
Muito se fala que 2026 será um ano difícil por causa das eleições — aquele período em que se acentuam divisões entre opiniões, famílias e posicionamentos. O debate se acirra, as convicções ideológicas se tornam mais rígidas e cresce um olhar desconfiado de uns sobre os outros, como se estivéssemos permanentemente tentando identificar de que lado cada pessoa está. E, dependendo do grau de radicalização, uma vez classificado o cidadão como pertencente ao “outro lado”, o diálogo simplesmente se torna improvável.
O pior desse movimento é que os matizes desaparecem. Passamos a encaixar pessoas em categorias rígidas, muitas vezes baseadas em sinais superficiais: como se vestem, onde frequentam, quanto gastam, como se locomovem. Eventualmente, categorias inteiras de trabalhadores são associadas automaticamente a posições políticas específicas, como se nesses espaços não houvesse divergência ou pensamento próprio. Professores, artistas e servidores públicos seriam de esquerda; empreendedores, motoristas de aplicativo e militares, de direita. Será mesmo possível reduzir tanta gente a rótulos tão estreitos?
Enquanto a polarização ameaça crescer neste ano, percebo — com algum alívio — pequenos movimentos de leveza surgindo na vida cotidiana da cidade.
Isso ficou evidente no final de semana, quando saí para caminhar pelo bairro em uma tarde especialmente bonita. Combinei de encontrar amigos para colocar a conversa em dia e aproveitar que, perto da cafeteria, aos sábados, acontece uma feira. Saí com o carrinho de compras, programando misturar o prazer da caminhada e do encontro com adquirir alimentos saudáveis — tudo a cerca de dez quadras de casa. Caminhar sempre me acalma, desacelera o pensamento e me faz perceber o mundo com mais atenção.
No trajeto, o percurso estava animado: bares cheios, gente circulando, atividades acontecendo. Na conversa com os amigos, como seria inevitável neste momento, acabamos tocando em temas de política. E, curiosamente, mesmo tendo a mesma profissão, nem sempre pensamos da mesma forma, o que anima o debate. Confesso que gosto de provocar o contraditório: escutar argumentos diferentes ajuda a ampliar o olhar e a tornar o pensamento mais complexo.
Na volta, já com o carrinho cheio, caminhei mais devagar. Era início da noite — o horário que considero que a cidade fica mais bonita, especialmente nos trechos com bares de rua, luzes filtradas pelas árvores e conversas espalhadas pelas mesas.
Foi então que algo chamou atenção: a transformação de um dos lugares mais inóspitos do caminho. Uma pequena praça de esquina, formada pelos muros laterais das edificações vizinhas, que durante muito tempo pareceu abandonada e pouco convidativa. Sempre imaginei que aquele espaço poderia ganhar vida com algum uso junto aos muros — talvez bares, talvez comércio. Mas o que aconteceu ali foi ainda melhor.
Naquela noite, a praça abrigava uma feira de artesãos. Luzes iluminavam o espaço central e bandas se apresentavam em um palco improvisado junto ao muro. Havia muita gente circulando, conversando, aproveitando o ambiente. Passei por duas pessoas que elogiavam a “prefeita da praça”. Não sei quem é, mas merece reconhecimento.
Pensando melhor, essa transformação não aconteceu de uma hora para outra. Há algum tempo, um novo bar-restaurante se instalou ali e, diferentemente do anterior, decidiu abrir suas portas para a praça. Depois surgiu um quiosque-livraria. No mesmo prédio do bar — uma edificação antiga — está em curso uma reforma completa, um retrofit que, ao que tudo indica, transformará antigos apartamentos em unidades menores para aluguel temporário. Pessoalmente, acredito que esse tipo de uso precisa de regulação cuidadosa, mas confesso que ali parece formar uma combinação interessante: bar, praça e moradia temporária convivendo de forma complementar. Para quem visita a cidade, é uma alegria ter alimentação próxima, um espaço público vivo e um lugar acolhedor para se hospedar. Parecem formar uma parceria promissora.
Enquanto caminhava, ainda refletindo sobre as conversas políticas do dia, comecei a perceber aquele espaço sob outra perspectiva. Talvez sua força estivesse justamente na junção de diferenças. Ali estavam empreendedores, músicos, artesãos, moradores e visitantes — cada um contribuindo de alguma forma para a vitalidade do lugar. Certamente havia pessoas com visões políticas distintas, talvez até opostas. Mas era justamente essa diversidade que tornava o ambiente tão vibrante e significativo. Naquele momento, as divergências não desapareciam — mas deixavam de ser o centro.
Voltei para casa pensando na beleza de quando se constroem esses encontros. No quanto somos mais interessantes quando o foco deixa de ser o radicalismo e passa a ser a criação de espaços onde as pessoas possam se encontrar.
Lembrei então do projeto de feiras gastronômicas noturnas que acontecem de terça a sexta-feira em praças de Curitiba, organizadas pela prefeitura municipal. A cada semana, diferentes praças recebem a feira, que ocorre em um dia determinado, das 17h às 22h. Além de abrir oportunidades para pequenos negócios de food trucks, a iniciativa valoriza a gastronomia local com preços acessíveis. Mas talvez o efeito mais interessante seja outro: ela anima as ruas, faz com que moradores caminhem até esses espaços, redescubram o próprio bairro e, pouco a pouco, percam o medo da praça. Uma política pública que reforça a cidadania, a vizinhança e a segurança local.
É um importante exemplo de gestão que fortalece os espaços públicos da metrópole, potencializando o cenário perfeito para o encontro generoso entre cidadãos. Somos melhores quando acontece o olho no olho — quando é possível discordar, fazer uma piada para aliviar a tensão, reconhecer o outro como alguém real. Esse contato cotidiano tem um poder silencioso de dissolver extremismos e nos lembrar da nossa condição comum.
Espero que, em 2026, sejam esses espaços — e essas experiências — que se multipliquem pela cidade. Porque, no fim das contas, talvez seja justamente ali, entre uma feira, um bar e uma praça iluminada, que esquerda e direita aprendam, ao menos por algumas horas, a dividir o mesmo espaço e a construir possibilidades.
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