
Comecei a trabalhar aos doze anos. Antes dos quatorze, lembro de uma conversa com a Gorete, uma amiga que morava na minha rua. Queria entender como ela tinha conseguido um emprego de empacotadora em um supermercado e o que eu precisava fazer para conquistar o meu primeiro trabalho com carteira assinada. Precisava daquele dinheiro para comprar roupas novas, um tênis e outras despesas básicas. Sem perceber, já começava a tecer o meu caminho em busca de autonomia, respeito e reconhecimento.
Durante muitos anos, medi o meu valor pela capacidade de produzir e assumir responsabilidades. Demorei para perceber que precisava muito mais.
Os últimos anos, empreendendo, têm sido uma verdadeira viagem de autoconhecimento. E não falo apenas sobre abrir um CNPJ, conquistar clientes ou aprender a vender. Empreender tem sido, sobretudo, descobrir quem eu sou quando deixo de tentar corresponder às expectativas dos outros.
Há dias em que me sinto como se estivesse em uma selva, com um facão na mão, abrindo uma trilha onde ninguém passou antes. Pode parecer exagero, mas cada cliente conquistado é mais um trecho do caminho que finalmente aparece. Cada projeto entregue é a confirmação de que valeu a pena continuar, mesmo quando tudo parecia mata fechada.
No Julho das Pretas, mês de reverência às mulheres negras, olhei para as milhares de mulheres negras que empreendem no Brasil e vi que tocar o próprio negócio exige estratégia, mas também significa enfrentar desafios estruturais. Mulheres negras empreendem com condições muito diferentes das demais. Um levantamento recente do Sebrae mostra que o nosso faturamento, em média, é 59% menor do que o dos homens empreendedores brancos.
Ainda assim, nenhuma estatística consegue medir a potência que surge quando uma mulher deixa de tentar se encaixar e passa a construir um caminho com autenticidade. O desejo de reconhecimento, de validação, de pertencimento não pode vir do outro, pois, sem perceber, acabamos vestindo máscaras para receber aplausos, curtidas e aprovação.
Será que essa busca incessante pela excelência não esconde, muitas vezes, a necessidade de provar que merecemos estar ali?
Empreender me mostra que o meu diferencial não está na perfeição. Está justamente naquilo que me torna única: a minha história, a minha experiência, o meu olhar sobre o mundo. Percebi que empreender não é apenas criar um negócio. É criar um espaço onde eu não precise esconder quem sou. Hoje, percebo que a minha voz está justamente na minha forma de me comunicar, em transformar histórias em pontes: entre pessoas, causas e oportunidades.
Que outros caminhos ainda vou percorrer? Não sei. Mas, em tempos de Inteligência Artificial, tenho aprendido que aquilo que vivi, as escolhas que fiz e o repertório que construí ao longo da vida continuam sendo o que faz diferença. É desse lugar que surgem as decisões cotidianas que, pouco a pouco, vão costurando o meu caminho.
Enquanto escrevia este texto, acompanhava a previsão de chuvas intensas no Rio Grande do Sul. Vivi a enchente de 2024 e o medo de passar por isso novamente me persegue. Lembro até hoje do mês em que fiquei fora de casa. Uma mala com algumas roupas, o notebook na mochila e o acolhimento de amigos, familiares e desconhecidos que voluntariamente limparam minha casa, para que pudesse reconstruir tudo novamente. Talvez seja por isso que hoje eu tenha plano B, plano C e, às vezes, até plano D. Eles dividem espaço com planilhas, clientes, boletos e projetos.
Empreender também é aprender a continuar quando a vida muda de rumo de uma hora para outra. De reflexão, fica que continuo me encontrando e desejo que cada empreendedora consiga ser inteira, realize seus objetivos, conquiste seus sonhos, sem precisar diminuir sua história para caber em lugar algum. Que cada uma de nós tenha a coragem de construir um caminho onde a sua voz tenha espaço para existir.
Todos os textos de membros da Odabá estão AQUI.
Paula Martins é jornalista, estrategista de comunicação, especialista em diversidade e inclusão e associada da Odabá Afroempreendedorismo, com mais de 20 anos de atuação em comunicação, terceiro setor e em iniciativas de impacto. À frente da Mkt de Causas, trabalha para fortalecer organizações e empreendedores por meio da comunicação e do marketing digital, gerando visibilidade e negócios. Redes sociais: @mktdecausas @soupaulamartins