
No começo, Boris não podia ir à rua. Faltava-lhe imunidade canina para enfrentar os bichos invisíveis. Foi preciso esperar um mês inteiro, conforme o protocolo, e cinco semanas, conforme o exagero dos cuidados de seus tutores. Finalmente, ele estava pronto para ver o mundo. E, quando o viu, não sabia para onde olhar. Pediu ajuda, como Santiago Kovadloff para o pai, ao ver o mar pela primeira vez, no livro de Eduardo Galeano.
Fora do livro, na rua mesmo, eu ajudei. Mesmo que o seu vocabulário auditivo fosse ainda pequeno (depois cresceria), eu ajudei muito. Esta é a árvore, Boris. Este é o poste. Ali a padaria, aqui a mercearia, entre as duas o meio da rua, onde é preciso prestar atenção, e passar rápido. Mostrei até o céu e o sol, de que gostou menos do que a moita. Ele olhava extasiado, e tudo era uma epifania para ele. Via as coisas, os bichos, as gentes, os insetos e depois me olhava pedindo sentido.
Eu dava, porque os tinha e, quando não tinha, inventava. Ele aceitava todos. Depois, veio nova metamorfose, e ele já não precisava de ajuda para ver as coisas. Deslocava-se com agilidade, de moita em moita, descobrindo seus próprios fascínios e necessidades: em primeiro lugar, o xixi dos outros cachorros e sobretudo os outros cachorros, os únicos capazes de lhe fazer parar, dar uma cheirada e retomar a ânsia de viver. Em termos, pois, mesmo parado, ficava abanando o rabo e não sossegava, enquanto não cheirasse o rabo alheio. Ágil, não aceitava pausas.
Mas, agora, uma nova mudança chegou. Ela coincidiu com a brancura do focinho e um andar mais lento. Vieram tempos de mais tempo a perder, sem pressa de atravessá-los. São tempos de madureza. Boris para no meio do caminho e se deita sobre a pedra. Pode ser para um descanso de suas patas já meio cansadas, mas o que mais faz, nessas horas, é contemplar. Até o sol e o céu ele contempla. E olha com prazer cada coisa parada ou que se move como se quisesse, para além da fruição enorme do momento, guardar tudo na memória para futuras mudanças de que sequer tem consciência.