
“Pedro Sanchez tem um mérito: desnuda o antissemitismo com toda a sua hipocrisia em duas manifestações que, postas frente a frente, tornam-no cristalino. 1) O Marrocos não provocou a crise humanitária na cidade africana (ocupada pela colonialista Espanha) de Ceuta. O que ele alega? Que não há provas. 2) Israel, segundo ele, é o culpado. Absurda teoria da conspiração e… desprovida das tais provas que exige no outro caso (e sempre desnecessárias quando se trata do “sionismo”). Essa contradição resume tudo.”
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“Então, tá. O manjado jihadista Pedro Sánchez conseguiu a proeza de atribuir o colonialismo espanhol que ele próprio promove na cidade africana (marroquina, no caso) de Ceuta, com sua colonização, repressão e apartheid que já barrou e matou centenas de seres humanos famélicos, a… Israel (!!!!!!), claro! Chamem a flotilha dos lobos perversos, hipócritas e cínicos disfarçados de cordeiros! Suponho que as outras violentíssimas colonizações espanholas ao longo dos séculos e inclusive a própria Inquisição sejam obra de Israel, o culpado histórico de tudo (pra deixar bem claro: aqui tem muita ironia).”
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Faz já mais de 23 anos que eu e a hoje minha queridíssima amiga Cintia Moscovich nos unimos e descobrimos enormes identidades diante de um ambiente inóspito. Não deixa de ser um episódio que resume a coesão do nosso povo e a consequente manutenção dos seus traços étnicos, que vão da cultura à fé, passando por hábitos, costumes, idioma comum, tradições e valores, enfim, tudo o que constitui uma etnia.
Éramos repórteres cobrindo o Fórum Social Mundial, eu pela Folha de S. Paulo, e ela pela Zero Hora. Começamos a ver os discursos e trocar olhares, até que nos aproximamos e trocamos desabafos de genuína apreensão. Havia palavras de ordem francamente antissemitas. Não chegavam ao absurdo atual, que banaliza a Shoá (disparado o evento mais cruel e meticulosamente violento da história da humanidade, comparável apenas à escravização africana) e nega a legitimidade de Israel, ironicamente um dos países mais legítimos do mundo (abriga povo originário depois de este povo ter passado por uma diáspora crudelíssima sem ter um lar).
Me lembrei de mim e da Cintia quando li as frases desconexas do Pedro Sánchez, o premier espanhol, seguramente o chefe de governo mais antissemita da Europa.
Aliás, sou exibidamente amigo de uma das 10 patronas (mulheres) da Feira do Livro, cujo mandato completa uma década.
Ou seja, a Cintia é 10!
Mas voltemos ao Pedro Sánchez, infelizmente.
Veja ali em cima as epígrafes desta coluna. São frases minhas mesmo, que usei em redes sociais no calor dos acontecimentos (mais precisamente, no Facebook) e copio aqui dias depois. O cara exige provas pra que uns sejam culpabilizados, mas as descarta ao culpar outros, os de sempre. Sempre ao sabor do oportunismo.
Novamente, um episódio que resume o todo.
Já citei algumas vezes a frase do Amos Oz no belíssimo livro autobiográfico “De amor e trevas”, em outro contexto revelador. Aqui vai:
“Quando meu pai era um jovem em Vilna, todas as paredes na Europa diziam: ‘Judeus, voltem para a Palestina’. Cinquenta anos depois, quando ele voltou à Europa para uma visita, as paredes todas gritavam: ‘Judeus, saiam da Palestina’.”
Percebem?
E sempre é bom lembrar que sou defensor de dois Estados pra dois povos, em paz, segurança e mútuo reconhecimento, um árabe e outro judeu. Ambos são povos originários e com direito à autodeterminação, com os detalhes que os árabes já têm mais de 20 países (os muçulmanos, muito mais) e de que aquela região onde se foi renomeada como Palestina pelo império romano, mas antes era Judeia. Ok?
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O fato é que eu e a Cintia continuamos, assombrados, conversando muito sobre isso ainda hoje. Vivemos no mesmo ambiente intelectualizado, de jornalistas, escritores e artistas, alguns deles muito supostos, com infinitas aspas no qualificativo, porque algumas falhas de caráter, humanismo, personalidade, bom senso e sensibilidade do sedizente intelectual corroem qualquer formação acadêmica e derrubam qualquer pilha de livros que tenha lido, por maior que seja.
É vício de origem, entende?
Vemos supostos intelectuais aderindo comodamente ao mainstream, sem um pingo de real empatia conosco. Uns silenciam pra não polemizar mesmo diante do absurdo, às vezes alegando que se trata de “debate ideológico” (desde quando racismo é ideologia? Racismo é crime, não só pela cor da pele). Outros invertem tudo, acusando a vítima judia de ser o vitimária. Já estive num grupo em que alertei pra frases antissemitas, e veio um “confrade” dizer que eu (sim, EU) estava “interditando o debate”. Já teve outro que, diante da minha reação, me “acusou” de estar com problemas emocionais (e eu disse que ter problemas emocionais não é desvio de caráter e que, evidentemente, sim, estou e com motivos). Já teve energúmeno ignorando seletivamente o princípio básico do lugar de fala pra ensinar a um judeu o que é antissemitismo (como se negar ao povo judeu a sua autodeterminação no lar ancestral, depois de tantas e tamanhas perseguições, não fosse anissemitismo. Eu digo que é, e isso não é uma opinião, é uma informação). Já teve especialista em política que silencia, ignora e normaliza discurso antissemita de homem público (de que me serve a análise dessa pessoa?). Já teve quem, dentro daquele aspecto mais amplo citado ali em cima de normalizar o racismo como “debate ideológico”, comparou o Holocausto a uma guerra ou até o negou. Percebam! É como negar a existência da escravização de africanos.
Enfim, um inferno. Algo pegajoso. Sem lugar pra onde correr.
Tipo o pai do Amos Oz em “De amor e trevas”.
E dê-lhe nos revirar ao avesso pra apagar a nossa identidade e desrespeitar as nossas origens como se nada. Dê-lhe fazer o que jamais fariam com outra minoria tradicionalmente perseguida e segregada. Dê-lhe se encherem de razão.
Eu e a Cintia e muitos mais continuamos assustados.
Eu e a Cintia e muitos mais continuamos mal emocionalmente.
Eu e a Cintia e muitos mais continuamos juntos.
Eu e a Cintia e muitos mais enfrentamos a onda de lodo pestilento.
Eu e a Cintia e muitos mais amamos quem somos e preservamos nossa essência.
Eu e a Cintia e muitos mais temos personalidade e altivez pra sermos pessoas empáticas também quando essa empatia não resulta em aprovações cínicas.
Eu e a Cintia e muitos mais somos perseverantes e resilientes se necessário.
Eu e a Cintia e muitos mais já estamos no nosso velho gueto, mesmo que esse gueto não tenha limites geográficos, limitando-se a uma ressentida “bolha”.
Eu e a Cintia e muitos mais não aderiremos facinho ao modismo racista revestido de “humanismo”, porque de nada adianta você ser culto e lido se tem o vício de origem da leviandade contida no mal distarçado preconceito e na invisibilidade do outro.
Eu e a Cintia e muitos outros festejamos quando alguém nos enxerga e se une a nós, como um Zola de décadas atrás ou um Boy George da atualidade.
Curiosamente, tanto eu quanto a Cintia temos ao nosso lado parceiros de vida que não nasceram na nossa tribo, mas a ela aderiram porque a entenderam.
E ninguém vai tirar a nossa esperança: “Hatikva”.
Aqui vai a entrevista que fiz naquele Fórum Social Mundial com o argentino Sergio Widder, representante do Centro Simon Wiesenthal para a América Latina, que estava em Porto Alegre (a propósito, esqueça o papo furado oportunista de que o antissemitismo revestido de “antissionismo” não é uma preocupação local, brasileira. Esse desdobre surge especialmente quando querem apagar a frase desastrada e nunca retificada que comparou a guerra em Gaza com a Shoá. É, sim! Assim como racismo pela cor da pele, homofobia, capacitismo e outros absurdos, o antissemitismo (revestido de antissionismo nesta esquina da história e devastador) é assunto local e universal, aqui, ali e acolá, de síndico do prédio a secretário-geral da ONU.
Pelas respostas do Sergio, você verá que a nossa apreensão tinha e tem cada vez mais fundamento. A entrevista só não foi manchete porque algum fato do dia se impunha. Mas foi a submanchete da Folha e provocou enorme reflexão, pena que, pelo jeito, insuficiente.
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26/1/2003
Sergio Widder, do Centro Simon Wiesenthal, se diz chocado e defende que anti-semitismo não pode se somar a protestos justos de Porto Alegre
Fórum é anti-semita, diz militante judeu
LÉO GERCHMANN
DA AGÊNCIA FOLHA, EM PORTO ALEGRE
Representante do Centro Simon Wiesenthal na América Latina, o argentino Sergio Widder, 34, participa do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, com um propósito bem definido: não deixar que o anti-semitismo tome conta da esquerda do mundo.
Dizendo-se “espantado” com demonstrações anti-israelenses, Widder lamenta a “visão maniqueísta” da esquerda a respeito do conflito no Oriente Médio, entre judeus e palestinos.
“Fica difícil haver diálogo quando a gente chega a Porto Alegre e vê camisetas misturando uma estrela de David com uma suástica.”
Para Widder, nem a ofensiva armada do governo israelense de Ariel Sharon nem a ação militar dos EUA justificam a onda anti-semita na esquerda. “Não se pode vincular um governo a um povo ou nação. A onda de anti-semitismo é injustificável. Estão jogando a culpa nas vítimas”, diz.
O CSW foi fundado em 1977, em Los Angeles (Estados Unidos) -onde fica sua sede central, com o Museu da Tolerância. Seu propósito original era caçar nazistas. Hoje, luta pela tolerância e a luta contra o anti-semitismo. A seguir, trechos da entrevista:
Agência Folha – Como o sr. vê o tratamento da esquerda para o conflito israelo-palestino?
Sergio Widder – Há muito maniqueísmo, em um assunto tão complexo. Se os palestinos têm problemas históricos, os judeus também os têm. Somos um povo que somente com a criação do Estado de Israel, no local onde estão nossas origens, passou a ter uma representação. Errávamos pelo mundo, enfrentando perseguições. Há uma causa judaica.
Esse maniqueísmo nos trouxe a Porto Alegre. Não podemos deixar que o anti-semitismo tome conta de protestos tão justos, como os que são feitos aqui.
Agência Folha – Qual sua impressão em relação ao Fórum Social?
Widder – Fiquei chocado com manifestações anti-semitas, desvirtuam tudo. Fica difícil o diálogo quando a gente chega a Porto Alegre e vê camisetas misturando uma estrela de David com uma suástica. O Fórum Social Mundial não deve ser o fórum do anti-semitismo mundial.
Agência Folha – Como o sr. vê o vínculo entre sionismo e racismo?
Widder – Há diversas vertentes do sionismo. Sionismo é movimento de libertação nacional do povo judeu. Subliminarmente, o que é pregado é a exclusão dos judeus pela destruição de Israel. Há um roubo semântico incrível, definindo o sionismo como uma reação racista.
Agência Folha – Essa visão não estaria vinculada aos laços de Israel com os EUA desde sua criação, após a 2ª Guerra Mundial?
Widder – Pessoas são contra os Estados Unidos e o neoliberalismo e aliam isso a Israel, demonizando a todos, inclusive a israelenses e judeus. Veja: demonizam os judeus. É uma ironia ocorrer tal raciocínio na esquerda. Tentam desjudaizar o holocausto. É uma infiltração do anti-semitismo nos ideais mais justos.
Agência Folha – Estaria havendo um crescimento do anti-semitismo em razão da ação militarizada do governo direitista de Ariel Sharon em Israel?
Widder – Não se pode vincular um governo a um povo ou nação. A onda de anti-semitismo é injustificável. Estão jogando a culpa nas vítimas, isso novamente ocorre. Culpar os judeus pelo anti-semitismo é ardiloso. A violência deve ser banida. Deve-se terminar o terror. Sem isso, não é possível dialogar. Aqui em Porto Alegre, com o clima que existe, como pode haver um diálogo?
Agência Folha – Defensores da atuação palestina e até de homens-bomba a justificam dizendo que se trata de demonstrações de desespero. O que o sr. acha disso?
Widder – Os palestinos vivem dificuldades, é claro, e isso deve ser modificado. Mas nem todos os povos que enfrentam dificuldades recorrem ao terrorismo. É um argumento inaceitável.
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Na mesma página, no mesmo dia, havia o seguinte texto complementar, também meu:
O diretor de relações internacionais do Centro Simon Wiesenthal, o inglês Shimon Samuel, 57, está Porto Alegre e se diz disposto a “combater o mal (o anti-semitismo)” esclarecendo as “pessoas de boa vontade”.
“Fui criado em um kibutz e tenho formação esquerdista. Não consigo acreditar no que ocorre aqui e em outros locais do mundo. Há até um cartaz que mostra nazistas, ianques e judeus como uma coisa só. Há uma derivação do anti-neoliberalismo para o anti-semitismo. Esse maravilhoso desfile de Porto Alegre é manchado por cartazes dizendo que judeus matam crianças. Qual é o efeito dessa mensagem?”
“O que ocorreu na Argentina (atentados contra a Embaixada de Israel e a Associação Israelita) é um exemplo. Por favor, abram os olhos, isso não é brincadeira.”}
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Não, não é brincadeira.
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Um novo belo livro da Cintia
A propósito, sobre a Cintia, ela fez um belíssimo prefácio no meu livro “A Parteira do Bom Fim (A história de Dona Francisca, a mulher que dava à luz)”.
E tem produção nova dela na parada. Trata-se de “Baleia assassina” (Escrita Fina, 136 páginas). O livro conta a história do menino Natan, que sofre de gordofobia. Ou seja, sofre pela sua natureza, pela sua identidade, no caso em razão de uma característica física. E é de bullying que falamos sempre nesses casos. O protagonista é um adolescente com profundos valores humanistas que reage ao preconceito, à maldade e à invisibilidade, tratando do individual e do coletivo.
Enfim, é disso que eu e a Cintia falamos há mais de 23 anos.
PS: a propósito, engoli em três noites os 11 episódios da quinta temporada de Fauda, lançada terça-feira. Uma dica: se você não viu as temporadas anteriores, pode ver a nova, talvez só com algumas explicações sobre os personagens, pra desfrutar melhor. Mas não é necessário ver as outras. O detalhe nesta que recém estreou é que ela traz o ambiente e as decorrências do 7/10. Terminada a temporada, um sentimento fica ainda mais forte dentro da minha alma: como pode alguém ignorar, banalizar ou justificar tamanha monstruosidade?! Ali aparecem traumas e dilemas, mas sobretudo muita crueldade, dor e tristeza. É devastador! E foi o evento que resultou na Guerra em Gaza, aquela reação israelense que, sim, pode ter ido além da medida e se configurado como crime de guerra, mas jamais deve ser comparada à Shoá, um genocídio que reduziu em 2/3 a população judaica na Europa e 1/3 no mundo, feito deliberadamente (e por isso “genocídio”) para eliminar um grupo humano e seu lar e com execução friamente industrializada. Quem faz qualquer comparação com uma guerra é leviano, irresponsável e canalha.
Ah, claro, e profundamente antissemita.
Shabat shalom!