
Há uma sabedoria secreta partilhada entre os que dedicam a vida à literatura e os que dividem os dias com os gatos. Ambos habitam o terreno do silêncio, da observação atenta e da independência afetiva. Talvez não por acaso, quando a professora e crítica literária Léa Masina me convidou a colaborar no livro Guia de Leitura: 100 autores que você precisa ler, publicado pela L&PM Editores, minha escolha imediata foi debruçar-me sobre o lendário Mark Twain. Naquele texto, descrevi o autor sob a ótica biográfica, explicando como o famoso pseudônimo de Samuel Clemens veio de seus tempos como piloto de barco no Mississippi: “Mark Twain” era o grito que anunciava a marca de duas braças, a profundidade mínima e segura para navegar.
Mas, se lá busquei explicar a precisão náutica daquela jornada, nesta crônica escolhi navegar pelas águas mais íntimas e sutis do autor. Pois, para além das letras e da profundidade de caudais vivenciados, Twain partilhava com a nossa querida professora Léa uma paixão mística, terna e declarada: a reconhecida fama de ser um ‘gateiro’ convicto.
As histórias de bastidores se cruzam no tempo através do afeto felino. Enquanto a professora Léa costuma encantar suas oficinas com as memórias do célebre Mia Couto — um imponente Maine Coon, raça conhecida como a dos ‘gigantes gentis’ — e hoje convive com os felinos Léon e Igor reinando em seu apartamento, Mark Twain comandava uma verdadeira corte em seu próprio tempo. Para Twain, os gatos possuíam uma dignidade monárquica. Ele chegou a abrigar dezenove deles simultaneamente, batizando-os com pompa e ironia: Belzebu, Apollinaris, Satanás e Pestilência eram alguns de seus companheiros. Sua devoção era tamanha que, nos verões em que viajava, Twain costumava ‘alugar’ gatinhos locais, devolvendo-os com uma quantia generosa para garantir que fossem bem tratados pelo resto de suas vidas. “Eu sempre dou precedência à realeza”, justificava, ao abrir a porta para os pequenos seres.
Foi em 1905, aos sessenta e nove anos, que essa paixão testou os limites do coração do escritor. Vivendo numa casa da Quinta Avenida, em Nova York, Twain enfrentava uma correnteza difícil: o luto pela perda de sua esposa, Olivia, e a dor antiga da partida da filha mais velha, Susy. Naquela penumbra, um período em que ele não via razão para escrever, a vida insistia em pulsar através de Bambino, um gato que pertencia à sua filha do meio, Clara, uma jovem de trinta e um anos. Enquanto Clara viajava, tentando firmar sua voz como cantora lírica, Bambino ficava sob os cuidados de seu pai. O animal operava um milagre silencioso; ele não exigia o humor sagaz do escritor, apenas oferecia o calor de seu corpo como um lembrete sutil de que ainda havia pelo que zelar.
Até que, numa manhã de primavera, Bambino desapareceu.
O vazio daquela ausência empurrou Twain de volta ao papel. Ele redigiu um apelo literal, publicado nos jornais nova-iorquinos, que traduzia em linhas poéticas o tamanho do seu apego: “Perdeu-se um gato – cinco dólares de recompensa para quem o devolver a Mark Twain, nº 21 da Quinta Avenida: grande e intensamente preto; pelo espesso e aveludado; tem uma linha tênue de pelos brancos no peito; não é fácil de encontrar sob luz comum.”
A sensibilidade do anúncio comoveu Nova York. Nos dias seguintes, a Quinta Avenida testemunhou um desfile de cidadãos carregando felinos de todas as nuances de preto, a maioria movida apenas pelo desejo de devolver o sorriso ao admirado escritor. Aquela inesperada mobilização, repleta de sósias errados, transformou a melancolia de Twain em uma doce e calorosa distração.
Três dias depois, Bambino foi encontrado no quintal do vizinho.
Ao ser trazido de volta, o reencontro desenhou uma imagem quase pictórica. Quando Twain aninhou o companheiro nos braços, o pelo intensamente preto e aveludado de Bambino contrastou caprichosamente com a vasta cabeleira branca e desalinhada do escritor, como a noite que se recolhe sob a névoa. Naquele instante, houve um encontro de olhos brilhantes: as pupilas douradas do gato fitando o olhar arguto e infinitamente terno de Samuel. Ali, a literatura silenciou.
Ao segurar Bambino contra o peito, Twain redescobriu que, mesmo sob a luz comum dos dias difíceis, a ternura sempre encontra um jeito de voltar para casa.
Uma certeza que qualquer gateiro traz no peito — e que a própria Léa Masina conhece bem.
Mas, por mais que Léon e Igor governem o apartamento com sua graça felina, eles sabem que perdem em reverência apenas para um ‘gato’ ainda maior, também em tamanho e em gentileza: o eterno príncipe Renato, o verdadeiro soberano daquele lar.