
A arte de se comunicar. Com essa frase clichê, começo este texto. Primeiro porque não tenho nada contra o uso moderado de frases feitas. A maior parte delas é como os bolos feitos em casa que engrossaram nossas pernas. Minha mãe, que assim como eu achava as pessoas robustas mais bonitas, queria engrossar as minhas torneadas pelas aulas de balé, pelas andanças a cavalo e pela correria mesmo de minha vida de menina a qualquer custo. Então, completava minha alimentação com guisadinho de moranga, um dos meus pratos favoritos até hoje e que raramente como porque, além de eu ser um desastre na cozinha, os restaurantes desta cidade com síndrome de esnobismo não o incluem em seus cardápios. Talvez achem ringarde, básico ou cafona em francês. Eu acho très chic, simples e não simplório.
Na arte de se comunicar, ser simples é uma espécie de carro-chefe. Ou, para falar de um modo um pouco mais elaborado, uma das partes essenciais de um diálogo. Diálogo, eu vivo falando sobre isso em um exercício de autoeducação, implica pelo menos três regras: que sejamos sinceros, que não nos consideremos superiores ao nosso interlocutor e que estejamos dispostos a mudar de opinião. Essa última de extrema relevância porque reforça a ideia de que não temos de conversar para ter razão e, sim, para que possamos aprender uns com os outros e chegar a um denominador comum ou a um bonito ponto de união. Eu gosto dessa palavra: união. Não gosto da conversa de “o que Deus uniu, o homem não separa”, mas de que “a união faz a força”, muito.
Eu me empenho, ainda que de vez em quando tropece na minha própria língua, para me comunicar com clareza, deixando, se não minhas ideias esclarecidas, pelo menos as minhas intenções. Talvez, com essa palavra, alguém já tenha lembrado da máxima que diz que “de boas intenções o inferno está cheio”. Não sei. Não frequento esse lugar e tampouco tenho um temperamento infernal. O filósofo suíço Alain de Botton, em seu livro O Curso do Amor, desenvolve uma teoria interessante sobre o papel do temperamento de cada um de nós em uma interação social e emocional:
“O que faz com que as pessoas se comuniquem bem é, basicamente, a capacidade de não se intimidar com os aspectos mais problemáticos ou incomuns do próprio temperamento. Elas conseguem encarar sem problema algum sua raiva, sua sexualidade e suas opiniões impopulares, estranhas ou fora de moda sem perder a autoconfiança ou desmoronar de vergonha. São capazes de falar com clareza porque desenvolveram uma percepção inigualável do que é aceitável nelas. Gostam o suficiente de si mesmas para acreditar que são dignas da boa vontade dos outros e que podem conquistá-los, se forem capazes de se apresentar com o devido grau de paciência e imaginação”, ele diz.
Eu adoro esse trecho. Uso como um norte e como um banho de água fria quando começo a delirar com a existência de um mundo sem erros e a esperar uma perfeição das outras pessoas, que também não ofereço. Diz uma amiga esotérica que é porque, em meu mapa astral, o signo de Virgem dá umas coordenadas. Minha analista deve ter dito algo sobre eu ter algum traço obsessivo, felizmente não compulsivo. Mas o fato é que gosto de casa arrumada, guarda-roupa, gavetas, livros, pensamentos, a vida em si organizada. Logo, como é de se supor, preciso fazer uma forcinha para lidar com frustrações, mais ou menos como eu fazia na infância quando alguém ou eu mesma colocava abaixo as arrumações do mundinho dos meus brinquedos e precisava manter a calma para colocar, de novo, tudo em seu lugar.
“A criança é o pai do adulto”, escreveu o poeta William Wordsworth. Ou, se atualizarmos a fala de um homem do século 18 para o nosso 21, permeado de avanços feministas, a mãe. Eu rascunhei bastante a minha maternidade quando era menina com as minhas bonecas. Assim como minha mãe entendia e aceitava os desastres de seus filhos, sem de maneira alguma colocar o seu afeto em jogo, eu expressava e repetia, em minhas brincadeiras, esse padrão. Por detrás da autoestima que carrego, sem sombra de dúvida, houve pais capazes de comunicar e de garantir, eu estivesse me saindo bem ou mal, o meu lugar no círculo do amor familiar, o que entendo como algo extremamente positivo, como uma arte de comunicar sem se trumbicar, como dizia o velho Chacrinha e estava escrito em uma das paredes do banheiro da faculdade agitada em que estudei. Assunto que fica para outro momento menos paz e amor do que estou agora.
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