
Todo mundo está careca (sem provocação, ministro…) de saber que o jornalismo mudou, está mudando e vai seguir mudando sem parar. Mas tem uma coisa, antiga e chata, que não muda nunca e, parece, vai seguir do jeito que é desde que eu me conheço por jornalista. E olha que já faz tempo…
É esse formato de dar, sempre, a última palavra na edição de notícias sobre malfeitos de autoridades ao acusado dos malfeitos, como se isso garantisse atestado de isenção, de imparcialidade. Vamos a um exemplo recente, que você já viu e vai ver de novo no próximo telejornal (a que assiste enquanto espera a novela), no canal de sua preferência na internet, ou nas postagens de seus amigos nas redes sociais. Já há bastante tempo, o Brasil espera uma explicação do senador Flávio Bolsonaro para as relações dele com o picareta Daniel Vorcaro e sobre o uso dos milhões de dólares doados pelo Vorcaro para produção do filme Dark Horse, cinebiografia do pai de Flávio, condenado por vários crimes contra a democracia.
Agora, sabe-se que, desde julho, o senador, que pretende repetir o pai na Presidência da República, é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas. Bueno, como diria o ex-governador, Flávio Bolsonaro, obviamente, nega tudo e diz que a relação com Vorcaro é privada (tem até cheiro de privada, digo eu). Só não explica como a grana do picareta – arrancada diretamente das contas de aposentados, de fundos de pensão e de todos os que têm conta corrente no BRB, o Banco de Brasília – foi ou está sendo usada. Pois os editores, deixando de lado aquele velho ditado que diz que a última palavra é a que fica, dão ao senador candidato a presidente o direito de encerrar as reportagens sobre as investigações, alegando inocência e se mostrando um pobre cidadão indefeso perseguido por juízes parciais.
Ora, será mesmo que dar ao acusado a última palavra é sinal de isenção, de imparcialidade? Por que não começar as reportagens com a defesa do acusado? Alguma coisa assim: o senador Flávio Bolsonaro nega as acusações de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas e diz que a investigação da Polícia Federal é perseguição. Daí para a frente, relatar todas as denúncias contra o senador e encerrar com alguém sustentando as acusações. Cometeria alguma injustiça, alguma leviandade, o veículo que fizesse isso? Ou estaria tratando com equilíbrio as denúncias para lá de sérias e bem apuradas e a óbvia e pouco fundamentada defesa do acusado?
Se não dá para mudar esse formato (alguém com poder de definir a linha editorial pode não querer mudar…), poderiam os editores fazer um revezamento: numa reportagem, o acusado fica com a palavra final, noutra a última palavra vai para o acusador… Nesta época de campanha eleitoral, cresce essa suposta preocupação em dar o mesmo tratamento para todos os lados. Fiquemos com a disputa Lula x Flávio Bolsonaro. E já eu pergunto: dá pra tratar igualmente as denúncias contra o senador Flávio Bolsonaro e aquelas que envolvem o presidente Lula?
Vamos lá: o herdeiro do bolsonarismo é acusado diretamente de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas. Fora isso, tem todas as articulações dele contra o país. Das velhas conversas com Trump para facilitar a aplicação de tarifaço sobre as exportações do Brasil até a recente oferta de um governo de transição para negociar com Marco Rubio a mudança de gestão numa eventual vitória dele, Bolsonaro, na eleição deste ano.
Lula não é investigado diretamente. Ele entra na cobertura dos malfeitos que se espalham em vários grupos políticos como amigo dos investigados: o presidente é amigo do Xandão e do Jaques Wagner, ambos enrolados com o Vorcaro e com o Banco Master. Lula é pai do Lulinha, enrolado com a lobista Roberta Luchsinger, por sua vez enrolada com o Careca do INSS. Dá para tratar Lula e Flávio Bolsonaro com o mesmo peso de suspeita? Um entra diretamente no malfeito, o outro é puxado por algum amigo ou parente.
Eu sei… essa forma de fazer jornalismo é da nossa cultura. E mudar cultura não é fácil. Enquanto nossos veículos insistirem nessa política de isenção, imparcialidade sem assumir uma posição bem definida nas disputas políticas, a tendência é que quem menos merece acabe mais beneficiado. Ora, por que os nossos grupos de mídia não podem expor claramente – como fazem os grandes jornais dos Estados Unidos e da Europa – de que lado estão nas disputas eleitorais? E é preciso assumir posições claras, não só nos editoriais, mas na cobertura diária.
Sem esse dogma de dar o mesmo peso e medida a comportamentos diferentes. Só para manter a tal isenção. Enquanto nossos veículos de comunicação mantiverem esse jeito meio “centrão” de cobrir os acontecimentos políticos com um pé em cada barco, vamos ficar remando no mesmo lugar, dando o mesmo peso. A gente empurra o peso para as costas do povo e aos que querem aliviar o que hoje pesa nas costas da maioria.
Tal pai, tal filho
Para encerrar: Flávio Bolsonaro comprova a veracidade desse ditado e daquele que diz “cara de um, focinho do outro. E mais: cérebro de um, limite do outro. É só acompanhar o que Flávio Bolsonaro tem dito na campanha para ver como ele é o pai escrito… Quando Jair era presidente, perguntaram a ele como o Brasil poderia se desenvolver sem prejudicar o meio ambiente. O capitão respondeu: “É só as pessoas comerem mesmo e fazerem cocô dia sim, dia não…”. Outro dia, perguntaram ao Flávio como ele pretendia preparar o Brasil para enfrentar as mudanças climáticas. Resposta do Bolsonaro herdeiro: fazendo esgoto… Flavio Bolsonaro mantém a mesma profundidade de um pires nas propostas pra garantir mais segurança. O pai dele queria que cada cidadão tivesse o seu próprio arsenal em casa. Flávio diz que vai resolver o problema da criminalidade reduzindo a maioridade penal para 16 anos. E justiça: se pode ser pai e mãe, pode pagar pelos crimes. Para compensar, promete, quem tiver 16 anos já pode tirar carteira de motorista… Não estamos diante de um homem com toda a noção da importância do cargo de Presidente da República?