
Em 1979, o filósofo marxista francês Roger Garaudy publicou um importante livro, intitulado “Apelo aos Vivos”. A obra trazia como subtítulo a expressão “O Mundo num Beco sem Saída”. Nela, o autor elabora uma crítica estarrecedora dos caminhos assumidos à época, caracterizada por crises extremas e uma estatura ética insustentável. O filósofo percebe que a civilização ocidental colocou o mundo num beco sem saída por conta do descaso com o ambiente e da exploração ilimitada dos recursos naturais. Assim, divulga o autor, encaramos uma crise planetária sem precedentes com múltiplas facetas: hídrica, ambiental, econômica, social e energética. Para o francês, a imitação servil de culturas dominantes conduziu a uma sociedade alienada e sem identidade própria.
Quase cinquenta anos após o alerta de Garaudy, deparamo-nos com um planeta agonizando em situação de extremo adoecimento. Apesar das decantadas conquistas alcançadas pelas ciências e tecnologias, mesmo com tantos movimentos sociais e ambientalistas, enfrentamos uma tripla crise planetária: mudanças climáticas aceleradas — superando a era pré-industrial —, perda de biodiversidade e poluição generalizada.
Recentemente tive a oportunidade de ler um breve texto elaborado a partir de conversas e live de Ailton Krenak e publicado no livro “A vida não é útil”. No último ensaio, que oferece o título do livro, o líder indígena, membro da Academia Brasileira de Letras, discorre acerca dos desafios que hodiernamente enfrentamos em razão da erosão da vida. Para Krenak, é até possível adiar o fim desse beco sem saída, noticiado pelo comunista; mas, infelizmente, caminhamos mesmo é para o “fim do mundo”, pois, “se continuarmos comendo o planeta, vamos todos sobreviver por só mais um dia”.
O ensaio formula uma crítica à obsessão humana pela produtividade, consumo desenfreado e destruição ambiental, especialmente após a pandemia. Por isso, defende uma reconexão com a natureza e sabedoria ancestral, propondo que a vida deve ser desfrutada, não servindo apenas ao lucro ou a um propósito utilitário. A questão é que nos entregamos ao império do ter, transformando nossas vidas e planeta em meros recursos a serem consumidos. “A proposta de desacelerar nosso uso de recursos naturais pode sugerir a ideia de adiar o fim do mundo”, sugere.
Krenak insiste que estamos destruindo lentamente o mundo, pois o transformamos em mercadoria e educamos nossas crianças e jovens com base nessa premissa de produção. Esse pressuposto se manifesta no uso indevido e descontrolado dos recursos naturais, assim como no consumo, que é idealizado e canonizado pela nossa cultura, colocando o ter acima do ser. “Para além da ideia de ‘eu sou a natureza’, a consciência de estar vivo deveria nos atravessar de modo que fôssemos capazes de sentir que o rio, a floresta, o vento, as nuvens são nosso espelho na vida”. Contudo, emudecemos, permitindo vigorar pseudovalores que propiciam a destruição dos recursos que a natureza nos oferece.
Os modelos escolares hegemônicos cerceiam a liberdade de pensamento, ensinando a reproduzir esse estado de coisas desiguais e injustas. A educação, protesta o líder da Academia, é uma fábrica de loucura que prepara os consumidores do planeta. Ela está manipulada como dispositivo de reprodução e, dessa forma, não nos ajuda a um pensar crítico, propositivo, fora dos ditames existentes: “Enquanto as bases materiais da nossa vida cotidiana estão funcionando, operantes, a gente não se pergunta de onde vem o que consumimos”. Não se trata de negar os paradigmas ecológicos, mas de distinguir entre sua potência crítico-emancipatória e sua captura funcional pelo mesmo regime de racionalidade que os torna necessários. Entretanto, convertidos em metodologia de gestão da dominação, no máximo, nos tornam melhores consumidores. Forma-nos para disseminar ideias que apenas postergam o eclipse total: paradigmas como sustentabilidade, ecocentrismo, agroecologia, ecosofia etc. Parece inevitável denunciar a racionalidade predatória do capitalismo contemporâneo. Mesmo que não se possa ignorar a emergência de possibilidades alternativas que se estruturam a partir de estudos, militância e engenharia social. Essas possibilidades são apoiadas no clamor do planeta e das classes populares, buscando recolocar a questão do ser.
Na proposição de que a vida é fruição, uma dança cósmica, Krenak nos provoca a pensarmos sobre o inutensílio dela em razão de não possuir qualquer utilidade. O autor nos fala que “estamos, em nossa relação com a vida, como um peixinho num imenso oceano, em maravilhosa fruição. Nunca vai ocorrer a um peixinho que o oceano tem que ser útil; o oceano é a vida. Mas nós somos o tempo inteiro cobrados a fazer coisas úteis”. Porém, a vida não precisa de uma “utilidade” ou finalidade produtiva para ter valor; ela deve ser celebrada e vivida, não apenas consumida ou gerida.
Analisando a questão do fim do mundo e da inutilidade da vida, o autor advoga que os povos indígenas, com suas visões de mundo baseadas na convivência harmônica com a natureza e laços comunitários, oferecem uma alternativa à crise civilizatória.
No horizonte da crítica contemporânea, a crise civilizatória designa não apenas um conjunto de colapsos ambientais, econômicos e sociais, mas a exaustão do próprio paradigma moderno de racionalidade, fundado na expansão ilimitada, na separação entre sujeito e mundo e na subordinação da vida aos imperativos da produção; nesse contexto, a utilidade deixa de ser uma categoria meramente pragmática para assumir estatuto ontológico, tornando-se o critério dominante pelo qual seres, relações e saberes passam a valer apenas na medida em que servem a fins instrumentais, como já denunciavam Theodor Adorno e Max Horkheimer ao problematizarem a racionalidade instrumental. A natureza, por sua vez, precisa ser compreendida para além do objeto externo disponível ao domínio humano. Ela é pensada como campo relacional de co-pertença e condição de possibilidade da existência, em sintonia com perspectivas ameríndias e ecosóficas, como as de Ailton Krenak e Félix Guattari. O consumo, nessa chave, não se reduz ao ato econômico de aquisição de bens, mas expressa um modo de subjetivação em que o desejo é capturado pela lógica mercantil, convertendo identidades, afetos e até o tempo em mercadorias circuláveis. Por fim, a liberdade de pensamento deve ser entendida não como simples faculdade individual de opinar. Ela deve ser vista como potência formativa de problematizar o instituído, suspender consensos e criar novas formas de inteligibilidade do mundo. Essa é uma condição indispensável para uma educação filosófica comprometida com a autonomia e com a resistência às formas hegemônicas de adaptação ao colapso.
No ensaio “Não se come dinheiro”, Krenak, anunciando que “Drummond é meu escudo”, “um daqueles paraquedas coloridos”, socializa seu poema “O homem; as viagens”.
Restam outros sistemas fora
do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
Colonizar.
civilizar
humanizar
o homem descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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