
Em 2002, participei do meu primeiro congresso internacional de arquitetura, em Berlim. Confesso que, para quem ainda não conhecia a cidade, foi difícil equilibrar a programação do evento com a vontade de explorar suas ruas, parques e edifícios. Mesmo assim, algumas palestras ficaram gravadas na memória.
Uma delas foi a de Klaus Töpfer, então diretor do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Seu discurso era acompanhado por simulações que mostravam o impacto das mudanças climáticas em diversas cidades do planeta. Entre as imagens, apareciam cenários de inundações projetados para as décadas seguintes.
Aquilo me impressionou.
Primeiro porque não se tratava de um futuro distante. Fiz as contas rapidamente: quando aquelas projeções começassem a se concretizar, eu ainda não teria completado cinquenta anos. Como muita gente, preferi acreditar que havia algum exagero naquelas previsões. Mas a verdade é que saí dali com uma inquietação que nunca mais desapareceu.
Naquele período, o Brasil investia pesadamente em infraestrutura voltada aos automóveis. O discurso do desenvolvimento estava associado à ampliação de avenidas, à abertura de novas vias e à pavimentação de extensas áreas urbanas. Asfaltar era sinônimo de progresso.
Pouco se falava sobre impermeabilização do solo.
Pouco se discutia o papel das árvores.
Pouco se pensava na água.
Seduzidas pela lógica da velocidade, muitas cidades acabaram tornando a vida mais difícil justamente para quem vive nelas. Em várias avenidas urbanas, o aumento do fluxo de veículos trouxe ruído, poluição e desconforto, tornando menos atrativa a permanência das pessoas.
Em Porto Alegre, a Avenida Farrapos talvez seja um dos exemplos mais emblemáticos. Localizada em uma área central, com excelente acessibilidade e infraestrutura instalada, apresenta há décadas dificuldades para manter o uso residencial. A enchente agravou esse quadro, mas o processo já vinha ocorrendo muito antes dela.
E esse é apenas um exemplo.
Passadas mais de duas décadas daquela palestra em Berlim, seria razoável imaginar que estivéssemos em plena transição para outra lógica urbana.
Porque inovar não é apenas criar algo novo.
Inovar é reconhecer problemas e construir soluções capazes de enfrentá-los.
Talvez seja importante insistir nesse ponto.
Com frequência confundimos inovação com tecnologia. Mas nem toda novidade tecnológica representa um avanço real. Algumas soluções resolvem um problema específico, enquanto criam outros ainda maiores quando se tornam dominantes.
O automóvel individual é um bom exemplo disso.
Ele ampliou enormemente a mobilidade das pessoas, mas também contribuiu para congestionamentos, emissões de poluentes, ocupação excessiva do espaço urbano e aumento da impermeabilização das cidades.
Hoje, milhares de estudos científicos em todo o mundo apontam para a urgência da adaptação climática. E uma das respostas mais interessantes vem justamente de algo que, à primeira vista, parece simples: a vegetação.
Cidades que investem em corredores verdes já compreenderam que árvores, parques, cursos d’água e áreas vegetadas não são apenas elementos paisagísticos.
São infraestrutura. Infraestruturas verdes e azuis.
Tão importantes quanto ruas, sistemas de drenagem, redes de energia ou transporte público.
Nas últimas décadas, os efeitos das enchentes, das ilhas de calor e da perda de biodiversidade tornaram essa compreensão cada vez mais necessária. Fenômenos extremos passaram a ocorrer em lugares onde antes eram raros. E, onde já aconteciam, os intervalos entre um evento e outro tornaram-se mais curtos.
Talvez Klaus Töpfer não estivesse exagerando tanto assim.
Mas os corredores verdes não são apenas uma resposta climática.
Eles representam uma mudança de paradigma.
Em vez de organizar a cidade apenas a partir da circulação dos veículos, procuram estruturá-la considerando a água, a vegetação, a biodiversidade e as pessoas.
Quando parques, praças, arborização urbana e espaços públicos verdes se conectam em rede, produzem benefícios que vão muito além da paisagem.
Diversos estudos mostram que cidades mais arborizadas apresentam melhores indicadores de saúde física e mental. A vegetação reduz a temperatura, melhora a qualidade do ar, diminui a exposição ao ruído e cria ambientes mais agradáveis para caminhar, pedalar e permanecer.
O contato com a natureza reduz níveis de estresse e ansiedade, melhora a concentração e fortalece os vínculos sociais.
Parece pouco.
Mas não é.
Em um mundo cada vez mais acelerado, a possibilidade de encontrar sombra, silêncio e beleza no caminho cotidiano pode fazer enorme diferença.
A ausência desses espaços produz justamente o contrário: mais sedentarismo, mais isolamento, mais exposição a poluentes e maior vulnerabilidade emocional.
E aqui surge uma questão fundamental.
As mudanças climáticas não afetam todas as pessoas da mesma maneira.
A desigualdade também está desenhada no território.
Nas áreas mais vulneráveis das grandes cidades, onde predominam construções precárias e poucos espaços livres, as temperaturas costumam ser mais elevadas. Faltam árvores, parques e áreas de convivência. As ondas de calor tornam-se mais severas exatamente onde a população possui menos recursos para se proteger delas.
Quando áreas verdes não são distribuídas de forma equilibrada, a cidade passa a produzir desigualdade também por meio da saúde.
A boa notícia é que a infraestrutura verde costuma ser muito mais barata do que muitas das grandes obras de infraestrutura que ocupam o debate público.
Corredores verdes podem ser formados por avenidas arborizadas, parques lineares, ciclovias integradas à vegetação, recuperação de cursos d’água e qualificação de espaços públicos existentes.
Eles oferecem sombra.
Reduzem enchentes.
Melhoram o conforto térmico.
Aumentam a biodiversidade.
Favorecem a mobilidade ativa.
E ajudam a tornar a cidade mais saudável.
Poucas intervenções urbanas conseguem reunir tantos benefícios ao mesmo tempo.
Mas nada disso acontece por acaso.
Árvores não surgem espontaneamente nos orçamentos públicos.
Corredores verdes exigem planejamento, desenho urbano, recursos e continuidade administrativa.
Exigem que deixemos de enxergar a vegetação como um adorno e passemos a tratá-la como aquilo que realmente é: uma infraestrutura estratégica para o futuro das cidades.
Uma prioridade.
Uma das formas mais inteligentes de inovação disponíveis hoje.
Uma inovação que não depende apenas de algoritmos, aplicativos ou inteligência artificial.
Uma inovação feita de solo, água, sombra e folhas.
E que, justamente por isso, talvez seja a mais urgente de todas.
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