
Pelo menos não a toda hora.
Quero poder sentar no sofá e assistir a uma série besta sem culpa, fazer um bolo de cenoura com cobertura de brigadeiro e saborear um pedaço sem pensar nas calorias, pular a academia quando estou me sentindo cansada, me sentir triste sem autojulgamentos.
Na maior parte do tempo, evito açúcar, me exercito diariamente, nunca perco prazos de trabalho, sou feliz e deslumbrada com a vida. Mas, de vez em quando, eu só quero vestir meu pijama mais confortável e me entregar à indulgência.
Produtividade, hábitos, suplementos, rotinas da manhã, planejamento, metas, IA, aplicativos, wearables (dispositivos eletrônicos que você usa no corpo e que coletam dados)… tudo parece existir para transformar cada minuto em alguma coisa útil. Nas redes sociais, sempre tem um guru te ensinando como ser mais produtivo, ou “sua melhor versão”. Mas melhor para quem? Não acho que minha família, meus cachorros, meus amigos ou mesmo meu marido estejam preocupados com o quanto eu produzi no dia. Ser uma mulher emocionalmente equilibrada deve ser mais interessante para quem me cerca, e atinjo isso, adivinhem, com equilíbrio…
As pessoas estão se distanciando cada vez mais do caminho do meio. Dietas restritas, canetas emagrecedoras que tiram o prazer de comer, rotina de exercícios de atleta para pessoas que não o são (todo mundo agora quer participar de um triatlo ou ser maratonista), jornadas de trabalho de doze horas com orgulho (é chic ter burnout?), exageros com álcool e drogas (lícitas e ilícitas)… Trabalhe enquanto eles dormem? Prefiro dormir enquanto eles trabalham, na minha diária sonequinha pós-almoço de vinte minutos.
Estava na yoga esses dias, esperando a aula começar, e o assunto eram os wearables: eu e a professora éramos as únicas, das nove pessoas, sem. Sei que virou moda; meu marido também tem um relógio que só tira do pulso na hora de carregar. Mas os utilizadores de smartwatch que me desculpem: não consigo achar assim tão saudável o monitoramento constante da performance: sono, exercício, recuperação, estresse. Métricas, gráficos, números que te condicionam. Você acorda bem, olha no relógio e vê que sua pontuação, na verdade, foi baixa naquela noite: instantaneamente já sofre uma queda de energia e vive então aquele dia cansado. Imagina estar estressado e ainda ser apontado sobre: mais estresse ainda!
Deus me livre, em uma terça-feira qualquer, eu descobrir que, apesar de ter trabalhado, me exercitado, comido bem, dormido o suficiente e cumprido todas as minhas metas, tirei apenas 7,3 de 10 em ser uma pessoa funcional. Prefiro seguir confiando na minha percepção e discernimento: posso sempre escolher fazer um pouco mais ou um pouco menos, a depender de como me sinto, do meu humor, do meu ciclo. Ainda acredito que equilíbrio é tudo, e que minha melhor versão é a de agora: humana, imperfeita, deliciosa como sou. Deixemos a eficiência para a inteligência artificial e os robôs.