
Quando criança, diante de mudanças bruscas de comportamento social ou de fatos inusitados e, por vezes, assustadores ou sem explicações plausíveis e imediatas, eu ouvia alertas sobre o fim do mundo.
Algumas vezes me aterrorizava e temia o tão proclamado apocalipse. Todavia, na maioria das vezes, tudo não passava de histeria coletiva ou de expressões claras de resistências pessoais ou coletivas. Aliás, a expressão “é o fim dos tempos” tornou-se popular e, no senso comum, transformou-se em sinônimo de desgosto frente às transformações sociais.
Quando foi promulgada a Lei do Divórcio no Brasil, em 1977, por exemplo, muitos gritaram: “é o fim do mundo!”. A contrariedade de parte da população também ganhou coro um ano depois, quando foi anunciado o marco histórico na medicina com a fertilização in vitro. Em 25 de julho de 1978, na Inglaterra, nasceu o primeiro “bebê de proveta” — técnica que somente chegou ao Brasil seis anos depois. Talvez porque o país vivesse à época nos confins do mundo.
Em 1979, o pânico tomou conta do mundo devido à queda da estação espacial Skylab, prevista para o início de julho. A semana anterior foi palco de especulações em todo o globo, provocando medo, já que a Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço — NASA — não conseguiu prever com precisão o local da queda dos destroços, que somavam mais de 82 toneladas.
No dia 13 de maio de 1980, o “fim do mundo” ocorreria por meio de um dilúvio, derivado de 120 dias de chuvas ininterruptas, período em que seria possível observar o sol girando e uma grande bola de fogo vindo dos céus. A profecia, feita ainda em 1978 por uma adolescente da seita religiosa conhecida como “Borboletas Azuis”, terminou com o desaparecimento do líder religioso paraibano Roldão Mangueira, comerciante de algodão e católico fervoroso — boatos e rumores da época apontaram para uma internação em clínica psiquiátrica.
Ainda no campo das profecias, destaca-se uma atribuída a Chico Xavier, sugerindo que, após a chegada do homem à Lua — fato histórico datado de 1969 —, o mundo teria 50 anos para evitar a terceira guerra mundial e evoluir como humanidade. O fracasso desencadearia catástrofes naturais entre os anos de 2019 e 2025, resultando em uma “limpeza” planetária. Ou seja, eu estava no terceiro ano de vida e já era ameaçado por predições de um futuro caótico.
O final de 1999 foi outro momento carregado de superstições. A “profecia da virada do milênio” provocou medo generalizado, alimentado por teorias apocalípticas que cercaram a transição para os anos 2000. O réveillon foi marcado por um misto de tensão, pavor, curiosidade e crenças de que o mundo acabaria naquele exato momento. Eu morreria com um ano a mais que Cristo. Mas, ao contrário, nunca me diverti tanto em uma festa realizada dentro de um túnel.
Mais recentemente, em julho de 2025, a partir do supertelescópio ATLAS, localizado no Chile, foi avistado, pela primeira vez, o terceiro objeto interestelar a visitar o nosso Sistema Solar. O mundo voltou os olhos aos céus e temeu uma possível invasão alienígena. Eu mesmo fui um dos que acompanharam toda a trajetória do objeto e até torci para que realmente se tratasse de uma nave.
Brincadeiras à parte, o fato é que, desde a Segunda Guerra Mundial, após os Estados Unidos lançarem as bombas atômicas — “Little Boy”, em Hiroshima, e “Fat Man”, em Nagasaki —, nos dias 6 e 9 de agosto de 1945, matando mais de 200 mil pessoas de forma instantânea devido à radiação, o fim do mundo nunca pareceu tão possível e próximo.
A guerra iniciada em 2022, após a invasão da Rússia sobre territórios da Ucrânia; o conflito em Gaza, promovido por Israel, iniciado em outubro de 2023, após atentado terrorista; a captura de Nicolás Maduro, ex-presidente da Venezuela, pelos Estados Unidos, em janeiro de 2026; e, agora, os ataques promovidos pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã são exemplos claros do quanto estamos vulneráveis e à beira de um colapso civilizatório.
Vivemos acuados, amedrontados e subjugados por superpotências sustentadas por um poderio bélico capaz de exterminar grande parte da vida no planeta em frações de segundos. Saímos das profecias para previsões catastróficas e reais, produzidas por disputas geopolíticas que envolvem, sobretudo, influência regional, controle de recursos estratégicos e segurança nacional — sendo esta última a justificativa recorrente para a corrida armamentista de base nuclear. Ou seja, o argumento insano instaurado mundialmente pauta-se no princípio do “atacar antes de ser atacado”.
Nesse jogo, a ameaça torna-se a principal arma de guerra. A vida é o que menos importa. Perde sentido diante do desejo pelo poder, pelo qual se invade, domina, subjuga, violenta e naturaliza a matança de milhares de pessoas inocentes, inclusive crianças. Dessa forma, os detentores do poder decidem quem vive e quem morre. Aos que sobrevivem, restam apenas a obediência, a submissão e a opressão, além do apagamento de suas identidades, culturas e liberdade.
Retrocedemos à era do imperialismo — disfarçado de intervencionismo e pacificação —, em que o mais forte se sobrepõe, sem princípios, aos mais frágeis. Isso nos revela que pouco mudamos, pois o mundo gira, e sempre girou, sob uma lógica colonialista. Penso, então, que, em uma eventual guerra atômica, a velha práxis se repetirá: os donos do poder – ou melhor, do mundo – se refugiarão em bunkers projetados para longas permanências e proteção contra possíveis explosões e radiações, enquanto a maior parte da população – que os colocou no poder – padecerá e morrerá desamparada.
Ou seja, a burguesia sobreviverá como tatus, enterrados em abrigos subterrâneos, e, após anos, retornará à superfície como baratas ou ratazanas, dispostas a contaminar o mundo com a manutenção de um sistema no qual os menos privilegiados servem aos seus senhores.
A crise estrutural do capitalismo global, evidenciada pela concorrência entre superpotências econômicas — cada vez mais bélicas e mortais, como escorpiões e salamandras do deserto —, produz guerras e conflitos militares, diretos ou “por procuração”, para redefinir a ordem mundial — ordem esta que sempre girou em torno do poder. É nesse cenário que se mata, inclusive, em nome de divindades — argumento recorrente que mais parece um mecanismo de alívio das próprias perversidades humanas. Uma espécie de terceirização da culpa, que permite a continuidade do extermínio e de genocídios em larga escala.
Logo, nesse processo de retrocessos, resta aos pobres mortais como nós apenas refletir sobre quem — e em que condições de dignidade — sobreviverá ao verdadeiro fim do mundo.
Epitacio Nunes de Souza Neto é psicólogo, psicoterapeuta e professor universitário. Possui doutorado em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Doutorado em Psicologia pela Universidad del Salvador (USAL) de Buenos Aires, Argentina. Possui também mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Todos os textos da Zona Livre estão AQUI.

