
Essa semana, um projeto do qual sou fundadora, chamado Sessentônica, e que mensalmente promove encontros entre mulheres com o objetivo de criar conexões, oferecer novos conhecimentos, experiências e ideias para trocas, realizou sua reunião sobre “Libido sob a perspectiva da Medicina Chinesa”, com a especialista em Psicoterapia e Medicina Chinesa Loren Hofsetz.
Foi interessante observar que a expectativa inicial das mulheres participantes era de que a conversa girasse em torno de artifícios e instrumentos para melhorar a vida sexual, inclusive com a fantasia de que teríamos uma “mesa de produtos afrodisíacos” para apresentar. Também houve mulheres que justificaram ausência porque disseram preferir fazer encontros sobre esse tipo de assunto em grupos menores, por pensar na exposição que o tema poderia oferecer.
Aí me perguntei: por que a gente foi ensinada a perceber o erótico como algo pornográfico, até como algo sujo, que não pode ser conversado entre a gente, à luz do dia, sem piadas e risadinhas? Por que a gente foi ensinada a restringir o erótico ao quarto?
Pra começar
A palavra erótico é nascida da palavra “Eros”, que significa amor, em todos os seus aspectos, e não apenas sexual, como normalmente utilizado. Na Filosofia e Psicologia, onde ela tem esse conceito geral, é compreendida como força vital, energia criativa, que também chamamos de libido ou, popularmente, de tesão pela vida.
Portanto, é esse contato com o que nos faz sentir vivas, felizes e conectadas com nossa essência nas diversas áreas das nossas vidas, seja no trabalho, no lazer, na vida social e afetiva, que podemos chamar de nossa vida erótica.
Audre Lorde, feminista negra estadunidense, escreveu o artigo “Uso do erótico: o erótico como poder”, no livro Irmã Outsider, onde aborda este tema.
Nele, como explicitado por Audre Lorde, o erótico é frequentemente deturpado contra as mulheres, “transformado em uma sensação confusa, trivial, psicótica e plastificada”. Assim, esvaziado do seu real significado, a gente acaba por se negar a explorá-lo e a se aprofundar nele, experimentando o poder que dele podemos extrair para nossas vidas, pela autonomia e alegria de viver que nos proporciona. Porque, na confusão criada, ele é confundido como “pornográfico”, algo vazio, sem sentimento nem propósito, a não ser o sexo como fim nele mesmo e a gente, mulher, como objeto.
Sem julgamento
Aqui, por favor, não quero dar uma de julgadora para aquelas mulheres que curtem um filme pornô e apetrechos para apimentar suas atividades. Acho que vale a pena quando é feito com consciência de que o prazer é para ambos. Agora, quando é feito porque é pra agradar, aí fica a pergunta: do que você gosta? E há espaço nessa relação para o seu prazer ou só para o/a seu/sua parceiro/a?
Sempre os outros
A gente é muito boa em fazer leituras sobre o que os outros gostam e esperam de nós, companheiro/a, filhos, pais, chefe, parentes, colegas, amigos. Pelos olhares, gestos, tom da voz. Mas é bem comum que a gente mal saiba sobre o nosso próprio prazer, de tanto que a gente se ocupa em cuidar dos outros. E, mesmo que saibamos, mal sobra tempo pra exercitar essa conexão com essa satisfação íntima.
O erotismo
Porém, no momento em que descobrimos o que nos faz sentir bem nas diversas dimensões das nossas vidas e conseguimos exercitá-las, fazendo florescer essa energia vital e criativa na gente, percebendo a nossa capacidade e o nosso potencial, será o erotismo que estará operando em nós, conforme Audre Lorde nos ensina em seu artigo.
O erótico “é um sentimento íntimo de satisfação e, uma vez que o encontramos, sabemos que é possível almejá-lo… Somos ensinadas a dissociar a demanda erótica da maioria das áreas vitais das nossas vidas, com exceção do sexo. E a falta de preocupação com as bases e gratificações eróticas do nosso trabalho repercute em nossa insatisfação com muito do que fazemos.”
No encontro do Sessentônica, uma das mulheres presentes contava que, para não ser interrompida enquanto participava daquele momento escolhido, prazeroso, avisou aos familiares que ninguém a perturbasse durante a duração da reunião. Não é fácil estabelecer limites. Mas é necessário pra gente conseguir exercitar nossa conexão com o que nos importa.
A operação do erótico
Continuando com o texto da Audre Lorde, ela diz que o erótico opera de várias formas, “a primeira consiste em fornecer o poder que vem de compartilhar intimamente alguma atividade com outra pessoa”. E esse compartilhar cria uma ponte com essa/s pessoa/s, seja espiritual, emocional, físico, etc.
A outra maneira pela qual ela explica o porquê de o erótico operar é a de “ressaltar de forma franca e destemida a capacidade para o gozo”, o prazer. A forma “como os níveis de percepção se abrem para a experiência erótica” que for satisfatória, seja dançando, cantando, alongando-se, escrevendo, etc.
Essa é a razão pela qual o erotismo se transforma em algo perigoso num sistema feito para oprimir e submeter, pois, na medida em que sentimos bem-estar, alegria de viver, energia, nos sabemos capazes de desejar e alcançar mais.
Mulheres que aprendem e realizam o que as faz se sentirem mais plenas e intimamente satisfeitas nas diversas áreas das suas vidas, seja escrever poesia, pintar, cantar, correr ou trabalhar no que gostam. Mulheres que não abrem mão de seu prazer. Elas aprendem que possuem autonomia sobre sua libido. Pois ela está colocada em diversas áreas das suas vidas.
Assim, conseguimos ampliar o nosso olhar sobre o significado do erotismo. Dessa maneira, o erotismo está onde estiver colocado o nosso olhar de amor, no sentido mais amplo possível, utilizando-nos do nosso autoconhecimento para aprender o que desperta a nossa energia criativa e satisfação íntima. Sem a necessidade de criar a dependência emocional sobre o amor romântico como única fonte de prazer. Dessa maneira, podendo desenvolver laços mais saudáveis e livres com nosso/a parceiro/a.
Isso requererá um anticonformismo nosso. Uma postura de sair de uma atitude cômoda, confortável, talvez, para buscar observação interna, de análise, descoberta, experimentação de si mesma. Teremos algumas primeiras tentativas, que talvez deem certo logo de cara, ou não. Em direção a uma relação mais leve, honesta e livre consigo mesma. Num mundo onde é difícil assumir as rugas, o que dirá assumir o próprio prazer, seja lá em que área da vida for. É um desafio, mas não impossível.
Mas a troca de tudo isso, mesmo que aparentemente difícil, é altamente lucrativa, usando uma expressão bem capitalista, pois vem com o destravamento dessa energia interna e criativa.
E, finalizando com as palavras da Audre Lorde, “reconhecer o poder do erótico nas nossas vidas pode nos dar a energia necessária para lutarmos por mudanças genuínas em nosso mundo, em vez de apenas nos conformarmos com trocas de personagens no mesmo drama batido”.
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