
Há alguns anos, a professora Maria Luiza Maciel defendeu uma tese de doutorado (Educação, UFPE) cujo conteúdo não posso deixar de comentar para um público maior do que aquele que frequenta… defesas de tese! O tema da tese versava sobre a relação entre os sistemas de avaliação de desempenho escolar na rede municipal de Recife, o adoecimento dos professores (conhecido como Síndrome de Burnout) e os resultados alcançados pelo IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e aponta para algo que alguns poderiam chamar de “irracionalidade sistêmica”, outros de “efeitos perversos”, outros simplesmente de “contrassenso”. Explico.
A chamada Síndrome de Burnout, cujo estudo foi desenvolvido por professores americanos, aponta para o adoecimento físico e psicológico, no caso, dos professores: uma profissão que, ao lado da dos médicos e policiais, produz níveis altíssimos de estresse, de desinteresse profissional, baixa estima, pouca realização, depressão crônica, absenteísmo e, o que mais me chamou a atenção, o fenômeno chamado de “presentismo”: professores que comparecem a sua sala de aula apenas, digamos, em corpo, porque o “espírito” já desencarnou há muito tempo! Profissionais que continuam na profissão pela simples impossibilidade, real ou imaginária, de mudar de ramo. Os resultados escolares das crianças sofrem diretamente os efeitos desta “Síndrome”. Luiza relaciona tais fracassos, humanos e escolares, com as atuais condições de trabalho impostas pelas exigências de produtividade, competitividade, individualismo, empreendedorismo… e todas estas etiquetas que, em geral, nós associamos às condições de trabalho no pós-liberalismo (isto que chamamos de neoliberalismo não é um “novo” liberalismo, liberalismo repaginado ou radicalizado: é outra coisa!).
Em 1998, o presidente da France Telecom, empresa francesa de telecomunicações, foi chamado à Assembleia Nacional para prestar esclarecimentos sobre o número absurdo de suicídios cometidos pelos seus funcionários dentro e fora da empresa, funcionários agora submetidos a padrões de avaliação baseados em metas, monitoramentos, punições, bonificações, resultados e… (repito) todas essas etiquetas que, em geral, nós podemos associar ao projeto mais geral de tornar o homem uma entidade supérflua! O tal presidente simplesmente alegou – não sei se cínica ou convictamente – que tais suicidas não estavam preparados para as novas exigências do mercado globalizado. Azar o deles!
Penso que o trabalho da Professora Luiza, entre outras qualidades, aponta para um paradoxo. Por volta de 1927, o físico Werner Heisenberg anunciou seu célebre Princípio de Incerteza (que provocou a fúria de Einstein!) que dizia que, para localizar uma partícula subatômica em sua órbita em torno do núcleo, era necessário lançar um feixe de fóton em sua direção. No entanto, o próprio feixe terminava por desviar ou modificar a trajetória (efeito Compton), o que era algo inconcebível para a física clássica: a impossibilidade de prever os resultados de um fenômeno, mesmo detendo ampla consciência de suas causas. A própria metodologia podia alterar o resultado!
A tese de Luiza aponta para algo semelhante: a pressão exercida pela gestão para que os “resultados do IDEB apareçam” provoca um tão elevado nível de estresse entre os professores que termina por refletir diretamente na qualidade do que eles fazem e, por consequência, no desempenho dos alunos. Eu chamaria isto de “efeito iatrogênico”: é o remédio que mata o paciente!
Gostaria imensamente de saber o que nossos dirigentes educacionais têm a dizer sobre o assunto.