
Um fato incontestável da campanha eleitoral deste ano: os políticos nunca estiveram tão mal avaliados. E as pessoas nunca estiveram tão desligadas da política. Lembra? O maior índice de abstenção, desde a reconquista do direito ao voto, em 1989, foi registrado em 1998, quando 21,5% do eleitorado deixou de votar na eleição que manteve Fernando Henrique no poder até 2002. Pois, nos dois últimos pleitos, quando vigorou o voto nem, nem, a abstenção andou perto do índice de 98.
Em 2018, quando Bolsonaro foi eleito, no rastro da Operação Lava Jato, praticamente só prometendo “acabar com tudo isso daí, tá oquei”, 20,3% das brasileiras e brasileiros preferiram ficar em casa no dia da eleição.
Em 2022, quando Lula voltou, pela terceira vez, ao Palácio do Planalto, prometendo retomar os projetos sociais de seus governos anteriores, 20,9% do eleitorado deixou de ir às urnas.
Imagina o que pode acontecer este ano… As pesquisas de opinião mostram que 63% da população não confia nos partidos políticos e só entre 9% e 12% confiam no Congresso Nacional.
E os ingredientes desse bolo indigesto, que pode fazer mal à senhora democracia, são produzidos e misturados pelos próprios políticos: uma dose exagerada de escândalos de corrupção envolvendo diferentes partidos e lideranças.
Um copo cheio de polarização política, deixando tudo, para uns, extremamente amargo e, para outros, insuportavelmente doce. Um prato fundo cheio de informações falsas temperadas com ataques às instituições democráticas. Várias xícaras de promessas não cumpridas.
E uma boa dose de dificuldade para as pessoas perceberem melhora concreta na vida, apesar de os indicadores econômicos apontarem alguns resultados positivos.
Para neutralizar os efeitos colaterais desse bolo meio abatumado, é preciso fazer a cidadania entender que o cardápio político é amplo e é ele que garante a boa saúde da democracia.
Já, já começa a campanha. Os candidatos estarão nas nossas vidas nos intervalos do telejornal, da novela, no rádio do carro, nos debates. E, neste ano de tanta desconfiança, mais do que pedir voto, eles têm que nos fazer acreditar, de novo, na política.
As campanhas, os marqueteiros políticos, têm um desafio a mais: além de serem instrumento de persuasão, terão que funcionar como ferramenta de reconstrução da confiança.
E esse resgate da confiança não é fácil. A eleitora, o eleitor, querem mais do que promessas, do velho e surrado “confia em mim”… O pessoal precisa de evidências, precisa ver razões claras para voar em determinado candidato, em determinada legenda.
Acabou o tempo do eleitor ouvinte.
Hoje, o eleitor quer ser ouvido e tem instrumentos para se fazer ouvir. E pode neutralizar tudo o que diz um candidato, o que promete um partido. O discurso fácil da promessa salvadora é facilmente desmentido, desmontado e viralizado por todo eleitor mais atento e até pelo desatento influenciado por outro mais atento que queira ajudar ou prejudicar alguém… Todos esses instrumentos, as inovações tecnológicas postas a serviço do eleitorado – para o bem e para o mal – obrigam os candidatos a ir além das formalidades da campanha no rádio e na TV.
Este ano, quem tem pretensões de ocupar um cargo no executivo, uma cadeira em Assembleia Legislativa, no Congresso Nacional, precisa estar preparado para interagir com o povo em consultas públicas digitais, em encontros presenciais, nas plataformas colaborativas, em todos esses canais efetivos de participação.
Nessa interação, terá sucesso quem mostrar que, mais que problema, política é solução. Será a reafirmação do óbito:
A qualidade do transporte público, a boa, e com vaga para todos, escola pública, o posto de saúde com médico e remédio, a segurança pública… tudo é resultado de decisões políticas.
E a eleição deste ano, para além da disputa entre direita e esquerda, mais do que o confronto entre um tri eleito e um filho do único presidente que não conseguiu se reeleger, também é uma disputa entre confiança e desconfiança. Tomara que a confiança vença. A confiança na política. Na boa política.
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