
No artigo Arquitetos e edifícios em altura, procurei mostrar como construções individuais, aparentemente isoladas, produzem efeitos que se espalham pela cidade inteira, afetando a coletividade. Impermeabilizam o solo favorecendo inundações, ampliam a demanda por água, saneamento, coleta de lixo, circulação de veículos. E, quando avançam sobre áreas verdes, ainda contribuem para elevar a temperatura urbana.
Mesmo assim, nada disso significa que não devamos construir. Significa, antes, que toda nova construção deveria ter um propósito claro, ligado a solucionar demandas reais, para devolver à cidade algo à altura dos impactos que gera. Afinal, para que — e para quem — serve aquilo que estamos autorizando a produzir?
Essa pergunta simples expõe uma contradição profunda do nosso tempo. Aperfeiçoamos como nunca a engrenagem da produção de bens e consumo, mas também nos especializamos em criar desejo. Em todas as áreas, em todos os nichos. A chamada “escassez artificial” nos empurra para uma insatisfação permanente — nunca basta, nunca é suficiente. O próximo objeto já nos chama, como em uma fase seguinte de videogame.
O fast fashion, como se denominam as coleções de moda da temporada, talvez seja uma das expressões mais evidentes dessa lógica. Roupas, sapatos, acessórios — tudo se renova em ciclos cada vez mais curtos, não porque precisamos, mas porque somos estimulados a desejar, mesmo tendo peças suficientes no guarda-roupa. Esse desejo não nasce de uma necessidade real, mas de uma capacidade produtiva que precisa se manter em movimento dentro de um sistema econômico baseado na expansão contínua. O resultado é um volume crescente de excedentes, descartados ano após ano, ocupando áreas imensas do planeta. Basta observar, no caso dos têxteis, o Deserto do Atacama, o mercado de Kantamanto, o aterro de Dandora ou os polos de Panipat. São territórios que hoje absorvem esses excessos, embora já tenham ultrapassado há muito sua capacidade de resposta dentro de uma lógica que, em si, é insustentável. Nenhum deles está nos países mais ricos. Como regra, os impactos recaem sobre quem tem menos recursos.
Falar em sustentabilidade dentro desse sistema, portanto, carrega uma tensão inevitável. Produzimos porque podemos — e muitas vezes independentemente de haver uma necessidade real. Gostamos de falar em inovação, mas seguimos, em grande medida, repetindo velhas fórmulas de desenvolvimento desconectadas de demandas reais. Talvez porque mudanças profundas exijam mais do que técnica: exijam disposição coletiva.
É claro que esse debate ganha contornos particulares em países como o nosso. Modelos econômicos mais equilibrados, que articulam tecnologia, cuidado ambiental e justiça social, costumam florescer em contextos com maior estabilidade, renda e acesso a direitos básicos. Ainda assim, a pergunta permanece: como avançar, mesmo dentro das limitações?
Talvez o primeiro passo seja buscar algum grau de equilíbrio — ainda que mínimo. E é aqui que volto à cidade.
Há alguns anos, assisti à apresentação de uma tese que analisava um projeto urbano em Utrecht. Uma cidade holandesa com forte presença industrial e universitária, que enfrentava um problema bastante concreto: a falta de moradias acessíveis, especialmente para jovens.
A resposta foi direta. A demanda orientou um acordo entre poder público e investidores privados para o desenvolvimento da chamada Merwedekanaalzone, um projeto de cerca de 24 hectares com previsão de seis mil novas unidades habitacionais. Estabeleceu-se ali uma regulação clara na comercialização das unidades construídas: 35% de habitação de baixo custo, 20% para aluguel intermediário e 45% para o livre mercado.
Mas o que mais chama atenção não é a densidade, nem a permissão de alguns edifícios que chegam a quinze andares. O valor do projeto está, sobretudo, na qualidade urbana proposta: ruas desenhadas para pedestres e ciclistas, incentivo à mobilidade ativa, espaços públicos generosos e arborizados, soluções baseadas na natureza incorporadas às edificações. Próximo à universidade, a mistura entre moradia e pequenos negócios reforça a vitalidade cotidiana do bairro.
Entre o projeto e sua realização há sempre distâncias — ainda mais em intervenções urbanas, que levam anos para se concretizar. Ainda assim, é um caso que acompanho com interesse, na expectativa de que se consolide como referência.
Ali, o setor privado inovou ao investir em um bairro de alta qualidade ambiental e autossustentável. Isso gerou contrapartida através de incentivos públicos que fortaleceram o próprio empreendimento. Não parece um mau negócio para ninguém.
Tenho admiração pela criatividade de bons empreendedores. Quando há uma estratégia urbana clara por parte do poder público, soluções engenhosas tendem a surgir. Projetos como esse sugerem que é possível conciliar desenvolvimento com menor impacto ambiental e maior aderência às demandas reais da população.
Mas essa equação só se sustenta quando existe uma visão coletiva de cidade.
A tese que mencionei foi desenvolvida por um técnico da prefeitura — o que não é um detalhe menor. Revela que há profissionais que compreendem o seu papel de corpo técnico qualificado, porém isso não basta. É preciso autonomia para pensar no longo prazo. Para avançar, precisamos de um corpo técnico que tenha voz, que atue com transparência e que consiga estabelecer parcerias estratégicas, sem se submeter às oscilações de cada mandato.
Decisões de planejamento deveriam ser decididas tecnicamente e não por emendas dentro de estruturas políticas de mandatos temporários. No urbanismo, os impactos negativos, em geral, ocorrem no longo prazo, e, neste formato, os responsáveis não existem. A ideia de ter técnicos com estabilidade também representa sua responsabilidade pelos eventuais resultados, tanto positivos quanto negativos.
Conciliar sustentabilidade ambiental, viabilidade econômica e justiça social talvez seja um dos maiores desafios do nosso tempo. Não há respostas simples. Mas há caminhos possíveis — e eles começam, muitas vezes, com perguntas bem formuladas.
Isso, sim, pode ser verdadeiramente inovador.
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