
Em uma dessas conversas da vida, um amigo me contou que outro amigo finalmente havia encontrado a liberdade.
Esse amigo (dele) conseguiu, ainda jovem, depois de anos de trabalho árduo, se livrar das amarras deste trabalho, de um chefe e de condições que ele julgava serem aprisionantes na sua vida, conquistando o ápice da estabilidade financeira.
Ele estava tão encantado que lançou um livro sobre sua história.
No exato momento em que terminou a nossa conversa, eu discordei.
Não refutei a alegria genuína que ele demonstrava enquanto falava, feito alguém que vira a última página de um livro bom, mas entrei naquelas minhas longas discussões internas quando eu não estou de acordo com o que ouço ou vejo.
Eu não acredito que, enquanto humanos, seremos realmente livres.
Às vezes, uma pessoa pode ter liberdade externa, mas sentir-se presa por inseguranças, ressentimentos ou expectativas alheias.
Em outras situações, alguém pode enfrentar limitações externas e ainda manter uma grande liberdade interior, preservando suas convicções e sua identidade.
A liberdade, assim como a felicidade, a meu ver, não pode ser mensurada, qualificada, definida.
Cada indivíduo carrega em si uma forma de enxergar o mundo, de receber o tratamento que ele nos dá e reagir de formas distintas.
A minha felicidade não é a sua, assim como o que eu considero liberdade pode fazer com que você se sinta preso.
Sendo humanos, temos limites, e talvez não possamos ser livres na condição humana, mas sim dentro dela.
Muitos filósofos argumentam que a liberdade não exige ausência de influências, mas a capacidade de refletir sobre elas e escolher como responder.
Nesse sentido, uma pessoa pode ser livre mesmo dentro de certos limites.
Por exemplo, você não escolheu onde nasceu, quem foram seus pais ou muitos acontecimentos da sua vida.
Mas pode escolher como interpretar essas experiências, quais valores cultivar e quais caminhos seguir a partir delas.
Há uma frase frequentemente atribuída ao psiquiatra e escritor Viktor Frank que expressa essa ideia: entre o que nos acontece e a nossa resposta existe um espaço, e nesse espaço reside a nossa liberdade.
Portanto, volto à questão de que se sentir realmente livre ou não é uma concepção individual.
Para uma pessoa, atingir o ápice da independência financeira pode fazê-la sentir-se a pessoa mais livre do mundo, pois, ao sair da condição de um trabalhador assalariado, ela deixa de prestar contas a diversas pessoas.
Para outra, pode ser deixar a casa dos pais para viver sozinho ou encerrar um relacionamento tóxico.
No fundo, a pergunta “alguém pode ser realmente livre?” Talvez não tenha uma resposta definitiva.
Mas ela nos obriga a investigar outra questão: o que exatamente impediria a liberdade total?
A mortalidade?
O corpo?
A causalidade?
Ou o simples fato de existirmos em um mundo compartilhado com outras pessoas?
Mônica Becker Dahlem é publicitária, jornalista, escritora. Barbara, Frida, Caderno Literário Ajuris, Casos de Sucesso SEBRAE.
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