
“Tenho saudade da minha mãe / fazendo doce de figo. / O cheiro da calda de açúcar com cravo e canela / preenchia a casa toda e curava qualquer tristeza.”
Adélia Prado
Há dias em que o mundo lá fora parece conspirar contra a delicadeza. As notícias chegam pesadas, carregadas de sobressaltos políticos, guerras distantes, a natureza descompassada em mudanças climáticas e a promessa incerta de tempestades que fecham o céu. É o inverno da alma, esta estação cinzenta em que a ausência dos que já partiram nos pesa mais nos ombros e a saudade vira uma espécie de frio constante, lembrando-nos de que a existência, sem eles, perdeu um pouco do abrigo.
Mas a casa ganha vida quando uma criança corre nela.
Na urgência de quem recém descobriu que o corpo pode voar, a neta dobra a esquina do corredor rápido demais. O baque surdo contra a quina da porta suspende o tempo. O choro alto, o sangue que assusta na pele delicada, a corrida à emergência e a agonia de ver a pequena testa receber sete pontos de sutura. O peito dos adultos se contrai inteiro num aperto antigo.
No entanto, a inocência tem uma teimosia bendita. Pouco depois de a gaze ser fixada e das lágrimas secarem na bochecha quentinha, a menina descobre o curativo no espelho, sorri com orgulho e já quer voltar a correr. Não há espaço para o rancor contra a porta, nem medo do amanhã. A criança é o próprio ciclo da vida se refazendo; ela tropeça, sangra, chora, mas se levanta com uma capacidade quase divina de rir do próprio tombo e continuar.
É a infância nos ensinando que a vida quer vigorar.
Nesses momentos, a memória busca socorro em dias distantes. Volta a figura da mãe — outra Adélia que também apreciava o doce de figo e conhecia o remédio exato para o sobressalto do coração. Bastava o sopro suave no machucado e as palavras murmuradas na língua dos antepassados do Hunsrück, um acalanto trazido de muito longe para atravessar gerações:
Heile, heile, Katzendreck,
Morgen früh ist alles weg.
Um pequeno mantra de amor que prometia que, na manhã seguinte, “tudo iria embora”. E ia. Não porque a dor desaparecesse como mágica, mas porque aquele abraço encharcava a casa de uma certeza inabalável.
Essas lembranças, assim como o pote de compota esquecido no armário, tornam-se santuários. A calda densa, perfumada com cravo e canela, guarda dentro do vidro a luz do verão, a paciência da fruta no fogo e a mão afetuosa que sabia adocicar a vida. As palavras igualmente ditas com ternura pacificam.
As catástrofes passam, as grandes angústias murcham e o riso de uma criança com sete pontos na testa nos devolve ao essencial. E, como se para selar essa aliança com o tempo, lá fora o jasmim-dos-poetas começa a florescer sobre a cerca, rompendo o cinza dos dias para invadir o universo com o seu perfume denso e teimoso.