
Ailton Krenak, pensador indígena brasileiro, tem um livro curtinho e bastante humanista chamado Ideias para adiar o fim do mundo. É uma leitura desconcertante. Krenak renega o entendimento apressado que o título poderia provocar em um leitor curioso, contando logo nas primeiras páginas que o nome do livro surgiu numa provocação, para uma palestra que foi convidado a dar para alunos de mestrado na Universidade de Brasília. Mais ainda: ele mesmo não tinha uma ideia clara de como desenvolvê-lo:
“Eu fiquei muito feliz com o convite e o aceitei, então me disseram: ‘Você precisa dar um título para a sua palestra’. Eu estava tão envolvido com as minhas atividades no quintal que respondi: ‘Ideias para adiar o fim do mundo’. A pessoa levou a sério e colocou isso no programa. Depois de uns três meses, me ligaram: ‘É amanhã, você está com a sua passagem de avião para Brasília?’. ‘Amanhã?’ ‘É, amanhã você vai fazer aquela palestra sobre as ideias para adiar o fim do mundo’.
“No dia seguinte estava chovendo, e eu pensei: ‘Que ótimo, não vai aparecer ninguém’. Mas, para minha surpresa, o auditório estava lotado. Perguntei: ‘Mas todo esse pessoal está no mestrado?’. Meus amigos disseram: “Que nada, alunos do campus todo estão aqui querendo saber essa história de adiar o fim do mundo’. Eu respondi: ‘Eu também’.”
Na prática, o que Krenak faz na palestra publicada no livro não é meramente listar um conjunto de “ideias para”, como faria um conferencista de Ted Talk qualquer, mas pôr em conflito duas visões de mundo. Ao conceito europeu de “civilização”, em que a indústria e o engenho humano subjugam a natureza produzindo “riqueza”, ele contrapõe a visão orgânica e anímica dos povos indígenas que resistiram ao apocalipse de suas formas de organização social após a chegada dos brancos, uma mentalidade que, ele comenta, não vê uma “humanidade” separada do mundo natural e interferindo nele, mas outro elemento uno com a natureza:
“Fomos, durante muito tempo, embalados com a história de que somos a humanidade. Enquanto isso – enquanto seu lobo não vem –, fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ele é uma coisa e nós, outra: a Terra e a humanidade. Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza. Tudo é natureza. O cosmos é natureza. Tudo em que eu consigo pensar é natureza.”
Eu disse que é uma leitura desconcertante. Talvez seja hora de explicar por quê.
Sendo Ideias para adiar o fim do mundo um livro curtinho, já o reli umas quantas vezes, a mais próxima nesta semana. Embora o livreto tenha sido lançado no auge do delírio bolsonarista, ler Krenak nestas semanas em que o fim do mundo parece estar chegando antes até do que pensamos é uma experiência desesperadora, saudosa até. Olha só, como era bom ter a perspectiva de que ainda havia tempo para eleger uma alternativa à pura e simples autodestruição.
Homem e natureza
O foco da abordagem de Krenak é a preocupação com o rumo catastrófico que tomava a civilização capitalista de base europeia exportada para o mundo todo. A agressão à floresta, a expulsão dos povos das “margens” desse sistema, a visão de que o mundo natural é um “recurso” a ser explorado e mesmo o que ele considera uma das maiores imposturas da coisa toda, os projetos falaciosos de “desenvolvimento sustentável” e o interesse perverso de uma “preservação” em pequeníssima escala do mundo natural “para inglês ver”
“Quando a gente quis criar uma reserva da biosfera em uma região do Brasil, foi preciso justificar para a Unesco por que era importante que o planeta não fosse devorado pela mineração. Para essa instituição, é como se bastasse manter apenas alguns lugares como amostra grátis da Terra. Se sobrevivermos, vamos brigar pelos pedaços de planeta que a gente não comeu, e os nossos netos ou tataranetos – ou os netos de nossos tataranetos – vão poder passear para ver como era a Terra no passado. Essas agências e instituições foram configuradas e mantidas como estruturas dessa humanidade. E nós legitimamos sua perpetuação, aceitamos suas decisões, que muitas vezes são ruins e nos causam perdas, porque estão a serviço da humanidade que pensamos ser.”
Krenak é um sábio, mas ler isto na semana em que estivemos mais perto de um colapso nuclear total em 35 anos pareceu amargo. E decepcionante, a seu modo. Como a gente vai conseguir alavancar a mínima iniciativa de preservação a longo prazo se o mundo está caindo nas mãos de uma extrema-direita insana para quem o Capital é o único valor (em mais de um sentido)?
A luta pela preservação ambiental não é tão nova assim, mas um dos momentos em que ganhou impulso renovado foi com a implosão da União Soviética e o fim da Guerra Fria. Com alguma razão. Em um mundo em que o fim da experiência do comunismo real autorizou alguns babacas entusiasmados como Francis Fukuyama a declarar o fim da História e a vitória definitiva do liberalismo, fazia sentido se preocupar com os efeitos disso a longo prazo no único planeta em que vivemos. Sem a aparente divisão mundial em blocos, também ganhavam força iniciativas que clamavam por esforços globais em larga escala, e tivemos a Eco 92, no Rio, como um marco desse espírito.
Como comenta David Wallace-Wells em um livro do qual já falei nestas colunas, A Terra Inabitável, a ironia é que boa parte dos estragos feitos ao clima no planeta não foram realizados em escala gradual desde a industrialização do século XVIII, mas nos trinta anos que nos separam dos anos 1990. Ao mesmo tempo em que ganharam impulso as questões ecológicas, aumentaram as iniciativas de exploração predatória e de produção descontrolada de bens que levaram a Terra a um ponto do qual será difícil voltar.
O fim à vista
E a cereja do bolo vivemos agora, numa década em que a maré política nos jogou nos braços de uma extrema-direita individualista e neoliberal em ascensão no mundo todo. Um tempo em que as grandes potências – como comentei aqui – já não se preocupam mais com desculpas para ir lá e tomar na mão grande território alheio ou até mesmo sequestrar um presidente de outro país – o fato de que o tal presidente era um ditador é algo que eu não discuto. A questão aqui é meio que de princípios. Um dia é o Maduro, no outro, em meio a uma disputa comercial mais renhida, pode ser qualquer um que desagrade o futuro imperador laranja Tramposo I.
O mesmo que, aliás, precipitou uma terça-feira de horror global ao prometer aniquilamento completo de uma “civilização antiga”, referindo-se, claro, ao Irã contra quem ele começou uma guerra que talvez não consiga terminar. Sendo os EUA dotados da Bomba Atômica, a ameaça carregava prospectos sinistros, e estando o Irã em posição de fazer alguns estragos gigantescos na região antes de cair, bem, a última terça-feira será lembrada no futuro, se houver futuro, claro, como são lembrados os 13 dias de escalada de tensão da Crise dos Mísseis em Cuba, em 1962. Uma sombra que, a propósito, ainda não se dissipou, já que o novo recuo dos EUA simplesmente adiou um novo prazo para daqui a duas semanas.
Embora seja um bufão, Trump não é necessariamente aleatório, apenas age de modo caótico enquanto, com um plano deliberado, se movimenta para garantir o domínio dos “recursos minerais” do planeta para manter a hegemonia energética dos EUA. Seus ataques à Venezuela e agora ao Irã se dão na rota do controle do petróleo. Várias de suas manifestações são ameaças e chantagens em busca de reservas de terras raras das quais dependem o avanço tecnológico futuro.
É uma dúvida se alguém com esse tipo de personalidade e cálculo está pronto para apostar tudo ou nada. Mas nunca se sabe. Aliás, na crise dos mísseis de 1962, quem começou o processo de desaceleração das animosidades foi o lado soviético, com Nikita Khrushchov ligando diretamente para John Kennedy, algo que o cinema americano gosta de esquecer quando reconta o episódio.
Na atual crise, temos de um lado um palhaço cruel precisando tomar riquezas alheias para afastar a atenção pública de sua participação provável em uma rede internacional de pedofilia, e do outro, um sinistro conjunto de clérigos fanáticos e autocratas para quem o mundo seria melhor se retrocedesse à Idade Média (curiosamente, o mesmo pensamento perpassa a ortodoxia religiosa judaica que estimula a ocupação ilegal de mais territórios palestinos e a extrema-direita cristã que tem suas próprias “ideias para acelerar o fim do mundo” e o consequente “retorno do Senhor”, mas parece haver um confortável esquecimento disso nos dois casos). Imaginar que qualquer uma dessas partes vá participar de boa vontade de uma ligação telefônica para impedir o Apocalipse é quase como imaginar uma ficção fantástica além de qualquer verossimilhança.
Por isso, ler o livro de Krenak foi uma experiência de melancolia desesperançada. Não apenas o contraponto à visão da humanidade como máquina de exploração dos “recursos” de uma natureza da qual se vê afastada não foi ouvido como o processo que ele critica parece ter se intensificado.
Já que adiar o fim do mundo parece meio fora de mão no momento, talvez devêssemos cada um de nós esboçar nossas próprias “ideias para viver no fim do mundo”.
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