
No Dia dos Pais – domingo, 9 de agosto – lembrei muito do meu pai e do meu avô materno, com quem fui criada. Reeditei memórias incríveis das nossas conversas, observações que eles faziam e que me ensinaram muito na adolescência. Tanto que repercutiram vida afora, na juventude e na maturidade.
– Uma vez, comentando com meu pai, Nestor da Silva Teixeira, atitudes de algumas pessoas com quem convivíamos e que não me agradavam porque me pareciam grosseiras, ele respondeu com muita firmeza: “Minha filha, as pessoas não são parelhas”.
– Em outra ocasião, ouvindo meu avô materno, Juvenal de Oliveira Lopes, que também foi um pai para mim, mais um aprendizado: “Não morem em encosta de morro porque um dia o morro pode desabar e nem em beira de rio porque o rio pode extrapolar as margens”.
Sabedoria e simplicidade de mãos dadas. Olhos voltados para as pessoas, para as diferenças, para o meio ambiente e para a nossa ancestralidade. Vozes de duas pessoas atentas e solidárias que viviam no interior – um em Jaquirana, o outro numa fazenda perto de Cambará do Sul e, mais tarde, todos em São Francisco de Paula. Naturalmente, acompanhados por mulheres fortes, minha mãe, Coralia, e minha avó, Sinhá, sensíveis e muito parceiras, sempre atentas. Faróis que iluminaram os caminhos que se abriam na minha vida, na vida dos meus irmãos e dos primos com quem convivíamos.
Já falei muito sobre isso, mas é importante voltar a falar. Ter duas filhas com nanismo não foi motivo para impedir que elas seguissem a vida com naturalidade. Os pais sofreram quando ficaram sabendo, é claro, mas encararam o problema, foram em busca de um médico em Porto Alegre e seguiram o principal conselho dele: “As meninas têm nanismo, o que não é um impedimento para seguir. Elas têm saúde e disposição, nada que as impeça de aprender. São inteligentes. Coloquem na vida”. Jamais nos esconderam. Marlene e eu fomos para a escola, enfrentamos o que tínhamos que enfrentar porque o preconceito reverberava e assustava, mas tínhamos uma rede de apoio forte que vinha da família e da legião de primos.
E assim a vida se descortinou!
Nessa caminhada, em muitos outros momentos, o pai mostrou quem era. Não entrava em conversas preconceituosas e, quando necessário, defendia os sobrinhos com muita naturalidade. Quando viemos morar em Porto Alegre, no início dos anos 1970, rumores em São Chico diziam que as filhas e algumas sobrinhas que moravam com elas eram “maconheiras”. O pai não teve dúvidas. Um belo dia bateu na porta do apartamento onde morávamos e foi direto ao assunto. Nossa resposta: “Não fumamos maconha”. Convivíamos, sim, com pessoas que fumavam, mas nunca fumamos. Assunto resolvido.
E assim ele e a mãe acolhiam nossos amigos e suas diferenças. Portanto, “ser gauche na vida” nunca foi problema. Virou até uma brincadeira minha e da Marlene quando tínhamos algum compromisso que certamente ia nos expor: “Estou bem para enfrentar os olhares críticos do povo?” Era a pergunta que fazíamos uma para a outra. E lá íamos nós com o propósito de dar conta da vida pessoal e profissional, sempre de mãos dadas com a arte. E o “Poema de Sete Faces”, de Carlos Drummond de Andrade, nos representava: “Quando nasci / um anjo torto / Desses que vivem na sombra / Disse: Vai, Carlos! Ser gauche / Na vida“. Fomos!