
Começo informando que minha mãe morreu em 1997 e que, ao contrário de Meursault, o protagonista de O Estrangeiro, do Albert Camus, chorei muito por sua partida e que a morte de meu pai, em 2009, também me causou muita dor. Portanto, não me coube cuidar diretamente de ninguém com idade avançada. Se tivesse de, não tenho dúvida, eu estaria disposta. Sei que a velhice não é nada simples, mas meu senso de responsabilidade e de afeto não me permitiria fugir da raia, ou melhor dizendo, dos meus. Se tivessem envelhecido e não necessitassem de internação hospitalar, em hipótese alguma, meus pais passariam seus últimos anos ou meses em um lugar que não fosse nosso.
Nosso no sentido de ser um local íntimo deles ou meu se não tivessem mais o próprio. Assim como encontraram aconchego para mim em nossa casa e em suas vidas, eu encontraria para eles. Talvez, se tivessem sido maus, eu pudesse agir de forma diferente. Não sendo católica, não me sinto na obrigação de honrar pai e mãe dentro dos moldes do quarto mandamento. Mas tendo sido bem cuidada, penso que o mínimo que eu poderia fazer é devolver, nem falo do amor, a boa vontade, o zelo e a paciência que tiveram comigo.
“Ah, mas ninguém tem obrigação nenhuma”, já me disseram. “Filho não foi feito para ser cuidador e, em uma clínica, os velhos ficam muito melhor”, disseram também. Já me falaram um calhamaço de frases que a maior parte das pessoas que foram levadas para asilos contestariam em segundos se fossem ouvidas. E reparem que não escrevi casa geriátrica ou clínica ou qualquer outro nome que tenham dado para esse lugar, dos mais modestos aos mais luxuosos, porque o nome dele é asilo, um lugar basicamente para cuidados com a alimentação, a higiene e a medicação dos internos. Para seus animais de estimação, por exemplo, quase sempre não há espaço. Se a pessoa tiver um, mesmo que há muitos anos, tem de deixá-lo para trás em uma violência de duas mãos.
De modo geral, os velhos, neste país, são pouco amados e tratados como se não amassem. Os velhos, neste país, não são ouvidos, como se não tivessem nada a dizer e tivessem perdido sua capacidade criativa. Os velhos neste país pouco podem fazer por si mesmos. E por quê? Inúmeros motivos. Razões, entre outras, econômicas e culturais. E, é claro, por causa do gigantesco etarismo, preconceito movido à ingratidão e a alguma forma de estupidez, para não dizer burrice, de quem não entende que está na fila do tempo e que só não envelhece quem morre. Os velhos, neste país, são tratados mais como uma despesa pesada e inconveniente que como ser humano.
Escutei as palavras ‘pesada’ e ‘inconveniente’ no supermercado. Saíram da boca de uma mulher que passava pacotes de fraldas no caixa. Indignada com o custo, não reclamava da falta de políticas públicas que custeassem os gastos com a terceira idade ou dos preços abusivos do mercado. Reclamava ter de pagar pelas de sua mãe e pelo trabalho de cuidadoras que, segundo ela, acionariam a justiça assim que a ‘inútil’ morresse. Sua mãe vista como um prejuízo e um incômodo dentro dos meios de produção, uma peça obsoleta na máquina da família e da sociedade. “A sociedade mecanizada é a mesma que produz a solidão da linha de montagem”, Sándor Márai escreveu no De Verdade, um de meus romances favoritos.
Idosos são obrigados a se tornar solitários. Catalogados dentro de um espectro de poucas competências e de muitas inutilidades, pouco se oferece a eles e pouco ou nada se espera deles. Dessingularizados, destituídos de suas identidades ou, como me disse a jornalista Marta Schlichting, romantizados por uma parcela com melhores condições financeiras, sofrem de um abandono sistêmico. Alguns filhos, mesmo morando na mesma cidade, não os veem nem uma vez por mês, quem dirá todas as semanas. Tampouco telefonam. O que há de errado em sentir falta dos pais?, me pergunto. Por que não sentem?
Talvez, os velhos, neste país, sejam vistos, mesmo dentro de núcleos familiares, apenas como funcionários aposentados ou demitidos a quem não devemos nada e a quem podemos esquecer ao dobrar uma esquina. Por alguma razão que não entendo, somos criados para nos afastar ou afastá-los. Por alguma razão que não entendo, elegemos políticos que os desconsideram e confiamos em empresas e tecnologias que, ao contrário do que parece, não levam em conta suas histórias, suas condições físicas e seu poder aquisitivo. E tudo custa mais na vida dos mais velhos, inclusive o tempo passar.