
Em retrospectiva, concluo que sempre fui um pouco controladora. Desde criança gostava de comandar: minha prima Clarinha me conta que, quando brincávamos de Barbie na casa dela, sempre assistindo a um DVD dos Beatles, o Ken representando Paul McCartney tinha que ser meu namorado (apesar de ela também querer), senão, em protesto, eu abandonava a brincadeira. Não negociava.
Depois que minha mãe morreu, minha característica controladora se cristalizou e, com certeza, tomou maior proporção. Como não pude impedir o meu trágico destino materno, me apeguei a tudo que estava em meu alcance e que eu pudesse tomar as rédeas. Vinte e cinco anos depois, meu marido reclama que tenho a necessidade de controlar tudo ao meu redor. Ele não está errado.
Não acho nobre ter esse traço de personalidade, e inclusive admiro quem é totalmente desligado e não se importa muito com nada. Eu, no entanto, levo a vida a sério demais. Às vezes me canso de ser assim, mas não sei ser de outra forma (apesar de sempre tratar em terapia e tentar ao máximo ser mais desapegada). Compreendo que é uma forma de defesa, tentativa de prever o futuro para não me machucar, mas qual o sentido de sofrer, tentar resolver uma situação no presente que ainda não se concretizou? Sair de uma sessão de terapia com a resolução de largar um pouco o controle e, na semana seguinte, já estar de volta com um novo plano de contingência para algo que ainda não aconteceu (e talvez nunca aconteça): bem-vindos ao meu mundo.
Ao mesmo tempo, tenho plena consciência de que, na verdade, não temos o menor controle sobre absolutamente nada. Nem mesmo sobre como nos sentimos em determinada situação, ou sobre determinada pessoa. Quanto menos sobre o outro, sobre o mundo, sobre a vida… sobre a morte…
O que me consola em relação a isso é a fé. Não sou religiosa: fui criada como católica, mas tive algumas decepções com a igreja. Fui buscar respostas em outros lugares: me interessei pelo budismo, pela umbanda, pelo espiritismo, pelas bruxas. Nunca encontrei uma tradição com a qual eu concordasse com absolutamente tudo, ou que me tocasse a alma de maneira definitiva. Mas sou muito espiritual. Acredito com todo o meu coração em uma força maior, acredito no poder da nossa mente, na soberania do amor. Quando as coisas fogem do planejado, e elas fogem sempre, me apego à ideia de que tudo ocorre da forma que tem que ocorrer. Sei que toda a sorte e a magia que me rodeiam se originam dessa força, que há quem chame Deus, há quem chame Universo, há quem chame Luz.
De vez em quando, a vida acelerada me desconecta dessa ideia, e esqueço de confiar. Nesses momentos, me sinto pequena, descrente, desesperançosa com o rumo do mundo, e tentar controlar o que está ao meu alcance é a única forma que encontro de sentir algum poder, alguma utilidade. Daí, algo inusitado acontece, afinal, c’est la vie, e me lembro. Acho que as pessoas que não creem em absolutamente nada devem levar uma vida tão mais… difícil.
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