
Estou lendo um livro de Rubem Braga, com textos publicados entre 1935 e 1977. Toda noite, antes de dormir, leio cerca de meia dúzia de crônicas. Devagar, não quero que o livro acabe. Que ele seja um excelente cronista, não há dúvidas, mas o que tem me gerado um prazer diferente ao me debruçar sobre sua obra é a viagem no tempo que ela me proporciona.
Não, eu não era nascida ainda, então não me transporto exatamente a uma época conhecida. Visito um mundo que deixamos para trás, um mundo que me lembra a minha infância, nos anos 1990: uma sociedade analógica. Consigo sentir o gosto do ritmo que a vida tinha, que a tecnologia dissolveu.
Um incômodo persistente paira sobre mim: o excesso. São telas, informações, estímulos ininterruptos. Passo o dia trabalhando entre o computador e o celular, mergulhada em uma fadiga mental que sei não ser só minha. Talvez por isso o movimento de volta ao analógico esteja, curiosamente, em alta nas redes; é o sintoma de uma sociedade exausta tentando recuperar o fôlego. Um incômodo que chamam de estafa mental.
Nosso cérebro não acompanha o desenvolvimento exponencial da tecnologia — não temos capacidade para isso. Não precisamos ir longe: voltemos a 2021, cinco anos atrás. Ainda na pandemia, estávamos semiconfinados, com esperança de que a normalidade fosse reinstaurada em breve. A inteligência artificial ainda não era popular, apenas nome de um filme antigo. Robôs e conteúdo criado por IA ainda não habitavam as redes sociais. Os vídeos curtos começavam a fazer sucesso. Nossa maior preocupação era com o vírus, não com viralizar.
Mais cinco anos antes disso, em 2016, definitivamente o celular ainda não era extensão do nosso braço: ele servia mais para mensagens, registros, postar aquela foto específica no Instagram — que ainda não tinha tantas propagandas e pessoas fingindo autoridade em seus nichos, era mais orgânico. Inclusive, hoje 2016 está em destaque nas redes sociais, acredito justamente por ter sido um dos últimos anos em que o equilíbrio entre real e digital ainda existia.
Desde então, a realidade transforma-se em um ritmo vertiginoso, muito por conta do desenvolvimento exponencial tecnológico.
Já tenho trinta e dois anos e, há pelo menos dois, tento tomar a decisão mais importante da minha vida: ter filhos. Penso na minha vó, que, com a minha idade, comemorava os quinze anos de sua filha mais velha. Não consigo decidir, por vários motivos, e também porque me preocupo imensamente em trazer uma criança para este mundo tecnológico, em que as relações humanas estão cada vez mais escassas, a IA está cada vez mais inteligente e as pessoas, mais ignorantes e doentes. Não vislumbro uma solução num futuro próximo, a menos que aceitemos o óbvio: oito horas de exposição digital não são adequadas ao cérebro humano, o descanso perdeu o sentido ao se tornar sinônimo de mais estímulo, e tentar se anestesiar e se resguardar da própria realidade por meio de vídeos curtos não é exatamente uma boa ideia.
Resta-nos tentar voltar ao equilíbrio, com a lembrança de que observar, estudar, experimentar, viajar, tornarmo-nos pessoas melhores… isso sim é o essencial. O resto é pura distração, perda de tempo. Rubem Braga não teria capturado o deleite de um almoço mineiro ou as nuances do mar se estivesse curvado sobre a luz azul de um celular. Sua arte nasceu do olhar curioso que só o ócio permite.
Termino esse texto citando Umberto Eco, em uma crônica de 2008: “Existem progressos tecnológicos além dos quais não se pode ir. […] O progresso também pode significar dar dois passos atrás, como voltar à energia eólica no lugar do petróleo, e coisas do gênero. Pensemos no futuro! Para trás com força total!”
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