
Conta-se que Madre Teresa de Calcutá, certa feita, foi indagada se não temia pela dimensão infinitamente reduzida de seu trabalho diante das extremas calamidades, no caso específico, da fome, que assolava o mundo. Pelo dito, sua resposta foi: “O que eu faço é uma gota no meio de um oceano. Mas, sem ela, o oceano será menor”. A frase pode sinalizar um certo conformismo individualista do tipo “faço o que posso e isso basta” e, ainda, pode soar como a suprema negação da militância coletiva, visto que cada um pode, a seu modo, compensar o oceano. Todavia, não creio que uma mulher que deixou um extraordinário legado, bordando as ruas de Calcutá com leprosários, clínicas, escolas e obras sociais diversas tenha apostado num assistencialismo romântico. Concebo que a missionária, ao arregimentar seguidoras e enfrentar adversidades absurdas no intento de minorar a fome de seu povo, deixou-nos um testemunho de solidariedade coletiva, atuando na base da sociedade. Ela nos convoca a uma ação transformadora. Mais do que uma defesa do esforço individual, a frase pode ser compreendida como um chamado à ação coletiva e solidária, capaz de produzir transformações concretas mesmo em contextos marcados por profundas desigualdades.
É nessa perspectiva que se insere a Orquestra Criança Cidadã (OCC), que completa vinte anos de atuação no Recife. Nascida no bairro do Coque, um dos territórios historicamente mais vulneráveis da capital pernambucana, a iniciativa tem demonstrado como a educação musical, articulada a ações de apoio social e educacional, pode ampliar horizontes de vida para crianças e jovens. Em tempos nos quais a necessária luta por mudanças estruturais muitas vezes convive com a urgência das demandas humanas imediatas, a experiência da OCC constitui um testemunho eloquente. Demonstra que a arte, a educação e o compromisso coletivo podem produzir esperança, cidadania e transformação social. Por isso, quero oferecer minha homenagem reflexiva à OCC, que completa, nesse dia 25 que se avizinha, vinte anos de pleno funcionamento.
Não são raras as ocasiões em que nos furtamos a adjetivar de modo negativo iniciativas dirigidas às comunidades e pessoas vulneráveis, buscando atenuar seu sofrimento. É aquela antiga história que tanto escutei em meus idos juvenis: ensinar a pescar. O peixe deve ser uma conquista. Isso nos diziam os politicamente mais corretos e convictos de uma esquerda capaz de produzir um amanhã reluzente para todos. Estou com mais de sessenta anos. Continuo lutando e sonhando com esse mundo menos estruturalmente injusto. Ele não chegou! E daí?
Portanto, apesar das frequentes reclamações de que existem obras sociais que transferem para os indivíduos toda a responsabilidade pela mudança social, o que é incorreto diante das demandas por mudanças sistêmicas, é importante reconhecer que situações extremas requerem medidas extremas, e tais medidas só podem ser alcançadas por meio da mobilização coletiva de grupos sociais, enquanto o país clama em suas bordas pela dor, sofrimento e apagamento dos empobrecidos. Mas é aquela coisa, vamos transferir as técnicas para o cozimento do peixe. Quem acompanha meus artigos sabe o quanto preconizo a imperiosa necessidade de nos mobilizarmos como sociedade e, certamente, escutaram minha descrença de que algo genuinamente transformador e verdadeiro possa emergir no mundo capitalista. Todavia, o que fazer “enquanto seu lobo não vem”?
Esta pergunta: “O que fazer?” foi objeto do prospeto famoso elaborado por Vladimir Lênin (1902). Nele, o líder revolucionário postula que a consciência socialista carece de análise teórica e estratégia profunda. Certamente há quem concorde que o russo logrou algum êxito, mas promoveu lamentáveis desacertos. A assertiva é importante, pois os cenários de desamparo e vulnerabilidade social podem, em algumas ocasiões, atar-nos as mãos e cegar-nos o esperançar.
A comunidade do Coque ocupa posição paradoxal na malha urbana recifense. Localizada na Ilha Joana Bezerra, a aproximadamente 2,5 km do centro da cidade e 3,5 km de Boa Viagem – os dois polos econômicos mais importantes da capital –, o bairro situa-se na passagem central entre zonas de intensa valorização. Nos arredores imediatos, concentra-se o maior polo médico-hospitalar privado de Pernambuco. Esta proximidade com áreas altamente valorizadas configura expressão característica da segregação socioespacial urbana brasileira, na qual precariedade habitacional e concentração de renda coexistem em espaços contíguos.
Segundo dados censitários anteriores, dos 3.275 domicílios sem renda, quase 2.000 não possuíam atendimento sanitário adequado, utilizando mecanismos rudimentares para escoamento de dejetos ou simplesmente não dispondo de qualquer sistema de esgotamento (IBGE, 2000). Entre os domicílios com alguma renda, aproximadamente 5.000 recebiam até um salário-mínimo e cerca de 3.000 recebiam até dois salários-mínimos (IBGE, 2000).
Em tal contexto, crianças e adolescentes crescem num ambiente cuja escola da vida lhes prepara para uma existência de absoluta incerteza e marginalidade. Estão vulneráveis e abandonadas, tornando-se presas suscetíveis de toda sorte de manipulação para com as drogas e a bandidagem. O show da vida seria para eles a violência, o encarceramento e a morte precoce.
Fundada em 25 de julho de 2006, no Recife, a Orquestra Criança Cidadã (OCC) é uma iniciativa de educação musical não formal idealizada pelo juiz de Direito João José Rocha Targino, sob incentivo do desembargador Nildo Nery dos Santos. A Orquestra já recebeu mais de 30 prêmios nacionais e internacionais por sua iniciativa de transformar realidades infanto-juvenis pela mediação da arte e inclusão social, com o intuito de prover uma vida digna a crianças da comunidade do Coque. As centenas de crianças atendidas pelo projeto – sempre no contraturno escolar – são beneficiadas, também, com serviço de atendimento psicológico, médico, odontológico, aulas de inclusão digital e apoio pedagógico, além de fardamento e três refeições diárias.
“Por meio da disciplina e da apuração da sensibilidade despertada pelo ensino musical, os alunos do projeto – assim trabalhamos para tal – chegam a um patamar em que podem tocar em eventos de toda espécie, formar grupos, estudar para concursos públicos e, no caso dos alunos de luteria e arqueteria, montar suas próprias oficinas de confecção de instrumentos e arcos”, diz Dr. Targino. “Não fosse pelo projeto, jovens como Antonino Tertuliano, contrabaixista residente em Israel há cinco anos, ou João Pedro Lima, violinista estabelecido em Lisboa há três, talvez não tivessem ampliado os horizontes de vida.” (Brasil de Fato, 23/11/2021). Na verdade, os meninos e meninas da OCC já vão saboreando o peixe enquanto aprendem a fazer uma boa pescaria.
Nietzsche enfatizou o caráter educativo e transformador da arte, não só no sentido de afirmação da vida, mas também de ressignificar o sofrimento e criação de valores. Para o filósofo, “sem a música, a vida seria um erro, uma tarefa cansativa, um exílio” (Crepúsculo dos Ídolos, 1889). Recordamos, também, os frankfurtianos na visão da potência emancipatória e crítica da educação. Benjamin e Adorno advogavam a possibilidade de a arte mediar a superação da passividade, promovendo a consciência sobre a realidade social. Anotem o testemunho atribuído ao célebre compositor e pianista húngaro Franz Liszt: “A música é o coração da vida. Através dela fala o amor; sem ela não há bem possível e com ela tudo é belo”. Sobre a obra de arte, Frida Kahlo confabulou: “A revolução é a harmonia da forma e da cor, e tudo está e se move sob uma única lei: a vida. Ninguém se aparta de ninguém. Ninguém luta por si mesmo. Tudo é tudo e um”.
Como não ficar emocionado testemunhando o empenho e a alegria daqueles meninos e meninas da OCC tocando orgulhosamente seus instrumentos? Cala profundo o privilégio de ver a felicidade contagiante de servidores e voluntários, de gestores e professores. Estão fazendo a diferença! Verdade, estão corroborando para um mundo menos violento e uma vida mais digna. Como, acertadamente, se pronuncia o Dr. Targino: “Podem até não serem músicos no futuro; mas, certamente, serão cidadãos de bem”.
Embora a transformação estrutural da sociedade permaneça necessária, experiências coletivas concretas de educação e arte, como a Orquestra Criança Cidadã, demonstram que ações localizadas podem produzir mudanças reais na vida de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade. Fica, então, o nosso “Bravo!” à Orquestra Criança Cidadã, a todos que a constituem, pela beleza e efetividade social de seu trabalho dedicado.
A OCC é um testemunho vivo do quanto poetizou nosso João Cabral: “Um galo sozinho não tece uma manhã; ele precisará sempre de outros galos”. O amanhã está sendo construído com perseverança, suor e muita dedicação. Que venham múltiplos vinte anos! Nada mais adequado para uma orquestra tão fortemente comprometida com a educação e a elevação de patamares socioeconômicos de vida que a certeza de Lia de Itamaracá: “essa ciranda não é minha só, ela é de todos nós”. A OCC é nossa!