
No dia a dia, há tantos estímulos que disputam nossa atenção que alguns riscos muitas vezes passam despercebidos. Esses tempos aconteceu uma situação inusitada, para não dizer inacreditável, com um amigo, que não considero um cara desatento. Levanto essa história porque, como todo mundo que tem uma percepção aguçada já se deu conta, estamos imersos em situações de plena metamorfose, nas quais os riscos aumentaram com a emergência climática batendo à nossa porta. E quanto mais quente e desequilibrado o planeta fica, mais temos que conviver com bichinhos indesejados, como animais peçonhentos, mosquitos, entre outros vetores que trazem problemas de vários tipos.
O meu amigo é um sujeito que fica bastante tempo na frente das telas, não é daqueles de mexer em plantas ou de viver em antros cheios de coisas velhas, com teias de aranha. É um homem suburbano, que também não é de fazer trilhas, muito menos se aventurar em meio à natureza, ir atrás de ninhos, passarinhos ou pegar frutas em árvores.
Pois um dia, o cara estava sentado em uma cadeira na sacada do seu apartamento, em um bairro supercentral e urbanizado de Porto Alegre, olhou sua mão e viu um furinho diferente no seu dedo. Era uma bolhazinha que parecia ter estourado; no outro dia, havia deixado seu dedo indicador inchado. Vendo aquilo, procurou uma emergência e foi ao Hospital Ernesto Dorneles. Lá, foi atendido, mas não deram muita importância para o furinho. Ou seja, ele tinha sido picado por algum bicho, mas o médico de plantão não se ligou em levantar hipóteses sobre o problema.
Dois dias depois, o dedo dele começou a ficar preto. Ele voltou à mesma emergência e, dessa vez, a médica que lhe atendeu receitou um antibiótico que parecia que ia resolver o caso. O remédio era específico para picadas de peçonhentos como aranhas. Só que, mesmo com esse medicamento, o dedo continuava com um péssimo aspecto, dando sinais de que o negócio estava ficando mais sério.
Então ele acabou procurando seu dermatologista, que o atendeu em um encaixe, numa sexta-feira. Assim que o médico o viu, mandou-o direto baixar hospital. E sentenciou: “Vou ter que te internar, porque podes perder esse dedo, e se o veneno se espalhar, tu corres até risco de vida”.
Meu amigo não estava acreditando. Achou hilária a situação. Entrou numa sexta e saiu numa segunda da Santa Casa, depois de uma série de potentes antibióticos na veia, pois a medicação anterior não tinha adiantado, devido à gravidade do quadro. Depois da alta do hospital, ficou em tratamento por mais uns 20 dias.
Hoje, depois de quase dois anos do acontecido, ele ainda guarda no dedo a cicatriz desse episódio. Lembrei dessa história porque recentemente um amigo dos tempos de acampamento nos Aparados da Serra colocou num grupo de zap que o governo federal conta uma área no site do SUS com informações sobre cuidados e o que fazer diante de acidentes com animais peçonhentos e até com relação a queimaduras com mãe-d’água ou caravelas.
Vale muito conferir. Boa parte das pessoas não tem a menor ideia do que fazer em caso de se machucar com bichos desse tipo. É muito importante que se verifique se há algum inseto ou aranha dentro de sapatos e botas antes de calçá-los, assim como várias outras medidas que o site do Ministério da Saúde sugere.
Com frequência, sou acionada por pessoas próximas e familiares para tratar de assuntos desse tipo com meu marido. Ele trabalhou muitos anos com pesquisa no meio do mato e na Vigilância em Saúde do Município, principalmente no combate à dengue, entre outras doenças provocadas por vetores como insetos, roedores, moluscos etc. É um tipo de conhecimento que todo mundo precisa ter noção. Pois, mesmo que tenhamos avançado tanto em questões tecnológicas, não podemos perder de vista os perigos que podem virar grandes problemas.
Saiba mais
A plataforma e o APP Animais Peçonhentos, iniciativas da Coordenação-Geral de Vigilância de Zoonoses e Doenças de Transmissão Vetorial do Ministério da Saúde (CGZV/DEDT/SVSA/MS) em parceria com a Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI), oferecem muitas informações para você se proteger dos acidentes por animais peçonhentos. Nesse site, você fica sabendo sobre os animais peçonhentos de importância em saúde, incluindo características e distribuição geográfica. Tem também orientações detalhadas sobre prevenção de acidentes e procedimentos de primeiros socorros em caso de emergência.
Além disso, dentro do APP Animais Peçonhentos, que está integrado ao “Meu SUS Digital” (anteriormente Conecte SUS), há informações sobre prevenção, primeiros socorros e localização de hospitais de referência para atendimento soroterápico.
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