
Um em cada quatro brasileiros que faltaram às eleições em 2022 tinha mais de 70 anos. Seguindo essa projeção, dez milhões de eleitores com mais de 70 anos vão faltar às eleições de 2026. Um número bastante significativo em mais uma eleição que se prevê apertada, como a de 2022, que foi decidida por apenas dois milhões de pessoas. Por isso, aquele pensamento de que “meu voto não vale nada” cai por terra. Todo voto importará, particularmente o da pessoa com mais de 60, o grupo que mais cresce no país.
Conforme dados do estudo do Instituto de Pesquisa Nexus sobre o eleitorado 60+, que analisa o impacto desse grupo populacional sobre as eleições deste ano, são 17,2 milhões de brasileiros com 70 anos ou mais aptos a votar em outubro, cerca de 11% do eleitorado, e é um grupo que cresceu 15% desde 2022, enquanto o eleitorado brasileiro inteiro crescia 1,5%.
O idadismo na percepção sobre o voto
A explicação idadista (ou etarista ou ageísta) é a de que a pessoa mais velha não se interessa por política, mas os dados dizem o contrário com folga. Na faixa de 60 a 69 anos, em que o voto ainda é obrigatório, o comparecimento em 2022 foi de 85,7%, o mais alto do país e bem acima da média nacional de 79,1%. A partir dos 70, quando o voto vira facultativo, o comparecimento desaba para 41,1%. Estamos tratando com a mesma pessoa, alguns anos depois, com a mesma opinião política. Quando perguntado a elas, o interesse é ainda maior. Na pesquisa, 60% dos eleitores com mais de 60 anos se declararam muito interessados nas eleições, contra 45% na faixa de 16 a 24 anos e 43% na de 25 a 40, o que faz deles o grupo etário mais interessado do Brasil. Mas ainda assim, votam menos. Por quê?
O percentual de abstenção dos maiores de 60 anos também diminuiu nas últimas três eleições: eram 37,1% em 2014, 36,4% em 2018 e chegou a 34,5% em 2022. No mesmo período, as abstenções do eleitorado brasileiro em geral aumentaram residualmente de 19,4% em 2014 para 20,3% em 2018 e 20,9% no último pleito nacional.
Quem é a Geração 60+ de eleitores
As regiões Sul e Sudeste se consolidam como principais polos de protagonismo da Geração 60+ nas eleições. Em todos os estados dessas regiões, no mínimo, 23% da base de votantes poderão ser compostos por pessoas desse grupo nas eleições de outubro. O Rio Grande do Sul lidera o ranking nacional com 29,3%, seguido por Rio de Janeiro (28%) e Minas Gerais (26%).
Nos três maiores colégios eleitorais do país, um em cada quatro possíveis eleitores já faz parte da Geração 60+. Em São Paulo, eles representam 25% do eleitorado; em Minas Gerais, 26%; e no Rio de Janeiro, 28%. Somando apenas esses três estados, o número de eleitores de 60 anos ou mais chega a 16 milhões.
Entre 2010 e 2026, os maiores avanços reais na proporção dos 60+ aptos a votar ocorreram no Rio Grande do Sul (+11,2 p.p.), no Espírito Santo (+10,2 p.p.) e em Minas Gerais (+9,8 p.p.). Rio de Janeiro (+9,5 p.p.), São Paulo (+9,1 p.p.) e Santa Catarina (+9,1 p.p.) aparecem na sequência, indicando que a porcentagem aumenta em alguns dos maiores colégios eleitorais do país.
A feminização do voto
Porque as mulheres são maioria da população e vivem, em média, seis anos a mais do que os homens, há um fenômeno de feminização da velhice. Porém, mulheres com mais de 70 anos comparecem cerca de 10 pontos menos que homens da mesma idade, mesmo sendo a maioria do grupo. Elas são 57% dos eleitores de 70 e mais, 62% dos de 80+ e 67% dos 90+. Isso é estranho, porque em todas as outras faixas etárias as mulheres comparecem ao voto mais que os homens, e a inversão acontece só ali. Quando você olha como essas mulheres vivem, esse dado para de ser estranho. Segundo a PNAD Contínua de 2025, 15,6 milhões de brasileiros moram sozinhos, 41,2% delas têm 60+. Entre essas pessoas, 56,5% são mulheres, chegando a 59% no Sul e no Sudeste, o que dá, por estimativa a partir desses percentuais, algo perto de 3,6 milhões de mulheres com mais de 60 anos morando sozinhas no Brasil. Elas também não pararam de trabalhar. Segundo a PNAD de 2022, mulheres com mais de 60 anos gastam 18,9 horas por semana em afazeres domésticos e cuidado de outras pessoas, contra 10,4 horas dos homens da mesma idade, de modo que a desigualdade doméstica não se dissolve com a idade, ela só fica ainda mais invisível.
E tem um estudo da PUC-PR, divulgado em março deste ano, sobre quem cuida das pessoas idosas no Brasil: 90% são mulheres, 68% são filhas, 61% pararam de trabalhar para cuidar em tempo integral, e 37% já têm mais de 60 anos. Uma parte grande das mulheres idosas do Brasil está cuidando de outra pessoa idosa, de graça, mais de mil horas por ano.
Junte tudo e você tem o retrato desta mulher que não está conseguindo ir votar após os 70 anos: mora sozinha ou cuida sozinha de alguém, que sente solidão, que não tem dinheiro sobrando para um táxi, que tem pouca gente por perto para levá-la. O que falta a ela é companhia, e por isso esse trabalho é muito mais de presença do que de convencimento.
Direitos do eleitorado 60+
O Manual do Eleitor do Tribunal Superior Eleitoral reúne uma série de direitos voltados às pessoas idosas, especialmente aquelas que também apresentam deficiência ou mobilidade reduzida.
Como funciona a prioridade na seção eleitoral
As filas são organizadas seguindo uma ordem de preferência estabelecida pela Justiça Eleitoral. A prioridade é dada, nesta ordem, a pessoas com mais de 80 anos, pessoas com transtorno do espectro autista, pessoas com deficiência, pessoas idosas, gestantes, pessoas cegas, pessoas com criança de colo, pessoas obesas e doadoras de sangue.
Ela ressalta que os eleitores com mais de 80 anos têm preferência sobre os demais, independentemente do momento em que chegarem à seção eleitoral. A presidência da mesa também pode adotar medidas adicionais para organizar a fila e garantir a tranquilidade do processo de votação.
Sem desculpa para não ir
Além da prioridade assegurada à pessoa idosa, a legislação prevê outras garantias para eleitores com deficiência ou mobilidade reduzida:
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Possibilidade de ser auxiliado por pessoa de sua escolha durante a votação;
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Permissão para que a pessoa escolhida acompanhe o eleitor até a cabine e, quando necessário, até mesmo digite os números na urna;
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Direito ao uso de tecnologias assistivas e recursos de acessibilidade; e
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Programa chamado Seu Voto Importa, criado pela Resolução 23.753, que organiza transporte de ida e volta entre a casa e a seção eleitoral para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, e a resolução inclui expressamente a pessoa idosa. O transporte cobre também o acompanhante, quando o apoio for indispensável. O pedido pode ser feito pelo próprio eleitor, por curador, por apoiador ou por representante legal, presencialmente no cartório eleitoral ou pelos canais remotos do TRE do estado, por autodeclaração, e o prazo é 20 dias antes da eleição, ou seja, por volta de 14 de setembro.
Sobre passe livre no dia da eleição, em 2024 mais de vinte capitais aderiram, então é provável que venham outras, mas depende do poder executivo municipal. Até agora, a cidade do Rio de Janeiro decretou gratuidade em ônibus, BRT, VLT e vans nos dias 4 e 25 de outubro, das 6h às 20h, e a Região Metropolitana do Recife também anunciou. Em Porto Alegre, foi aprovada pela Câmara de Vereadores, em 13 de outubro de 2022, uma lei municipal regulamentando o passe livre para os dias de eleições majoritárias e proporcionais em níveis federal, estadual e municipal.
A escolha
Quando for votar, busque saber o que os candidatos apresentam em seus programas sobre a Previdência Social, atualização do salário mínimo, farmácia popular, formação, trabalho e educação para pessoas 60+, entre outros temas que tratam do seu presente e seu futuro como pessoa mais velha.
O momento tá de mal a pior
O momento é crítico e difícil no contexto político atual. E justamente por causa disso acredito que a participação pelo voto se torna ainda mais importante.
Culpar a classe política pelas mazelas da sociedade, chamar todos de ladrão, mas abster-se de votar, sem nenhuma participação ou tentativa de mudança, isolando-se das decisões neste momento que vivemos, nos torna cúmplices.
Votando, como os dados acima mostram, é real a possibilidade de os 60+ fazerem a diferença, pensando em seus interesses e no bem coletivo.
Com o voto, o que se ganha é a possibilidade de mudança, mesmo correndo o risco de soar piegas, a satisfação pelo exercício da cidadania nesta que ainda é a melhor forma de escolhermos nossos governantes.