
Hoje, a sessenta e dois anos da imposição do Golpe Civil-Militar de 31 de março de 1964, coincidindo com a chamada Semana Santa, o acionamento dos credos como meio de sustentação de pautas e projetos conservadores e reacionários continua, como dizem os militares, na ordem do dia…
A história nos ensina que, antes que se dê a instauração de um regime totalitário, vem o desgaste e a desconstrução do ambiente democrático. Neste sentido, anterior ao golpe que instaura a ditadura, tivemos mobilizações religiosas contribuindo para a corrosão da sustentação da democracia. Movimentos que se ampliavam para o campo da educação e vida escolar. Assim, se o discurso neopentecostal atualmente é a bandeira que agita e conduz fortes segmentos antidemocráticos de nossa sociedade, nos anos 1960, era a face conservadora da Igreja Católica que desempenhava esse papel.
Foi deste modo que, no Brasil, tivemos as Cruzadas do Rosário em Família. Não abandonando o tom de urgência salvadora de suas tataravós medievais, essa cruzada da Era Atômica foi criada pelo padre irlandês Patrick Peyton, no início dos anos de 1940, em Albany (USA), que havia chegado à América ainda jovem, para trabalhar nas minas de carvão entre a Pennsylvania e New York (o estado), região de redutos de imigrados das ilhas britânicas.
Aportando na terra do Samba, o evento peregrinou por várias cidades, tendo o vespertino carioca Correio da Manhã (18/12/1962) noticiado que se havia chegado a reunir cerca de um milhão de fiéis no Largo da Candelária, em pleno domingão de verão. Não havia internet; por conseguinte, Instagram, X e YouTube não existiam e a TV era para poucos; porém, Hollywood estava em pleno vigor, daí celebridades como Bing Crosby, Jerry Lewis e Grace Kelly comungavam seu ibope nos programas radiofônicos ligados à cruzada, atraindo imensa audiência.
A cruzada chega ao Brasil via Recife/Pernambuco; veremos que não foi por coincidência: a região das Ligas Camponesas, do Movimento de Cultura Popular e de Jaboatão, que em 1947 elege o primeiro prefeito comunista do Brasil, Manoel Calheiros. Na capital, conforme o Diário de Pernambuco (28/07/1962 e 07/08/1962), o movimento foi lançado no Iate Clube, local que congregava a elite canavieira e as autoridades civis e eclesiásticas, tendo o próprio reverendo irlandês destacado (em espanhol) que Recife teve prioridade dentre outras pleiteantes latino-americanas. No entanto, será pelos requintados salões do Grande Hotel, às margens do Capibaribe, que o vigário recebe homenagens dos empresários do Clube de Diretores Lojistas e do chefe do Estado Maior do então IV Exército (atual Comando Militar do Nordeste). Alguns dias depois, o encontro com os militares será ainda mais exclusivo: o clérigo será recebido pelas altas patentes das forças armadas, se reunirá com os capelães militares e, em especial, receberá o general Muricy, aquele mesmo que, a menos de dois anos, encabeçará as suas tropas em direção ao Rio, precipitando o golpe.
As ações da Cruzada também eram desenvolvidas em escolas e instituições educacionais: apoiada pelo arcebispo recifense, reúne no já centenário Teatro Santa Isabel professores e professoras para contemplarem as palestras do sacerdote, contando com mais de 1200 professores. Segundo se pode ler no Diário (DP, 01/08/1962), o cruzado deixa clara a importância do engajamento das crianças na campanha, pois metade do sucesso da empreitada é debitada à atuação das crianças junto a seus próprios pais.
Na época, já se desconfiava e depois ficou descoberto que a campanha não era apenas uma iniciativa para reavivar a fé católica e nem o padre irlandês era movido apenas pela defesa das práticas religiosas nos lares católicos: o reverendo era financiado pela CIA, que apontava as regiões da América Latina onde se acreditava ser mais forte a expansão comunista.
Atualmente, não apenas aqui, trocou-se a batina dos Peytons pelo terno bem cortado de um exército de pastores proselitistas e retrógrados, também com forte influência sobre milhares de professores, crianças e suas famílias: seis décadas passadas, ainda vivenciamos o acionamento de credos como meio de desgaste do ambiente democrático e como ratificação do retrocesso.
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