
Nem toda manipulação se constrói sobre mentiras. Muitas vezes, ela acontece quando alguém apresenta os fatos de uma forma que favorece apenas a sua versão.
Em Dom Casmurro, Bentinho tenta convencer o leitor de que foi traído por Capitu e Escobar. Como toda a narrativa passa por seus olhos, nunca sabemos ao certo o que realmente aconteceu. Essa é uma das formas mais sutis de manipulação: influenciar a percepção do outro sem alterar os fatos.
Fora da literatura, manipuladores raramente se apresentam como pessoas autoritárias ou ameaçadoras. Com frequência, surgem disfarçados de amigos atenciosos, colegas prestativos ou indivíduos aparentemente preocupados com o nosso bem-estar.
Foi assim que ela entrou na minha vida.
Veio ao meu encontro gesticulando e falando alto, como se já me conhecesse há muito tempo. Sabia o meu nome, de onde eu vinha e até o motivo que me fazia estar ali. Disse ter ouvido falar de mim por uma amiga em comum, que lhe contara sobre os meus textos e os meus livros publicados. Nada sobre a profissão que exerço há quase trinta anos, o verdadeiro motivo da minha presença naquele lugar.
Aos poucos, foi me instigando a falar mais de mim, enquanto compartilhava fragmentos da própria vida e da vida alheia. Eu chegava fragilizada naquele novo ambiente. Não escondia a indignação pelas situações que considerava injustas e que me haviam levado a uma mudança tão radical.
Ela dizia compreender exatamente o que eu sentia. Também se considerava desvalorizada na instituição onde trabalhara anteriormente e, assim como fez comigo, aproximava-se de outras pessoas que carregavam frustrações semelhantes.
Exaltava tanto a minha escrita que parecia ter lido tudo o que eu havia produzido até então. Ressaltava minhas qualidades, colocando-me quase em um pedestal. Às vezes me fazia acreditar que eu não estava bem quando, na verdade, estava apenas cansada e desejando ficar em silêncio. O mesmo fazia com outras pessoas, especialmente com a chefe, de quem se tornou grande amiga.
Com o passar do tempo, alguns colegas passaram a ocupar o lugar de inimigos em suas histórias. Ela criticava qualquer atitude deles e relatava supostos planos e intenções com a convicção de quem conhecia todos os bastidores. Eu, que pouco me relacionava com aquelas pessoas, acreditava em suas palavras e passei a enxergá-las através do filtro que elas me ofereciam Nas poucas vezes em que eu tentei defender algum deles, ela vinha de novo com o argumento de que eu era pura demais para ver a maldade nos outros.
Somente mais tarde comecei a desconfiar. As histórias que ela contava raramente coincidiam com a impressão que eu formava ao conversar diretamente com aqueles a quem ela julgava rivais. Também percebi que seus elogios sempre vinham acompanhados de críticas dirigidas a alguém ausente. Quanto mais refletia, mais compreendia que a amizade oferecida com tanta intensidade tinha um preço, e, sem que eu notasse, ela havia se tornado a principal intérprete do mundo ao meu redor.
A descoberta veio acompanhada de vergonha. Passei a me perguntar em que momento deixei de confiar nas minhas próprias percepções para adotar as dela. Não foi fácil encontrar a resposta. Ela sabia exatamente o que dizer para quem se sentia deslocado. Aproximava-se das pessoas em seus momentos de fragilidade, oferecendo escuta e apoio. Em troca, conquistava confiança e passava a ocupar um lugar privilegiado na análise dos fatos.
Quando me dei conta disso, já não importava descobrir quantas histórias eram verdadeiras ou falsas. O estrago estava em outro lugar. Eu havia permitido que alguém interferisse na minha forma de enxergar os outros e a mim mesma, e isso me empurrou para baixo de tal forma que, para sair deste lugar, eu precisei me afastar e só retornar depois que já estivesse fortalecida e preparada para lidar com a situação.
O manipulador se aproveita da fragilidade do outro e, quando estamos vulneráveis, é fácil enxergar o mundo pelos olhos de outra pessoa. E foi exatamente isso que aconteceu comigo. Eu gostaria de dizer que aprendi a lição e que jamais passarei por isso novamente, mas não tenho essa certeza. A minha mania de acreditar na humanidade nunca foi capaz de me proteger de nenhum perigo.
Quanto ao Bentinho, não esqueço que sua própria mãe tentou decidir os rumos de sua vida muito antes de Capitu entrar em cena. Não surpreende que alguém acostumado a viver sob a influência dos outros passasse a vida tentando controlar a versão dos acontecimentos.
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