sociais criados e amparados pelos direitos humanos. É neste contexto que Marcos traz histórias diversas, enfatizando que é possível viver com autonomia e dignidade, apesar do preconceito que nos quer fora do cenário, usando um argumento capacitista que diz: “quem não se encaixa aos padrões de corpo e funcionalidade socialmente considerados adequados” não serve.
“Para tirarmos as pessoas com deficiência da invisibilidade, é preciso falar. Que eles falem, que suas famílias falem, que suas vozes sejam ouvidas, para afastar a escuridão, para afastar a invisibilidade”.
Ao falar dos muitos desafios de uma vida com deficiência, visíveis ou não, as crônicas revelam os estudos, o ativismo incansável de Marcos e, claro, sua convivência com pessoas com deficiência e suas famílias. Sou testemunha desta jornada porque contei com o apoio dele para me tornar uma militante na busca por inclusão, acessibilidade, diversidade e sustentabilidade. Em 2022, participei da banca examinadora da dissertação de mestrado do Marcos sobre Ambiente e Sustentabilidade na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul/UERGS, Unidade em São Francisco de Paula – “O Movimento Social da Neurodiversidade e a Consciência Política Autista”, sob a orientação da professora doutora Aline Hernandez. Estavam comigo na banca as professoras doutoras Luciele Nardi Comunnello e Valéria Aydos Rosário.
Desde que nos conhecemos, vejo nas atitudes e na escrita de Marcos um grito de alerta que vem de um intenso percurso pessoal, familiar, profissional e político. Como ele ratifica na tese, não estamos diante de um guia de como conviver com a diferença e com o preconceito. Não há caminho definitivo. Estamos diante de uma reflexão contundente: o reconhecimento da nossa imperfeição, o que nos torna humanos. E, como humanos, suscetíveis, capazes de acertos e erros, seja em relação ao autismo de um filho ou de tantos outros desafios que a vida na diferença nos impõe. E é isso que agora ele nos traz neste livro em que compartilha suas crônicas. Advogado da União, Marcos trabalha diariamente com inclusão e acessibilidade. É casado com Brenda e tem os filhos Amir e Beni. Vive esta realidade como pai e ativista pelos direitos das pessoas com deficiência. E diz: “Neste livro, conto um pouco da história da nossa família e compartilho com vocês o que aprendi com pessoas incríveis nessa caminhada”.
Luísa Fantinel, formada em Design, assina as ilustrações do livro e apresenta as diferenças através de cores, texturas e formas variadas, o que deixou a publicação ainda mais bonita, estimulante, leve e lúdica.
Depois de ler e reler, mais uma vez recomendo a leitura e concordo com Marcos: “Bom mesmo é ser diferente como a gente”.
Todos os textos de Lelei Teixeira estão AQUI.

