
Desde alguns anos venho confabulando com amigos que a Universidade Pública perdeu a condição de formação política das novas gerações. Não obstante, saiba que essa carga de responsabilidade não deve pesar única e exclusivamente em cima das instituições de ensino superior. Sempre estranhei a falta de projetos de formação de lideranças em seu âmbito, tanto no que tange à educação do alunado quanto ao alcance extensionista das juventudes empobrecidas. Eventos que foram marcantes nas décadas de 60 e 70 simplesmente deixaram de ser promovidos, muitos dos quais por motivações bastante equivocadas. Na verdade, observamos o abandono ou o enfraquecimento de experiências importantes de abrir espaços de participação política das juventudes.
A afirmação de que a universidade pública perdeu sua condição de agência de formação política das novas gerações exige algumas distinções. É preciso reconhecer, inicialmente, o enfraquecimento de determinadas experiências históricas de mobilização estudantil, que desempenharam papel importante na resistência à ditadura, na redemocratização do país e na defesa de direitos sociais. Isso, entretanto, não significa necessariamente o desaparecimento da participação política juvenil, uma vez que suas formas de organização, mobilização e intervenção pública também se transformaram ao longo do tempo. O problema talvez resida menos na ausência de interesse político das novas gerações do que na insuficiência das instituições educacionais em reconhecer essas transformações. Elas devem criar espaços permanentes de formação democrática, nos quais estudantes possam exercitar o debate público, a autonomia intelectual, a organização coletiva e a participação crítica na vida social. Assim, mais do que lamentar o declínio de experiências passadas, cabe perguntar em que medida a universidade pública tem sido capaz de acolher as novas formas de participação juvenil e contribuir para a formação de sujeitos comprometidos com a construção democrática da sociedade.
Necessário ressaltarmos que a formação política que cabe à instituição de educação superior não se reduz à de lideranças políticas, embora essa seja uma atividade essencial. Trata-se de assumir mais claramente o compromisso com a democracia, favorecendo o debate público, o pluralismo, a autonomia intelectual e a capacidade de contestação, inclusive das forças políticas com as quais seus integrantes eventualmente se identifiquem. Observo que a formação política não consiste em transmitir uma concepção previamente estabelecida de sociedade, mas em criar condições para o exercício do julgamento, da argumentação, da participação e da responsabilidade pública.
No governo Bolsonaro, não era raro que autoridades do mais alto escalão atribuíssem críticas muito negativas ao conjunto do corpo social das universidades, notadamente das públicas. Herdamos da ditadura um ranço péssimo no que se refere às juventudes e às instituições de ensino comprometidas com a produção e disseminação de conhecimento crítico, que visa a colaborar na formação de pessoas criativas, proativas e cidadãs. O conhecimento virou inimigo número um dos governos de força, as juventudes, idem.
Na educação básica e superior, articular e mobilizar estudantes desde mirantes de enfrentamentos a questões sociais jamais foi prioridade. Grêmios escolares, centros e diretórios acadêmicos, organizações diversas podem, às vezes, ser visualizados como inimigos. O usufruto dos bens culturais que poderiam e deveriam ser acessados pelos caminhos da escola pública foi negado, ou, quando não, dificultado.
A educação foi, durante um período significativo de nossa história, um grande investimento das famílias enriquecidas. Empobrecidos egressos da escola pública acessavam o ensino superior em instituições privadas com o ônus de terem que trabalhar para arcar com o seu pagamento. Famílias com renda suficiente para bancar o alto custo de instituições privadas ganhavam o bônus de um estudo gratuito em universidades e instituições públicas, onde se aplicavam aos cursos “nobres”, um privilégio delas. Na verdade, a tal da escola gratuita foi sempre uma lenda urbana. Pois o que ocorria de fato é que toda a sociedade, do mais simples trabalhador ao executivo de classe média, arcávamos com o pagamento de uma carga pesada de tributos para o funcionamento de todo o sistema público. Ou seja, os empobrecidos pagávamos os estudos dos ricos em escolas nas quais eles não conseguiam estudar. Entretanto, compreendo que a gratuidade é uma condição importante da democratização do ensino superior, mas não elimina as desigualdades sociais que antecedem o ingresso nem as dificuldades que comprometem a permanência dos estudantes. Por isso, programas de financiamento que foram aparecendo já no período da redemocratização parecem ter carecido de efetividade.
Trabalhar para socializar e produzir cultura e educação revelou-se uma estratégia perigosa aos olhos dos donos do capital. Refletir, pensar, mobilizando os argumentos da crítica social, conduzir-se às consequências de resistência e luta da crítica social representa perigo diante daqueles que buscam manter privilégios e concentrar rendas. As juventudes são manipuladas para que ignorem a vida política e tenham dela a pior concepção possível. O que se espera é que não escutem, não discutam, não participem dos acontecimentos políticos, demonstrando total desconexão com seus cotidianos. Brecht (1931) se referiu a tais atitudes como sendo de analfabetismo político. Pondera que este não “sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo”.
Paulo Freire e Jorge Larrosa propõem uma profunda reflexão sobre como o conhecimento e a ignorância operam nas dinâmicas de poder e educação. Freire (1987) sugere a presença de um esvaziamento crítico interiorizado no âmago do analfabeto político. Desta forma, a ignorância resulta de um processo social e político de silenciamento. O chamado analfabeto político, em termos freireanos, é aquele cuja leitura do mundo foi interditada pela ideologia dominante.
Jorge Larrosa (2002) introduz uma virada epistemológica crucial por meio do conceito de experiência. Postula que a experiência não é o que acontece no mundo exterior, mas aquilo que nos acontece, que nos toca, nos atravessa e nos transforma. Diante do bombardeio contemporâneo de informações, opiniões e dogmas políticos, o sujeito corre o risco de saber muito, mas não experimentar nada. O verdadeiro ignorante político, na perspectiva de uma filosofia da experiência, não é aquele que desconhece os mecanismos institucionais ou os partidos, mas aquele que é impermeável aos acontecimentos do mundo.
As novas gerações são fundamentais para a mudança do mundo, para a instauração do novo na vida. Assegurar sua educação e letramento político é garantir a renovação, a mudança, a construção de uma vida sempre melhor. Negá-la é interditar sua própria vida, a inquietação, o dinamismo, suas potencialidades.
É bem verdade, a juventude não se furtou à participação popular sempre que acionada. Foi assim na resistência à ditadura militar, na luta pelas Diretas Já, no processo de redemocratização do país, no Movimento Caras-pintadas, no Movimento Ocupa-escola, etc. Nos últimos dias temos sido premiados com seu retorno às ruas, numa clara reação à candidatura fascista do F01 dos Bolsonaros.
A educação é um direito da cidadania, e o governante que observe e garanta tal dever jamais fará qualquer favor ao cidadão. Estará exclusivamente cumprindo o seu dever. Ocorre que somente com a chegada do torneiro mecânico Luiz Inácio Lula da Silva ao governo do Brasil é que as gerações mais jovens experimentaram acessar a educação superior pública. Programas de interiorização, de reestruturação da rede universitária, de criação de Institutos Federais (inicialmente, um inteligente redimensionamento das antigas Escolas Técnicas e posteriores CEFETs). Além disso, inúmeros concursos docentes em todas as áreas do conhecimento, transferência de tecnologia para escolas e institutos de pesquisa, editais de fomento e de iniciação à pesquisa, de iniciação à docência, de políticas de manutenção com bolsa de permanência, construção e incremento de restaurantes universitários e casas estudantis. São algumas iniciativas, programas e projetos que contemplam a melhoria da educação superior pública brasileira e o aumento do acesso, dando oportunidade a milhares de pessoas de usufruírem de uma educação de qualidade. Um aspecto importante a ser ressaltado da política de expansão das universidades e dos Institutos Federais é a distribuição territorial das oportunidades educacionais, pois retira das capitais o privilégio de oferta quase exclusiva da educação superior.
Quando focamos a educação básica, não há como não mencionar uma infinidade de iniciativas exitosas do atual governo, que vai desde o Programa Nacional do Livro Didático à ampliação do acervo da plataforma MEC Livros e inclusão de novos idiomas no MEC Idiomas. Além disso, houve a ampliação da jornada escolar para pelo menos sete horas diárias ou 35 horas semanais em todas as etapas da educação básica. Isso foi feito juntamente com o Programa Pé-de-Meia e o novo Plano Nacional da Educação, que define metas políticas focadas em creches, alfabetização na idade certa e redução de desigualdades. Políticas de formação de professores, como a manutenção e aplicação da medida de reajuste do piso salarial dos professores (atualizado pela Lei nº 15.437/2026). Os diversos programas de mestrados e doutorados profissionais, devidamente fomentados e credenciados pela CAPES.
A democratização do ensino superior depende, em parte, da qualidade e da equidade da educação básica. Da mesma forma, a expansão das universidades e dos Institutos Federais pode contribuir para a formação de professores, a produção científica e a melhoria das condições educacionais nos territórios em que essas instituições atuam.
Parece importante rememorar para meu amigo, minha amiga leitora, tantas iniciativas, porque se aproxima o dia em que estaremos convocados a eleger em segundo turno nosso Presidente da República. Como sou apaixonado pela minha profissão, sou educador por convicção e quis abordar o campo da educação. Eu o escolhi, não no sentido de consagrar o passado e suplicar uma foto de premiação para o candidato Lula. Estou mirando o futuro a ser construído, postulando que as experiências vividas dão segurança para novas conquistas. Pretendo assinalar que o voto em alguém sem experiência e compromisso, sem a responsabilidade com nossa gente, compromete todas as alternativas de consolidarmos conquistas e permanecermos avançando.
Um critério seguro para a escolha do voto do meu amigo talvez seja a comparação. Comparar as propostas dos dois candidatos. Analisar detalhadamente o que fez o Bolsonaro presidiário quando Presidente da República e o quanto tem realizado o governo Lula. Infelizmente não há indicadores que possam levar a uma comparação entre Lula e o F01, porque ele não fez nada de significativo, a não ser manter-se patrocinado em cargos públicos.