
“Quando meu pai era um jovem em Vilna, todas as paredes na Europa diziam: ‘Judeus, voltem para a Palestina’. Cinquenta anos depois, quando ele voltou à Europa para uma visita, as paredes todas gritavam: ‘Judeus, saiam da Palestina’.”
Amos Oz, em De Amor e Trevas
Arranco este texto usando a perturbadora frase acima, do escritor israelense pacifista Amos Oz, sobre o seu pai, Yehuda Arieh Klausner, que por sua vez era filho de família judia lituana dedicada à agricultura. Yehuda viveu, cresceu e estudou Literatura e História na capital da Lituânia. Em razão do crescente antissemitismo, materializado nos massacres promovidos pelos pogroms devastadores e sempre ameaçadores contra um povo que ansiava por sobrevivência, a família Klausner, em 1933, emigrou (refugiou-se) para a antiga Judeia, antigo lar judaico, conhecida então pelo nome de Palestina e que 15 anos depois voltaria a ser Israel.
Essa reveladora história foi contada no livro da epígrafe, De Amor e Trevas, com forte teor autobiográfico. Amoz Oz nasceria em Jerusalém, em 4 de maio de 1939, exatamente nove anos antes da independência israelense e da festejada conquista judaica de autodeterminação no lar ancestral do povo judeu após séculos sendo perseguido e segregado em todos os locais para onde acorresse desde que fora expulso da Judeia e vendido como escravo pelos romanos, em 135 d.C.
Mas duas outras figuras da literatura complementam e ilustram este texto. Uma é a do Centauro no Jardim, obra-prima do escritor judeu brasileiro (e gaúcho) Moacyr Scliar. O Centauro no Jardim é justamente essa figura esquisita, incompreendida e perseguida em seu meio. É um centauro! E, para finalizar, cabe aqui ainda lembrarmos o icônico Violinista no Telhado, musical da Broadway levado ao cinema por Norman Jewison, cuja origem é um romance de Sholem Aleichem.
As figuras do violinista e do centauro se complementam. O violinista é o diferente, que faz sua arte se equilibrando num telhado. É a imagem da tradição e da modernidade, do religioso e do laico, que convivem nesse grupo étnico-religioso que é o povo judeu. Mas podemos ir além nessa alegoria. Também pode ser visto como o judeu que precisa viver em meio a um mundo polarizado, enfrentando realidades e narrativas e tendo de achar o ponto de equilíbrio entre diferentes dogmatismos. Neste mundo em que as ideologias se tornaram bandeiras irrefletidas, em que o cara defende algo já sem nem saber o motivo e muito menos entendê-lo, mas persiste diante das redes sociais que tudo registram, endossam, engessam, cobram e, por vezes, lacram. Um mundo em que a estupidez ganha coro nas bolhas e autoriza gritos erráticos, desprovidos de sentido, como previu o Umberto Eco usando expressões bastante depreciativas para definir essas pessoas.
E onde entra o judeu nisso?
O judeu é o centauro nesse jardim, tentando se equilibrar no telhado. Porque não sei se você já reparou, mas o antissemitismo é ambidestro. A extrema direita tradicionalmente acolhe os neonazistas, ali é o habitat deles. E enormes setores da esquerda, nem sempre extremos, chegam ao ponto de empunhar a bandeira do Hamas e defender aiatolás, endossando grupos e figuras obscurantistas, com mentalidade medieval, violentamente homofóbicas, machistas e, claro, antissemitas.
Haja telhado para tanto equilíbrio! E a situação se agrava quando bolsonaristas exigem dos judeus um alinhamento que vai contra a consciência ideológica de parte de uma coletividade plural, enquanto a esquerda tokeniza lamentáveis figuras, fracas de caráter, e cobra do judeu progressista que seja “antissionista” (!) sem ter ideia do que é sionismo, o movimento de autodeterminação do povo judeu, defensor da atitude tomada pelo pai do escritor pacifista Amos Oz, citada ali em cima.
O sionismo, como qualquer movimento nacionalista, se abre para diferentes perspectivas e ideologias e, é evidente, se for hegemonizado por grupos extremistas, corre o risco de resultar em negação de direitos, violência e guerra. Mas o sionismo, na essência, é só a defesa da existência de Israel convivendo em paz, segurança e sob reconhecimento mútuo com o lar, que seria vizinho, do outro povo originário daquela terra: o árabe, o palestino. Sim, há os defensores da Israel bíblica (ocupando territórios destinados à Palestina), mas, tradicionalmente, predominam os judeus defensores da partilha desde a proposta pela ONU em 1947. Aos judeus progressistas, entre os quais se inclui este autor, perturba profundamente a onda de antissemitismo revestido de “antissionismo” em setores da esquerda.
Os judeus sempre foram avessos ao proselitismo, que inclusive é vetado, e isso se estende à suposta “expansão” ou “colonização”, que, quando existe, é pela sobrevivência e segurança, e não para conquistar o outro e impor uma cultura. O lugar de fala judaico, que precisa ser respeitado como os de outras minorias, define o antissionismo como uma modalidade repaginada de antissemitismo, porque a negação a Israel é a negação ao próprio povo judeu e sua sofrida trajetória.
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“Eretz” Israel é a terra originária do povo judeu, um povo que, como qualquer pessoa minimamente informada sabe, ficou 1.880 anos sem ter o seu pequeno lar no mundo, a antiga Judeia, com seus integrantes preservando sua cultura e tradições e enfrentando preconceitos, segregações e variadas perseguições violentíssimas em todos os cantos para onde teve de ir. Desde sempre, por milênios, o vínculo sobejamente registrado com essa terra de onde foi expulso (e isso é História) é motivo de rezas e cantos milenares nos templos e nas festas tradicionais. As sinagogas existem, há milênios, com seus púlpitos voltados pra lá. Reza-se pra lá! É obrigatório isso! Logo, o judeu, na sua essência, é necessariamente sionista. O sionismo político, como todo movimento nacionalista, pode descambar pra negação de outros povos? Sempre há esse risco, como dito acima, ainda mais diante da ameaça a sua existência. Mas, desde sempre, a ideia amplamente majoritária dos judeus é de existência pacífica, segura e reconhecida mutuamente com os outros povos. As agressões e promessas formais de extermínio contra Israel desde a sua independência e refundação, levaram à necessidade de militarização, uma imposição do contexto. Houve também expansões em conquistas durante indesejadas guerras. O fato é que, diante disso e ressalvando que o que se quer sempre foi viver em paz ao lado dos vizinhos árabes, isso de “judeu não sionista” ou a aberração de um judeu “contra” o sionismo existe como enorme exceção e é perversa e barulhentamente usado, mas é comparável a um negro contra cotas ou um homossexual contra o casamento homoafetivo, que são resgates de identidade e dignidade. Sempre existirão essas figuras e serão tokenizadas pelos que, por algum motivo, até sob alegações falsamente humanistas, negam ou depreciam os justos, necessários e legítimos anseios identitários de uma minoria. A atual separação perversa dos judeus entre sionistas e “não sionistas” é uma forma de justificar o antissemitismo buscando álibi no “bom judeu” (como o “negro bom”), aquele q é “bom companheiro”. Aquele que não incomoda. E isso é sorrateiro, é perverso. Invadem o nosso lugar de fala para definir o que é “judeu”, “sionismo” e “antissemitismo”.
Lá nos anos 1940, Sartre aconselhava os judeus a tomarem as rédeas de sua história, e é o que muitos andamos tentando fazer, porque os outros, ao fazerem, fazem-no mal, por perversidade ou ignorância. E Martin Luther King, 20 anos depois, alertava que o antissemitismo voltaria na forma de “antissionismo”.
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Pois há milênios os judeus vão às sinagogas e oram voltados para Jerusalém. A sinagoga tem o púlpito direcionado para a eterna capital judaica, onde “todos um dia se encontrarão”, como diz a tradição. Só rezar nessa direção já é sionismo. Não é o “sionismo político”, mas é a essência do pertencimento ao lar ancestral, de onde foram expulsos, e isso é História. Negar esse direito diante de tantas perseguições e segregações, por vezes elas próprias negadas, é antissemitismo.
Aos judeus progressistas também incomoda profundamente, por outro lado, o uso indevido e muito oportunista dos seus símbolos culturais e religiosos por uma extrema direita com discursos distopicamente terraplanistas, defensora de teses cínicas, desumanas e avessa à ciência em geral e -muito em especial na época da pandemia do Covid- à vacinação como medida sanitária preventiva, entre outras aberrações que punham o mundo muitas casas atrás no caminho evolutivo.
Essa confusão e essa tentativa de cooptação pela direita mais radicalizada se alimenta ironicamente da esquerda dogmática antissemita, que abandona os judeus e os força a fazer outras escolhas ou optar por nem sequer escolher. Esse cabo de guerra num ambiente polarizado se estabelece mesmo que a pessoa tenha enraizadas convicções ideológicas. Joga-se com o vácuo, com o desamparo.
O que faz um centauro num jardim tão hostil? Para onde corre? O que é ideologia? É uma visão de mundo. E se o cara acredita que o mundo fica melhor e mais justo com uma regulação que atenue as desigualdades e injustiças? Se o cara defende a proteção a minorias vulneráveis, seja no sentido socioeconômico ou de orientação sexual, racial, étnica e de gênero? Essa visão é progressista, mas nenhum partido é seu dono; ela é apartidária, é apenas ética e comportamental. Mas, se os partidos que em tese a defendem o rejeitam e apagam, onde o centauro se enfia?
Percebem a atualidade da história do pai de Amos Oz? A eternidade do violinista? A condição perene do centauro? A arte nos dá referências em belas metáforas, em lindas figuras literárias. Quando uma campanha eleitoral repleta de figuras sinistras que fazem apito pra cachorro (sinais de pertencimento a nazistas que integram a base partidária, mas precisam ter baixo perfil) usa a bandeira de Israel, um judeu progressista se sente no ar, no telhado, num jardim por vezes inóspito.
São profundamente desconfortáveis esse mau uso e essa apropriação indevida. Quando um candidato presidencial de extrema direita esteve num clube da coletividade judaica falando disparates e sendo aplaudido, ficou famosa a triste e real anedota que circulou entre os grupos progressistas judaicos: tinha muito mais judeus do lado de fora vaiando aquela insanidade do que dentro. Mas ninguém ligou. Quando o dogma aponta seu dedo infame a uma vítima, ele a lacra.
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O sentimento de vazio do centauro tem se apresentado cada vez mais constantemente no cotidiano e requer o equilíbrio e o discernimento do violinista. A atrocidade do apagamento identitário e da invisibilidade é brutal. Recentemente, em uma aula, num curso universitário de humanas da UFRGS, um aluno falou sobre os judeus. Especificamente, sobre a diáspora judaica. O guri, com raciocínios delirantes e muito desinformado, destila despautérios. Que Israel não é a origem dos judeus askenazim, oriundos da Europa central e oriental, que os atuais judeus na verdade são uma ficção. Que Israel é uma invenção, é artificial, foi criado “pelo império”. Enfim, não existiria uma diáspora judaica, pelo raciocínio do jovem. Só faltou alguém ironizar perguntando se, diante do exposto, Adolf Hitler tratou de exterminar o povo errado. Imagino a cena. Hitler, diante desses arrazoados, batendo com a palma da mão na própria testa e lamentando o engano. Mas sigamos.
Antes de entrar no mérito, assinalo um dado ainda mais asfixiante: o aluno em questão falou barbaridades, o professor ouviu sem ponderar nem pestanejar e os colegas calaram bovinamente. Nem mesmo os poucos judeus se manifestaram, e foi por um justificado medo de se expor (percebam o significado disso; aliás, um dos meninos judeus já nem usa sua estrela de David na faculdade por se sentir inseguro). E a coleção de palavras fake passou como algo totalmente normalizado.
Surgem duas perguntas. A primeira: onde está a empatia dessas pessoas? Antes que você se tome de mordacidade e me pergunte onde está a empatia diante da repudiável matança que ocorreu em Gaza após o horror devastador em 7/10/2023, respondo: está intacta. Zelar pelo direito de Israel existir e defender sua integridade não implica concordar incondicionalmente com o governo de plantão. Repito: o povo judeu é essencialmente plural, é da sua tradição e da sua cultura a arte de divergir, e não necessariamente se concorda com tudo que faça o governo israelense.
E a outra pergunta é se aquele aluno pensa na exasperação do apagamento que ele sustenta? Porque é disso que se trata. É exasperante. Corrói por dentro, provoca sofrimento intenso, uma sensação de distopia potencializada pelo trauma transgeracional de quem ouviu as histórias dos avós perseguidos, desamparados, que não podiam confiar em ninguém, nem em vizinhos, colegas ou supostos amigos, que tinham de silenciar como os meninos hoje numa sala de aula, esconder a identidade, que precisaram fugir do pesadelo, reinventar a vida longe com uma nova família (nós) em razão da morte dos seus entes mais queridos, executados deliberadamente, industrialmente, num crudelíssimo extermínio planejado metodicamente sob nomes como “solução final”, “Holocausto”, “pogroms”, “inquisição”. É a negação de uma identidade. É brutal.
Bastaria um pequeno esforço para imaginar esse desrespeito avassalador ocorrendo com outra minoria. A revolta seria enorme, e com razão. Talvez até houvesse Boletim de Ocorrência, e com razão. Mas com o centauro está valendo. Tornou-se mainstream. Rende aprovações e cabeças fazendo gestos afirmativos.
Esses discursos, muitos dos quais fazem lembrar a Europa nos anos 1930 só que repaginados, provocam sensação de desamparo e isolamento cuja compreensão requer mínima empatia. Só que é até irônico. Algumas das pessoas que os fazem se julgam as mais empáticas, as humanistas, as sofisticadas, as intelectuais. São tudo isso, sim, mas só quando a defesa de uma minoria traz os abstratos dividendos da aceitação. Até raros judeus embarcam nessa onda e aderem ao auto-ódio.
Este ensaio propõe reflexões e esclarecimentos sobre contrassensos de ditos progressistas que empunham a bandeira do Hamás e apoiam os aiatolás, grupo e líderes obscurantistas que segregam, matam minorias e defendem o extermínio de uma nação e um povo, tudo o que um progressista, em tese, rejeitaria. Mas cabe mostrar outras contradições usuais. Todo Natal, surge a figura histórica de Jesus representado como “palestino”, sendo que a região Palestina recebeu esse nome mais de um século depois da existência de Jesus (a região era a Judeia, a terra dos judeus, assim como havia a Gália, a Britânia, a Germânia), sendo ele definido como INRI (Jesus Nazareno, Rei dos Judeus) na inscrição da cruz e cuja imagem icônica, a Santa Ceia, era um seder de Pessach (jantar ainda hoje celebrado nos lares judaicos) com os apóstolos, igualmente judeus. Também se fala depreciativamente do judeu como “capitalista” ou “comunista” ao sabor da narrativa e do público a que se dirige. Há ainda contradição quando as mesmas pessoas definem os judeus como etnocêntricos, mas, também, “apátridas” e “cosmopolitas”. Tem quem negue aos judeus a relação com o Oriente Médio (cabe aqui sublinhar que exames de DNA desde sempre comprovaram objetivamente essa ligação, de askenazim e sefaradim, com Israel), mas, ao mesmo tempo, teriam estado lá e “matado Jesus” (antiga e descabida acusação de “deicídio” já revogada pelo próprio Vaticano em 1965). Outra contradição, muito em voga nos tempos atuais: no limite da argumentação “antissionista”, reduz o povo judeu a mera religião, desdenhando de todas notórias características etnoculturais para deslegitimar o seu lar ancestral, mas pinçando judeus ateus (percebam a incongruência e entendam que, sim, há judeus ateus, laicos e religiosos, mas, em sua esmagadora maioria, “sionistas”) como “judeus antissionistas” autorizados, aí sim, a abordar temas judaicos para depreciar o próprio povo, ou seja, a tokenização tão vetada para outras minorias.
E a solidão é avassaladora. Para onde corre o centauro? Para cima do telhado com seu violino diante das pichações dizendo que ele sempre foi malquisto fora do seu lar e também deve ser malquisto nele? Tiram-lhe o direito ao lugar geográfico e ao lugar de fala. E o outro lado do espectro ideológico aparece oportunisticamente com o dogma, porque todos são dogmáticos nesse amplo contexto de um perverso cabo de guerra. Você não se sente à vontade em nenhum lugar, e essa parece uma condição.
Na verdade, sim, é uma condição. Depois do trauma provocado pelo Holocausto, houve uma trégua. Mas ser judeu é ser o esquisito, o cara do violino se equilibrando sabendo que é incompreendido e mal aceito. É o que estamos vivendo. Aí surgem figuras como certos neopentecostais que defendem os judeus, mas estão longe de sentir amor sincero. Querem a volta do povo judeu para Israel, a suposta chegada do Messias e a conversão dos judeus. Não é exatamente uma aliança real.
Aliás, é tão delirante quanto os naturei karta, um grupo ultraortodoxo e ultraminoritário, frequentemente tokenizado pelos “antissionistas”. Mas, na verdade, no sentido mais amplo, seriam “sionistas” de um jeito insano. São contra o sionismo político e as instituições israelenses. Israel deve existir, dizem, mas só quando o Messias chegar. Aí surge a suposta comprovação de que, “vejam, até tem judeus que são contra o sionismo”. E dê-lhe tirar fotografias abraçados com esses caras, que estão completamente afastados do povo judeu e formam uma seita obscurantista. Enfim, com judeus, excepcionalmente, vale tokenizar.
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O antissemitismo da direita aparece quando o sujeito faz o manjado apito para cachorro destinado ao uivo da plateia neonazista; o antissemitismo da esquerda aparece na demonização de Israel e na distorção do sionismo. Dois fatos chamaram a atenção poucos anos atrás: o presidente de Israel, Isaac Herzog, abriu uma campanha para repor no imaginário das pessoas o verdadeiro significado da palavra “sionismo”, que é um movimento de autodeterminação judaica no seu único e legítimo lar ancestral. A emissora de TV pública alemã Deutsche Welle estabeleceu explicitamente no seu código de conduta que deve ser observado apoio ao povo judeu e o direito de existência do Estado de Israel (o funcionário que romper esse compromisso pode ser demitido).
A Alemanha sabe a que se refere. Quando morei na Argentina, na condição de correspondente do jornal Folha de S. Paulo em Buenos Aires, pautei-me muito pelo tema dos direitos humanos. Criei bons vínculos com familiares de vítimas da ditadura que pôs o país no obscurantismo entre 1976 e 1983, e também ouvi dezenas de depoimentos de sobreviventes do Holocausto. De uns, escutei que os fascistas de hoje são aprendizes do nazismo de antanho, de outros ouvi algo revelador: que o renascimento de Israel, em 1948, foi a melhor notícia de suas vidas, porque agora tinham para onde correr e quem os defendesse. Sim. Isso é Israel. É o lugar onde essas pessoas chegam e não se sentem minoria. E isso não deveria ser usado como tem sido numa disputa polarizada de extremos dogmatizados.
Ainda poderemos conversar sobre judeus como o brasileiro Vlado Herzog e o argentino Daniel Rus, cuja mãe, Sara, sobrevivente da Shoá (Holocausto), passou por dois infernos e militou como Madre de la Plaza de Mayo (Sara e Bernardo eram namorados na Europa e foram ambos para campos de concentração, prometendo sobreviver e se encontrar na Argentina, o que ocorreu sob circunstâncias épicas. Na Argentina, tiveram o filho Daniel, brilhante físico nuclear que em 1977 foi assassinado pela ditadura militar instalada no ano anterior).
Haja maldade e leviandade para afrontar tais pessoas sendo negacionista e antissemita (inclua aí o antissionista, versão moderna do ódio ao judeu diante da “inadmissível” independência de Israel). Os descendentes têm a obrigação moral de manter vivos os traços étnicos judaicos (cultura, origem comum e valores, o que inclui a religião, nem que seja pela eloquência ética dos seus ritos), assumir quem são e defender muito a legitimidade essencial de Israel, seu lar ancestral e única referência territorial em meio a 22 países árabes (a Palestina seria o 23).
Mas tudo isso numa musicalidade própria sobre o telhado.
Durante 1,9 mil anos de diáspora, nossos antepassados mantiveram heroicamente tudo isso, mesmo diante das maiores provações e crueldades – a Shoá é a gota d’água entre tantas perseguições, o ápice dos pogroms. Lembrá-los é dever moral, algo que se impõe.
Houve uma situação em que debati com um antissemita revestido da roupagem socialmente aceita de “antissionista”. Ao ver que os fatos o contrariavam, meu interlocutor sacou de argumento que me fez ver o grau infinito de possibilidades que o antissemitismo oferece para versar sobre o mesmo conteúdo sob diferentes formas. Disse que os judeus askenazim não são semitas, porque o iídiche é idioma germânico. Acatemos que o iídiche seja “língua germânica” com palavras do hebraico e forma de escrever idem (mas, ainda assim, de raiz “germânica”, ok). Essa classificação é técnica (como o cara falar português, morando no Brasil, mas com palavras, caracteres e até sentido da língua de origem, da direita pra esquerda). Concedamos até a possibilidade (no mínimo controversa, porque os judeus realmente fugiram da Judeia dominada pelos romanos) de que alguma parcela dos judeus askenazim tenha sido convertida ao judaísmo no século VIII (8!). Repito: século OITO! (tem religião que recém engatinhava nessa época e continente que nem tinha sido “descoberto”).
Todas essas pessoas, de qualquer forma, liam e rezavam em hebraico e se voltavam para Jerusalém nas orações em livros físicos existentes há milênios. Mas, ok, acatemos os argumentos de quem tenta nos revirar pelo avesso (como se todos os povos, países e “raças” não fossem, lá no fundo da origem humana, convenções) e nos tirar o caráter semita para, dessa forma, atingir o alvo, que é nos deslegitimar e deslegitimar Israel. O que buscam é, depois das tentativas de eliminação física (que foram em vão justamente porque a etnia judaica é fortíssima), fazer o apagamento da própria identidade. E isso é brutal.
Aceitemos o jogo deles. Acatemos o delírio semântico despertado pelo atávico e irredutível ódio ao judeu, ponhamos a bola ao centro e recomecemos. Eu pergunto: e daí?! Por que todo esse contorcionismo negativista e sorrateiro nos apagaria como povo e como etnia enraizada nos primórdios da civilização – e cruelmente perseguida na diáspora?
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O antissemitismo sempre busca brechas ao sabor do contexto. É de uma perversidade sorrateira! Judeu é “raça”, depois deixa de ser raça. Chega-se a esquecer de que “raça” é convenção do próprio racista (e existe sociologicamente, mas nunca biologicamente). Nunca existiram “raças” entre humanos! O judeu entra 100% na definição literal do que é etnia. Até a frase batida “tenho amigos judeus”, um clássico do preconceito (como o “tenho amigos negros”).
Além de o iídiche ser um dos dialetos usados na diáspora com vários vocábulos e todos os caracteres em hebraico (natural numa adaptação), tanto askenazim quanto sefardim (cujo idioma da diáspora é o ladino) usam desde sempre o hebraico como idioma em seus rituais, e isso os unifica. Milhares de anos! Todas as liturgias são em hebraico, a Torá é em hebraico. E o iídiche é uma compreensível adaptação à diáspora, com palavras em alemão e hebraico (a diferença, às vezes, está só numa vogal). A maldade, a perversidade e a estuídez dessas pessoas são ilimitadas!
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É um problema ambidestro, como escrevi antes. Diante da impossibilidade de aniquilar fisicamente o judeu, apaga-se a sua identidade. Mas cabe ao próprio judeu definir: rejeitar o direito judaico ao seu lar é, sim, antissemitismo (não estou falando de quem eventualmente critica o governo israelense, o que é altamente legitimo). E, quando alguém me contesta, resta repetir ironicamente até ser compreendido: além de quererem tirar o lugar físico, querem tirar também o lugar de fala?!
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O jornalista Jeffrey Goldberg, da revista norte-americana The Atlantic, ficou três dias de agosto em Havana entrevistando Fidel Castro. Nesse entrevista, publicada em setembro de 2010, Fidel pediu ao líder obscurantista iraniano Mahmoud Ahmadinejad, na época presidente do seu pais, que deixasse de ser antissemita e entendesse a perseguição histórica aos judeus. Vejam a complexidade desse contexto que alguns tomam como dogma. Fidel disse na ocasião: “Ninguém foi tão difamado como os judeus”. E pediu a Goldberg que a mensagem chegasse a Ahmadinejad, acrescentando que os judeus foram expulsos de sua terra e maltratados em todo o mundo, sendo culpados de tudo por séculos. Sim, senhores, Fidel Alejandro Castro Ruz disse isso, do alto da sua longa trajetória e do seu profundo conhecimento e mesmo sendo um crítico a políticas de Israel e também defendendo o Estado Palestino, numa solução incontornável de dois Estados pra dois povos! Aos 84 anos, a preocupação de Fidel era com uma guerra entre Israel e Irã, envolvendo outras potências. Vejam que loucura isso!
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O antissemitismo, irredutível e sorrateiro preconceito de quatro mil anos, traveste-se ao sabor dos contextos. Revestiu-se de religioso quando o que pegava era acusar os judeus pela fé diferente; depois foi “científico” ao lhes atribuir defeitos de raça (o caso clássico do nazismo); e mais adiante, quando enfim esse povo tão perseguido, segregado e castigado conseguiu se reinstalar no seu comprovadamente legítimo e altamente necessário pequeno lar ancestral, deixou de ser uma questão racial para se tornar política, negando esse direito indiscutivelmente legítimo e chegando ao absurdo da tentativa de apagamento identitário.
É interessante que variam as formas, mas a essência se mantém, indo do “comedor de criancinhas” a “cruéis e depravados”; do “povo que quer dominar o mundo” ao “aliado do imperialismo expansionista ianque” (sempre vale lembrar que Israel ressurgiu com uma proposta social-democrata e contou com forte apoio do bloco socialista na Guerra Fria, mas depois as circunstâncias, os interesses, a política e o petróleo, sempre ele, reviraram o jogo).
É importante lembrar que o primeiro país a reconhecer Israel em 1948 foi a União Soviética; quando o novo Estado judeu teve a sua independência, em 1948, os vizinhos árabes rejeitaram a partilha proposta pela ONU no sentido de haver dois Estados em paz, segurança e reconhecimento mútuo, e houve o ataque no dia seguinte (15 de maio daquele ano) à refundação de Israel (14 de maio do mesmo ano). Quem armou Israel quando o estado judeu estava longe de ser a potência militar que se viu obrigado a se tornar? A Tchecoslováquia, do bloco socialista. O resto é história, muito petróleo e a aliança inescapável com os Estados Unidos, por questão de sobrevivência. Logo, na Guerra Fria, as circunstâncias políticas e econômicas alinharam Israel aos EUA.
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Nunca foi fácil ser centauro, nunca foi simples se equilibrar num telhado e ainda tocar violino com toda a tradição em belas e milenares canções do povo mais resiliente da História, nunca foi cômoda a rejeição, seja onde estiver, inclusive no próprio lar, nunca foi leve ser sempre incompreendido. Mas esse contexto duro requer o reforço da identidade, e o reforço da identidade requer personalidade, autenticidade e convicção. Em um mundo polarizado, tendente a dogmatismos registrados nas redes antissociais e com isso definitivos, talvez nunca tenha sido tão desafiadora a consciência identitária e o pertencimento. Nessa guerra proselitista de religiões pagãs, de narrativas, o povo judeu precisa saber o que disse lá atrás o talmudista Hillel, o “sábio dos sábios”. 1) “Não faça aos outros o que lhe é odioso. Essa é a lei. O resto são comentários” (ou seja, é a defesa da empatia e da pluralidade). 2) “Se não eu por mim, quem por mim? Se eu for só por mim, quem sou eu? Se não for agora, quando?” (ou seja, tenha personalidade, seja autêntico).
Detalhe importante é que, propositalmente, a Torá (o “Pentateuco”, os cinco primeiros livros do chamado “Antigo Testamento”) traz todos os seus protagonistas, por mais importantes que sejam, com falhas. Por isso, usa-se a kipá, no sentido da humildade sob Deus, uma figura incorpórea. A perfeição é só divina, e os judeus são um grupo étnico-religioso porque essa ética se impregna na vasta cultura repleta de hábitos e costumes. Nada de santos, ídolos e imagens. E a pluralidade também está aí. Essa lógica faz Amos Oz dizer que o que une o povo judeu é a palavra, e “Deus” é uma delas. Einstein dizia que seu Deus é o Deus de Spinoza (também judeu, tendo pago pela lúcida ousadia de ver o divino na natureza, no todo, o que aproxima o místico do racional). Estão aí, ainda, obras como o Eu e Tu de Martin Buber, que fala de empatia, pureza e não objetificação.
Nesse transformismo do ódio aos judeus em diferentes modalidades, parece clara a conclusão sobre a fonte que possivelmente esteja por trás de toda a rejeição: a abertura ao racional, a crença em um Deus incorpóreo, a aversão à idolatria e a prática da leitura como algo básico na cultura judaica são características permanentemente revolucionárias e, para muitos, perigosas. No Iluminismo, isso ocorreu de forma concreta. A abertura religiosa possibilitou que os judeus saíssem dos shtetls (aldeias) onde viviam isolados e ingressassem nas universidades, onde enfim passaram a ser aceitos. Como eram acostumados a horas e horas durante o dia lendo e debatendo nas yeshivot (grupos judaicos de estudos e interpretação da Torá), estudar lhes era algo familiar. Por conta disso, se destacaram em diferentes atividades. Se antes já podiam desempenhar tarefas vetadas aos cristãos, como a medicina, o comércio e a financeira, agora sua margem de ação se ampliava, o que aumentava o rancor..
Na mais recente e cruel ditadura argentina (1976-1983), o almirante Armando Lambruschini, que chegou a integrar a junta militar responsável pelo Poder Executivo, dizia com todas as letras que os principais inimigos da humanidade eram os judeus Einstein, Freud e Marx. Motivos: Einstein relativizava os conceitos de tempo e espaço, e os militares consideravam isso uma forma de subversão científica muito perigosa ao estabelecer incertezas; Freud criou teorias sobre inconsciente e sexualidade que, diziam Lambruschini e seus comparsas, desestruturavam as famílias e estabeleciam a “balbúrdia” na sociedade; e Marx punha em dúvida o conceito, para eles sagrado, de propriedade privada.
“A crise atual da humanidade se deve a três homens: até o fim do século 19, Marx publicou três tomos de O Capital e pôs em dúvida a intangibilidade da propriedade privada. No início do século 20, é atacada a sagrada esfera íntima do ser humano por Freud em seu livro ‘A interpretação dos sonhos’. E, como se fosse pouco, para problematizar os valores positivos da sociedade, Einstein, em 1905, torna conhecida a Teoria da Relatividade, onde põe em crise a estrutura estática e morta da matéria”, discursou em 26 de novembro de 1977 Emilio Massera, também almirante e também em algum momento integrante da Junta Militar.
O centauro, sempre o centauro.
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Shabat shalom
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