
Provocada pelas minhas próprias críticas à qualidade da informação que circula nas redes sociais, à polarização alimentada por falsas narrativas e, sobretudo, movida pela paixão de trazer nossas cidades para a pauta do debate público, há cerca de um ano resolvi escolher alguns temas para abordar por aqui e incentivar sua leitura com vídeos curtos em um exercício complicado de síntese para que não ultrapassem um minuto.
Para mim, habituada a dar aulas para turmas de, no máximo, 45 pessoas, alcançar entre duas e cinco mil visualizações parece um feito e tanto. Ainda que os dados do algoritmo me tragam de volta à realidade: menos de 18% das pessoas chegam até o último segundo do vídeo. Mas, dentro da minha perspectiva, mesmo na pior das hipóteses, isso representa mais de oito vezes o alcance de uma sala de aula. Claro, essa é a minha régua. Cada um tem seu próprio ângulo de visão.
Em um encontro com amigos que, como eu, gostam de escrever, comentávamos sobre os números de visualizações. Chegar a mil leituras em um texto publicado parecia a todos um feito extraordinário. Mas essa também é a nossa perspectiva: somos representantes das gerações Baby Boomer e X. Para outras gerações, a métrica é diferente.
Outro dia, caminhando em direção ao centro, acompanhada da minha filha, encontrei uma amiga que veio me contar que havia achado interessante um dos temas que eu tinha abordado. Aproveitei para comentar que, pelo visto, era uma temática que despertava interesse, pois o vídeo relacionado ao texto tinha ultrapassado mil visualizações em menos de três horas.
Nesse momento, minha filha me olhou, revirou os olhos e disparou:
— Ai, mãe, como tu é flopada!
Para quem não está familiarizado com a linguagem juvenil, flopada significa alguém que não deu certo, que fracassou, especialmente na internet. Afinal, do ponto de vista dela, qualquer influenciador que se preze ultrapassa a marca de um milhão de visualizações. Como eu disse: tudo depende do ângulo de visão.
Mas será que é só uma questão de perspectiva?
No cenário atual, as visualizações parecem ter adquirido um poder tão grande quanto vazio. Xingamentos, polêmicas, lacração e discórdia costumam despertar muito mais interesse do que conteúdos que exigem atenção, reflexão ou conhecimento. No dia a dia, cada um escolhe o que quer acompanhar. O problema começa quando até mesmo os assuntos sérios passam a ser submetidos à mesma lógica.
Nas últimas eleições, isso ficou bastante evidente.
O assustador não é simplesmente observar a relação entre o número de visualizações e os votos. É perceber como a popularidade nas redes pode estar associada a pautas vazias, discursos simplificadores e conteúdos muitas vezes desconectados das questões que realmente deveríamos estar debatendo.
E não faltaram pessoas dispostas a promover o bom debate. O triste foi perceber que, muitas vezes, quem apresentou propostas consistentes, argumentos fundamentados e disposição para discutir temas complexos acabou ficando à margem da grande vitrine digital. Flopou, como diria minha filha.
Temos que refletir sobre isso. E nós, mulheres, talvez ainda mais.
Que país é este em que mulheres com trajetórias tão distintas e relevantes, como Marina Silva, Juliana Benício, Kátia Abreu, Manuela d’Ávila, Simone Tebet e Benedita da Silva, ainda encontram dificuldades para se elegerem? Pela trajetória, deveriam ter votações expressivas que as legitimassem a ocupar os espaços de representação e decisão política.
Se você torceu o nariz para algum desses nomes, vale uma reflexão: será que seu posicionamento político permite enxergar para além das próprias convicções? Pelo menos escute. Procure conhecer suas trajetórias, suas ideias e os argumentos que sustentam suas propostas. Talvez encontre interlocutoras interessantes, com experiências muito diferentes entre si e pouco preocupadas em simplesmente lacrar.
Essas mulheres representam campos políticos, experiências e prioridades bastante distintos. Marina Silva tem uma trajetória marcada pela defesa do meio ambiente, do desenvolvimento sustentável e do enfrentamento às mudanças climáticas. Juliana Benício atua na defesa da inovação, da ciência, da tecnologia e da eficiência dos serviços públicos. Kátia Abreu tem sua história política ligada ao agronegócio, à produção agropecuária e ao desenvolvimento econômico. Manuela d’Ávila se destaca pela defesa dos direitos das mulheres, do combate à violência de gênero, da educação e do enfrentamento à desinformação. Simone Tebet tem atuação associada à gestão pública, à responsabilidade fiscal, ao desenvolvimento econômico e à redução das desigualdades. Benedita da Silva construiu sua trajetória na luta contra o racismo, pela igualdade de gênero e pelos direitos da população negra e dos grupos socialmente vulneráveis.
Não precisamos concordar com todas elas. Aliás, a diversidade de posições é justamente o que torna o debate necessário. Cada uma, a partir de sua experiência, traz conhecimentos, perspectivas e argumentos que podem ampliar nossa compreensão sobre os problemas do país. São trajetórias que merecem ser conhecidas e debatidas, inclusive por quem pensa diferente.
Pare. Escute. Apegue-se menos às siglas partidárias. Olhe com atenção para os currículos, a experiência, o envolvimento com as causas e a capacidade de argumentação. Vamos cultivar o respeito por quem tem a disposição e a coragem de defender ideias e propostas, inclusive quando elas contrariam as nossas.
O debate diverso é indispensável para avançarmos. E não custa dinheiro: exige apenas disposição para ouvir, ponderar, rever posições e construir possibilidades em conjunto. Sai muito mais barato do que transformar visualizações em medida de relevância, alimentando estratégias de impulsionamento e engajamento que movimentam enormes recursos, inclusive dinheiro público destinado às campanhas políticas.
Mas essas estratégias só têm valor porque damos palco a elas. Se queremos mudar essa lógica, precisamos formar uma massa crítica disposta a engajar no diálogo, no respeito e na capacidade de construir coletivamente.
Acredito muito no poder da alternância como forma de promover um desenvolvimento mais equilibrado. Sejamos protagonistas dessa mudança, exigindo que se converse a sério sobre o nosso país. Afinal, a democracia não se fortalece apenas com números, mas com ideias, participação e disposição para escutar as pessoas sérias e comprometidas.
Meu agradecimento às candidatas e aos candidatos que se apresentaram com pautas, causas e argumentos. Se vocês floparam, não se preocupem. Sigam estudando, se preparando e defendendo suas ideias.
Pois esta flopada aqui continuará torcendo por vocês.