
Começou a campanha eleitoral oficialmente. E, com ela, a poluição visual, as avenidas cheias de wind banners, aquelas peças altas de tecido fixadas em uma haste flexível com uma base no chão, feitas para balançar com o vento. Eu me sinto agredida ao me deparar com tanta propaganda de um mesmo candidato. E, o pior: a maior parte são caras conhecidas, que defendem interesses de alguns, ou são profissionais da má política.
Inicio com esse desabafo, para justamente propor um roteiro para trazer um certo conforto, alívio, para o momento. Minha intenção é promover uma iniciativa que merece ser valorizada, diante desse caos urbano e planetário em que estamos inseridos. Sim, precisamos encontrar alternativas para sobreviver em meio a tantas insanidades que andam nos rondando.
A sugestão é conferir a mostra Lutz 100 Anos – Uma Homenagem Poética, uma exposição de arte comemorativa ao centenário de nascimento de José Lutzenberger (1926-2002) no Memorial do Ministério Público do Rio Grande do Sul.
E não demore para conferir, pois abriu no dia 13 de agosto e vai só até 11 de setembro. A curadoria é do professor Francisco Alves, que tem uma vasta experiência nesse universo das artes e é um dos poucos instrutores do quadro do Atelier Livre Xico Stockinger ainda na ativa, mas prestes a se aposentar (viva o Atelier Livre Municipal, mas isso é assunto para outra coluna, pois também já muito frequentei aquele espaço sagrado).
Esta é a terceira exposição do Coletivo Nau, que oferece várias provocações e trabalhos que nos fazem refletir sobre as tantas questões levantadas pelo ecologista no século passado. Aliás, aquele contexto do tempo do Lutz merece muita reflexão, se comparado ao momento presente.
O grupo teve a oportunidade de vivenciar, no seu processo criativo, imersões na obra escrita, nas ações práticas e nos legados de Lutzenberger. Os artistas visitaram o Rincão Gaia, em Pantano Grande, e a antiga residência Lutzenberger, na Rua Jacinto Gomes, em Porto Alegre.
A iniciativa é mais que louvável. Necessária, importante, por vários motivos. Há muita gente que precisa conhecer a história do Lutz e também daquela turma dos primórdios da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), que marcou época. Tive o privilégio de entrevistá-los em diversas ocasiões. Outra justificativa é promover o encontro do ativismo com a arte, proporcionar formas de chamar a atenção para o quanto temos avançado e retrocedido nessa pista de dança do Antropoceno.
Fiquei encantada também com a proposta de mostrar os livros editados em outros idiomas para ressaltar o quanto o Lutz foi um sujeito de visibilidade internacional, que hoje a juventude desconhece. Ele esteve envolvido em tantas, tantas coisas, da preservação da Amazônia ao combate aos agrotóxicos, da criação do Parque da Guarita em Torres até a criação da empresa Vida, que transforma rejeito de indústria em adubo. Ele foi o “cara” que articulou nos bastidores para que o Brasil sediasse a Rio 92, a grande Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente, em que vários acordos e documentos importantes foram assinados, um marco na história mundial.
Lutz trabalhou muito naquele momento, conseguiu criar várias Unidades de Conservação, entre elas o Parque Nacional da Serra Geral, onde fica o cânion Fortaleza, e também a demarcação da Área Indígena Yanomami em Roraima.
Estou dando alguns exemplos para que tenhamos noção do quanto precisamos honrar trajetórias como a do Lutz. Assim como ele, há outras pessoas que merecem mostras similares, entre elas a Magda Renner e o Augusto Carneiro. Sem elas, não estaríamos desfrutando de avanços civilizatórios, inclusive árvores na cidade. O Carneiro foi um ativista ferrenho pelo verde no espaço urbano.
Convivi muito com o Carneiro, que era o cara que pavimentou muitas vezes o caminho para o Lutz brilhar. Sem falar que o Carneiro era uma verdadeira rede de difusão dos textos do Lutz. Tenho várias cópias de xerox ainda do tempo em que o Carneiro as agilizava e as distribuía por onde passava, principalmente na feira orgânica do Bom Fim. Ele foi um precursor da distribuição de informações, numa época em que nem se falava de que existiria algo como a internet.
Mas, voltando ao Lutz, tive o privilégio de ir ao Rincão Gaia em alguns dos seus aniversários. Ele nasceu em 17 de dezembro, data em que foi batizado o Dia do Bioma Pampa. Que experiência magnífica era visitar aquele lugar quando ele estava agitando por lá. Era um laboratório vivo para inovações, um jardim botânico, com espécies de suculentas, cactos, plantas carnívoras, entre tantas outras coisas. Estive em algumas atividades lá, mas não tenho frequentado nos últimos tempos.
Coletivo Nau
Voltando ao coletivo Nau, não posso deixar de citar quem faz parte dessa iniciativa, que conta com mais de 70 trabalhos, uma profusão criativa em várias linguagens artísticas. Graças a um release consistente, aí vão informações sobre quem faz parte do grupo.
Biba Farret. Ceramista e ilustradora. São exibidos nove conjuntos de esculturas cerâmicas com temáticas ecológicas, destacando a flora e fauna: Conjunto Jardins do Lutz, Coevolução, Conjunto Sinfonia de Aves, Conjunto Fauna e Flora. Nicho Branco/Extinção, Novo.
Cris Gross. Arquiteta de formação. Apresenta 12 peças, entre conjuntos e obras. Tem produzido no Atelier Livre Xico Stockinger e em seu ateliê esculturas com madeira de demolição e de poda urbana, cerâmica de baixa e de alta temperatura com detalhes em cobre e outros metais.
Gisele Federizzi. Autora e ilustradora de livros infantis, produz também em escultura e pintura. Apresenta nove trabalhos em proposta e objetos. Em sua linguagem, explora livros, tintas e telas, metal, brinquedos e objetos plásticos pequenos, cimento e barbantes.
Lilia Azzi. Artista visual, tem produzido a partir do Atelier Livre em várias linguagens. Na exposição, exibe cinco trabalhos em escultura e fotografia. As esculturas são produzidas em concreto celular, terracota modelada e patinada, em madeira (tronco de cedro-rosa) e uma série fotográfica com registros de superfície de troncos de araucárias, captadas com smartphone e impressas em fine art.
Luis Carlos Macchi. Arquiteto e escultor. Expõe dez esculturas realizadas em concreto celular como suporte ou base para inserção e combinação de elementos de madeira, como troncos e galhos de árvores. Há peças entalhadas e polidas, cuja figuração resulta do entalhe do material ou da junção de elementos.
Sílvia Degrazia. Artista visual, ceramista. Apresenta um conjunto de dez esculturas cerâmicas, modeladas e enriquecidas por incisões, perfurações, relevos aplicados e texturas de caráter orgânico, em diversas técnicas contendo chamote, engobes, óxidos e esmaltes coloridos de acabamento predominantemente brilhante. As peças revelam uma exploração autoral das qualidades plásticas, cromáticas e táteis da cerâmica. Duas fazem o uso de luz por lâmpadas.
Rita da Rosa. Artista visual. Expõe 15 peças em linguagens gráficas como desenho, xilogravura e monotipia, que exploram as flores, folhas, gramíneas e suas formas, relacionadas à observação direta e à preservação da natureza nativa que nos rodeia.
Saiba mais sobre o Lutz
Para encerrar, faço outro convite para você acompanhar a live e conhecer melhor o Lutz:
José Lutzenberger, 100 anos – A coragem de dizer o que ninguém queria ouvir, com a participação da Profa. Dra. Ilza Girardi, da Fabico/UFRGS, criadora da primeira disciplina de jornalismo ambiental do Brasil, e do Prof. Dr. Paulo Brack, da Botânica da UFRGS, dia 27 de agosto, quinta-feira, das 17h30min às 19h.
A atividade é gratuita e ficará gravada. Será fornecido certificado a quem se inscrever e, no dia do evento, assinar a presença por meio do formulário disponibilizado durante a transmissão pelos links do YouTube e do Facebook.
A promoção é do Instituto Humanitas Unisinos. Inscrições e mais informações AQUI.
Todos os textos de Sílvia Marcuzzo estão AQUI.
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