
Em primeiríssimo lugar, peço que você tome uns minutos do seu feriadão e leia este ensaio que escrevi e foi publicado aqui na semana passada. Esse texto busca ser elucidativo e certeiro pra que entendam por fim a importância da luta identitária que travo neste espaço como faria com toda a razão o integrante de alguma outra minoria historicamente perseguida e segregada (leia aqui).
Agora, vamos ao novo texto, que é um apelo e um exercício de empatia.
As pessoas não entendem ou fazem questão de entender o antissemitismo que está tomando conta de setores da sociedade e, perigosamente, normalizando-se.
Já comentei algumas vezes que os absurdos ditos sobre judeus, se fosse pra outras minorias, provocaria justa revolta, justos protestos e justíssima criminalização.
Mas vamos esquematizar em duas frentes pra que fique claro, se é que isso é possível, se é que as pessoas querem ouvir e entender. Há sério risco de que não queiram.
Comecemos então com o “e se fosse com”:
Estabelecimentos comerciais vetaram a presença de judeus aqui mesmo no Brasil, exatamente como ocorria na Europa nazista dos anos 1930. E se fosse com negros, homossexuais, mulheres e pessoas com deficiência? Haveria justa revolta.
O Holocausto deu origem à palavra “genocídio”, porque tentava exterminar um povo por ser quem era. Foi uma ação deliberada de extinguir. De fato, matou ⅔ dos judeus europeus e ⅓ do mundo, 6 milhões de pessoas, de forma industrial, calculada, pensada, com o objetivo único de eliminar. Agora, alguns comparam esse absurdo único seletivamente com alguns crimes de guerra, que infelizmente ainda ocorrem. Tentam depreciar esse episódio histórico equiparável somente à escravização africana como algo menor. E se fosse com negros, homossexuais, mulheres e pessoas com deficiência? Haveria justa revolta.
A refundação de Eretz Israel (“Eretz” é terra em hebraico) é uma justiça com o povo judeu depois de ter sido expulso de lá e encarado uma diáspora em que houve as maiores perseguições e segregações da História, indo da inquisição ao Holocausto e passando pelos pogroms. Os judeus não tinham lugar no mundo desde que foram desterrados. É um refúgio, uma reparação histórica comparável a outras ações afirmativas, em relação a outras minorias. É o único lugar judaico no mundo, criado com a perspectiva de haver 2 Estados (a Palestina para os árabes, o outro povo originário). Tentam deslegitimar essa conquista historicamente legítima e moralmente necessária. E se fosse com negros, homossexuais, mulheres e pessoas com deficiência? Haveria justa revolta.
Judeus são destratados cotidianamente, numa normalização assustadora do insulto criminoso, do racismo étnico. Tratam o sionismo, que é o movimento de autodeterminação desse povo, algo extremamente justo, como o oposto do que ele é. Os judeus avisam que várias das definições usadas são racistas, porque os negam em sua identidade e trajetória. Excepcionalmente, então, negam aos judeus o seu lugar de fala, definindo “o sionismo” como movimento monolítico, desprovido de nuances, necessariamente expansionista. Ou seja, tentam negar o lugar físico e o lugar de fala. E se fosse com negros, homossexuais, mulheres e pessoas com deficiência? Haveria justa revolta.
Como em toda minoria, sempre há os que odeiam a própria identidade e se voltam contra ela. O “judeu antissionista” é uma aberração. Não ser sionista no sentido político dessa palavra, de engajamento, é outra coisa, apesar de me parecer, como defensor de todas as lutas identitárias, que essa pessoa é tola (diante da infinidade de perseguições e segregações históricas, está mais do que comprovado que os judeus só terão sua autodeterminação, sua coesão tão resiliente, com o seu lugarzinho no mundo, sua única e diminuta referência territorial). Mas, enfim, o “judeu antissionista”, que se comporta assim por diferentes motivos, alguns de auto-ódio e outros de fundo “messiânico”, é toketizado pelos negadores da legitimidade de Israel. É usado perversamente. É o “bom judeu”, o “judeu companheiro”. Esse uso, em se tratando de outras minorias, seria profundamente criticado por muitos que, se dirigido aos judeus, o praticam. E se fosse com negros, homossexuais, mulheres e pessoas com deficiência? Haveria justa revolta.
Sou chamado por “radical” e “intolerante” (risos irônicos) ao não discutir com antissemitas (e o conceito de antissemita é meu, e não dele, como deveria ser óbvio), ao apagá-los da minha vida. Já me disseram, depreciativamente, que estou com problemas emocionais (aliás, e daí se estiver?) por defender algo com tanta ênfase. Parto do princípio de quem um negro tem o direito de se negar a dar ouvidos a racistas, que, enfim, são criminosos. Racismo, nas diversas modalidades (seja pela cor da pele ou pela etnia), é crime. Não é uma ideologia a ser debatida, não pode ser aceitável e normalizado. E se fosse com negros, homossexuais, mulheres e pessoas com deficiência? Haveria justa revolta.
O cara que destrata os judeus, nega sua identidade e deprecia o sofrimento de sua trajetória ignora que são pessoas com suas identidades, com seus costumes, hábitos, valores e traumas, alguns deles transgeracionais. E ignoram que qualquer psicanalista põe na identidade algo essencial para o bem estar emocional. Mas a falta de empatia é seletivamente uma característica até de pessoas que, em relação a outras minorias, cuidam cada palavra e evitam machucar o outro (eu faço isso de forma extremamente radical, procurando inclusive perceber algo que eventualmente me escape). Com judeu? Nada disso! Tá valendo. Nem cogitam que podem provocar sofrimento. E se fosse com negros, homossexuais, mulheres e pessoas com deficiência? Haveria justa revolta.
Diante de tanto desrespeito, tanta agressão e tanta desconsideração, em meio a xingamentos que voltam reempacotados aos momentos mais intensos de perseguições sofridas por séculos, em etcéteras intermináveis de preconceito, você olha para os lados e vê o coro do horror até em antigos supostos amigos que você tinha como humanistas (mas aí se lembra do que os avós contavam e se dá conta de como aquilo era e é real). Ou, quando não vê o coro, depara com o silêncio, muitas vezes cúmplice, com a falta de acolhida até onde você achava que se sentiria cômodo, onde ao menos achava que seria ouvido. E o mais irônico nessa situação é que você acusa o antissemitismo 2.0 dessas pessoas, empacotado na hipocrisia do “antissionismo”, e é o cara que se ofende. É inacreditável! Aí você pergunta por que tanto interesse num assunto que lhe é alheio. Evidentemente, o judeu se envolve porque está machucado em sua identidade, porque aquilo vem da sua alma. E seu detrator? Qual o motivo? Parece-me claro que é um motivo inconfessável, mas a alegação do “antissionismo” e a depreciação do “sionista”, e não do judeu, serve como álibi. “Não sou contra os judeus, sou contra os sionistas”, diz, numa das infinitas formas de o antissemitismo se reinventar. Mas volta aqui a pergunta: e se fosse com negros, homossexuais, mulheres e pessoas com deficiência? Haveria justa revolta.
Agora vamos ao “faltou dizer quê”:
Os caras dizem que Israel é “uma pata do imperialismo ianque”, “colonialista”. Faltou dizer que o primeiro país a reconhecer Israel foi a União Soviética e que, quando os vizinhos árabes rejeitaram a partilha para o estabelecimento de dois Estados e atacaram o Estado judeu no dia seguinte à sua refundação, foi o bloco socialista que forneceu as armas para a defesa. Diante de tanta insegurança existencial, Israel acabou se armando e militarizando, e o apoio dos EUA, na lógica da Guerra Fria, veio com o automático apoio soviético aos países árabes, por interesses que passam pelo interesse no petróleo.
Os caras dizem que, na sua independência, Israel provocou a saída de árabes, que tiveram de deixar suas casas. O cálculo é de cerca de 700 mil pessoas. Faltou dizer que a mesma quantidade de judeus foram expulsos dos países árabes vizinhos, em especial do Iraque, tendo de migrar para Israel, assim como muitos outros judeus refugiados de outros lugares.
Os caras dizem que Israel ocupou territórios que deveriam ser palestinos. Faltou dizer que essas ocupações ocorreram em meio a guerras e jamais teriam ocorrido se a partilha estabelecida pela ONU tivesse sido aceita pelos árabes, que pretendiam estabelecer ali um panarabismo, ou seja, os judeus seriam intrusos na sua própria terra.
Os caras acusam Israel de expansionismo. Faltou dizer que não é da índole e da ética judaica a ideia do proselitismo e da expansão. É até vetado no judaísmo a tentativa de cooptação. Por outro lado, jamais se dá o nome correto para a busca do estabelecimento de um “califado” no Oriente Médio e em todo o mundo caso seja possível, com a “sharia” (legislação islâmica) imposta e os infiéis exterminados. Isso, sim, é expansionismo. Aliás, só mudam os nomes, mas é a mesma coisa que o nazismo com a “raça ariana”.
Os caras gritam contra a guerra. Ok, também sou contra a guerra, sempre. Mas faltou dizer que a possibilidade de o Irã, com seu regime fundamentalista e obscurantista, ter armas nucleares (essa intenção é real, resta saber ao certo quando conseguiriam), o risco é enorme para Israel em particular e para o mundo em geral. Para ficarmos aqui perto, foi o Irã quem financiou os atentados terroristas contra a embaixada de Israel em Buenos Aires e a AMIA, em 1992 e 1994. E se utilizaram de um homem-bomba, prática comum do fundamentalismo islâmico. Nada impediria que isso fosse feito na mais alta escala.
Os caras reclamam (com razão) que Trump falou a horrenda e bravateira frase de que destruiria uma civilização, referindo-se ao Irã. Sim, um horror, ainda mais que os EUA podem fazer isso se realmente quiser. Mas faltou dizer que o Irã tem como política oficial de Estado, verbalizada (algo muito mais grave), a aniquilação de uma civilização (Israel). Quanto a isso, há uma normalização assustadora. O regime fundamentalista do Irã, no dia em que tiver armamento nuclear, não vai avisar ou bravatear. Vai fazer, como já fez.
Os caras cometem a absurda ousadia de comparar os crimes de guerra ocorridos em Gaza com o genocídio inacreditável que foi o Holocausto. Faltou dizer muito quando se faz esse paralelo completamente descabido e agressivo. Faltou dizer que a guerra em Gaza foi uma reação (não estou questionando a sua dimensão, da qual eu próprio sou muito critico) ao devastador pogrom ocorrido em 7 de outubro de 2023, um ato, aí sim, francamente genocida, porque o objetivo, deliberado, foi de eliminar alguém por ser essa alguém, e a ideologia é de exterminar um povo. Faltou dizer que os judeus, quando houve o Holocausto, só viviam suas vidas e eram quem eram, sem desejar nem muito menos tentar matar e exterminar ninguém. Faltou lembrar do 7/10, uma barbárie seletivamente esquecida e apagada quando se fala no triste contexto de Gaza. Faltou dizer que, assim como em Gaza, há outros conflitos muito mais cruéis e mortais, inclusive na mesma região e envolvendo muçulmanos contra muçulmanos em conflitos intestinos. Faltou dizer que absolutamente nada pode ser comparado nem de muito longe à matança industrializada e deliberada do Holocausto, com extermínio de 2/3 dos judeus europeus e 1/3 dos judeus no mundo. É uma comparação exasperantemente aviltante.
Os caras dizem que Israel ataca o sul do Líbano, e isso é um horror. Primeiro, é importante que este autor esclareça seu repúdio a esse ataque e qualquer outra violência. Mas faltou dizer que o Hezbollah, do qual uma enorme parte dos próprios libaneses querem se livrar, são um grupo terrorista dedicado a destruir Israel e eliminar judeus, objetivo manifesto como o do Hamas. Faltou dizer que em meio a esses ataques, quilômetros de túneis com origem no Líbano, destino em Israel e intenções nada pacíficas, têm sido destruídos nesses ataques.
Os caras dizem que defender “o sionismo” (palavra indevidamente demonizada e revirado ao avesso, de movimento libertador a “criminoso”) é “ser de direita”. Faltou dizer que, ao empunhar a bandeira do Hamas e apoiar os aiatolás, os supostos “progressistas” (infinitas aspas aí) endossam regimes obscurantistas, misóginos, homofóbicos e antissemitas (racistas), algo que nada difere em relação aos oponentes criticados pelo terraplanismo e pela rejeição à vacina. Aliás, difere, sim, porque um terraplanista pode ser definido como alguém pitoresco, que não faz mal a ninguém, um folclore. O racismo nunca é folclore.
Os caras reclamam veementemente contra o impedimento de um padre rezar a missa na Semana Santa (por motivos de segurança). Faltou dizer, em geral, que em Israel nunca houve restrição a outras crenças, pelo contrário, que quem pratica esse tipo de intolerância são seus inimigos. E, pontualmente, faltou dizer que os judeus também não puderam ir ao Muro das Lamentações na mesma ocasião e pelo mesmíssimo motivo, o da segurança, pro seu próprio bem.
Os caras fazem um apagamento identitário violento em relação aos judeus, algo que não fariam em relação a outras minorias. Negam seus direitos legítimos. Adotam discursos deslegitimadores cuja falsidade é facilmente comprovada, histórica (os judeus foram expulsos da Judeia, depois renomeada como palestina), geográfica (os judeus acorreram à Europa ocidental e oriental, sefaradim e ashkenazi e de lá também tiveram que sair porque jamais foram bem aceitos) e cientificamente (a arqueologia e os testes genéticos corroboram tudo isso). Faltou dizer que esse tipo de comportamento é cruel e provoca muita dor. Mas, enfim, não dizem porque não querem dizer. Quando a onda do tsunami narrativo invade a praia, o sol se obscurece e até os supostos humanistas viram bestas.
Resta, muito além do “e se fosse com…” ou “faltou dizer quê…”, pedir compreensão e ajuda, porque não está fácil esta esquina da vida. Por favor, nos enxerguem! Socorro!
Shabat shalom!
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