
Charles Perrault nos vendeu uma das fraudes mais bem-sucedidas da literatura. Em sua fábula de 1697, o caçula do moleiro herda apenas um gato. Bastou ao felino um par de botas e uma audácia sem escrúpulos para inventar um nobre a partir do nada.
No Brasil dos anos 1960, a gravadora Continental resgatou a trapaça do Gato de Botas nos compactos da Coleção Disquinho. Na adaptação de Braguinha, embalada pelo maestro Radamés Gnattali, gerações de crianças decoravam na vitrola a ordem do bichano aos lavradores: se o rei perguntasse, deveriam responder em coro que todas as terras pertenciam ao Marquês de Carabás. Ameaçados de virar picadinho, os camponeses obedeceram. A farsa deu certo, o jovem casou-se com a princesa e o conto terminou no habitual “felizes para sempre”.
O problema é que Perrault e a vitrola da infância silenciaram sobre a fatura do dia seguinte: quanto custa sustentar a mentira de ser nobre quando se é apenas uma pessoa comum?
Seis décadas depois, o método Carabás virou estratégia de sobrevivência digital. O ecossistema das redes sociais opera da mesma forma, exigindo que cada detalhe da rotina ganhe uma aura de sucesso irrefutável. Multiplicaram-se os marqueses e as princesas de vitrine; perfis sem desvio, dúvida ou cansaço, programados para exibir produtividade e vitórias diárias.
O custo psíquico é alto. Para manter o personagem de pé, o indivíduo precisa esconder as vestes molhadas do falso afogamento, os dias difíceis, a ansiedade e a exaustão. É uma lógica de encenação que há muito contamina também a arena política, convertida em fábrica de líderes infalíveis que vendem terras e soluções imaginárias. Na vida privada ou pública, a vulnerabilidade virou tabu: aprisionado por falsos brilhantes, o sujeito vira refém da própria imagem, incapaz de confessar limitações sem sentir vergonha.
É aí que essa narrativa exige um contraponto. O verdadeiro pulo do gato contemporâneo não está na astúcia de enganar o rei ou devorar o ogro para tomar seu palácio. O movimento para manter a sanidade é a desobediência estética: a coragem de descalçar as botas e reivindicar a beleza de ser imperfeito, mas íntegro. É resgatar a lição de Fernando Pessoa sob o heterônimo de Ricardo Reis: “Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes.”
Afinal, como a lua que brilha alta e plena em cada pequeno lago, a verdadeira grandeza não precisa de cenários, disfarces ou trajes sob medida para existir.