
1 – Separava alguns de meus livros mais antigos para um evento no Sesc em Bento Gonçalves, em que lançarei O siri enamorado e outras fábulas, daqui a duas semanas, obras que costumo levar mais para compor uma trajetória de escrita, por uma possível curiosidade dos presentes, antes de qualquer coisa. Não sem surpresa, reparei que pareciam livros recolhidos de um sebo.
2 – Eram as minhas estantes em Porto Alegre o próprio sebo. Livros nunca abertos, cujas bordas se veem amareladas, capas sem dobras, mas de cores esmaecidas. O papel também envelhece, meu rapaz, ou melhor, senhor.
3 – E então percebo que alguns ali foram lançados há vinte, quinze, dez anos.
4 – Evito abri-los. Aquele que os escreveu era mais forte do que eu, mas, por sorte, menos astuto, e se na juventude fui muito crítico do que havia escrito, hoje olho com piedade para este ser que, comovedoramente, tentou dar forma ao mundo com palavras.
5 – O que é ofício vão, mas nunca desesperançado. Estaremos pouco tempo aqui, acabaremos, míseros, de corpo, senão de recursos, quase sempre dos dois. A escrita terá sido uma das mais dignas atividades, porque organiza e dá forma às nossas experiências, e, por meio dessas organizadas formas, às experiências dos outros.
6 – Às vezes não resisto, confesso, e espio um outro verso do antigo autor, que dizia-se velho e em crise aos trinta e cinco. Dou-lhe um abraço fraterno, de eu para mim.
7 – Antes envelhecer era algo que só acontecia aos livros dos outros.
8 – Espano o pó, passo uma borracha para retirar a mugre das lombadas. Com sorte um leitor, uma leitora jovens possam renovar, como fiz a meu tempo, as palavras que seguem suspensas em estado de página.
9 – A escrita é um mistério desses que passaremos por aqui sem entender.
10 – E isso me parece um diminuto milagre na manhã já quente de Porto Alegre.